William Carlos Williams: O poeta da ínfima grandeza da humanidade das coisas

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Poeta, ficcionista, autor dramático, ensaísta e memorialista, William Carlos Williams nasceu em Ruthford, Nova Jersey, E.U.A., a 17 de Setembro de 1883, e aí veio a falecer a 4 de Março de 1963.



William Carlos Williams: O poeta da ínfima grandeza da humanidade das coisas

Fez os estudos primários e secundários na sua cidade natal, tendo sido enviado em 1897 para Génova e Paris, onde estudou durante dois anos.

De regresso, estudou em Nova Iorque e, depois de ter sido aprovado num exame especial, foi admitido em 1902 na Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, onde concluiu a formatura em1906.

Estudante do 1.º ano de medicina conheceu o poeta Ezra Pound (também ele aluno da mesma Universidade, mas de letras), de quem se tornou imediatamente amigo, e cuja amizade perdurou até ao fim da vida de Williams.

Ainda na Pensilvânia conheceu a poetisa H.D. (Hilda Doolittle), outra amizade intelectual importante para Williams.

Em 1909, publica “Poems”, o seu primeiro livro, com o nome de William C. Williams. O segundo livro, “The Tempers”, já assinado como nome de William Carlos Williams, virá a lume em Londres, em 1912, pela intercedência de Ezra Pound, que se tornará no maior promotor, agente e divulgador da poesia “moderna” e de toda a literatura de vanguarda: “Digamos então”, escreve Pound no seu livro “Make it New” (Londres, 1934), “que, a partir de 1912 e durante mais de uma década me empenhei em forçar a edição e, secundariamente em comentar a respeito, de certas obras hoje reconhecidas como válidas por todos os leitores competentes.”

É neste espírito de rutura com “a dicção poética predominante na época”, que William Carlos Williams ingressa no movimento Imagista, cujo mentor era Pound, e cuja publicação, “Des Imagistes”, de 1914, conglomerava nomes como os de H.D., Richard Aldington, F.S. Flint, Skipwith Cannell, Amy Lowell, James Joyce, Ford Madox Ford, Allen Upward e John Cournos, para além do próprio Pound e de Williams.

Com o advento da I Guerra Mundial e o subsequente exílio de vários intelectuais europeus em Nova Iorque, William Carlos Williams adere, em 1915, ao grupo “The Others” (“Os Outros”).

Fundado pelo poeta Alfred Kreymborg e pelo fotógrafo e artista plástico Man Ray, faziam ainda parte deste grupo Walter Conrad Arensberg, Wallace Stevens, Mina Loy, Marianne Moore e Marcel Duchamp.

Em 1917d á à estampa “Al Que Quiere!”. Em 1920, na sequência da publicação do seu livro mais arrojadamente experimental, “Kora in Hell: Improvisations”, Williams sofre violentas críticas, inclusive dos seus amigos mais chegados, como H.D. (que apodou a obra de “petulante e superficial”), enquanto Ezra Pounda considerou “uma obra incoerente”.

No ano seguinte aparece “Sour Grapes”, e, dois anos mais tarde, “Go Go” e “Spring and All”, podendo ler-se nesta última obra alguns dos seus poemas que o tempo transformou em verdadeiros clássicos da poesia norte-americana, como “By the Road to the Contagious Hospital”, “The Red Wheelbarrow”, e “ToElsie”.

Entretanto, a publicação em 1922 de “The Waste Land” de T.S. Eliot, que se tornara de imediato num dos maiores monumentos da poesia mundial do século XX, ensombrou as aspirações literárias de Williams.

E tal foi o impacto, que Williams acabou confessando na sua “Autobiografia” como a publicação de “The Waste Land” o fez “sentir, de uma vez por todas, ter regredido vinte anos” nas suas pesquisas e no seu labor poético, voltando a publicar apenas em 1932, “The Cod Head”.Em1934 sai a público a primeira reunião da sua obra poética, “Collected Poems 1921-1931”, a que se seguem “An Early Martyr and Other Poems”, (1935), “Adam & Eve &The City”, (1936), “The Complete Collected Poems: 1906-1938”, (1938), “The Broken Span”, (1941), “The Wedge” (1944), até à publicação da vasta epopeia “Paterson”, originalmente dada à estampa em cinco volumes, entre 1946 e 1958, e que venceu o National Book Award for Poetry, em 1950.

Contrapondo o coloquial da língua inglesa falada nos E.U.A. (que de longe preferia) ao intelectualismo de Eliot (com seu uso frequente de linguagens e alusões da literatura clássica europeia), Williams construiu a sua obra escorada na história, no povo e na alma da cidade de Paterson, em Nova Jersey.

Em “Paterson”, onde a imagem da cidade é como um homem deitado a seu lado, povoando os lugares e as ruas com os seus pensamentos, Williams tentou a escrita e a criação do seu próprio poema épico, visceralmente moderno, centrando-o “não em ideias, mas em coisas”, utilizando e impondo o “regionalismo” numa radicalidade que antes apenas havia ensaiado.

Inovador, incansável experimentalista do “fazer poético”, Williams influenciou profundamente os poetas da Beat Generation, sendo considerado por estes, com Allen Guinsberg à cabeça, um profeta na “Revolução da Palavra” e uma alternativa ao gosto instituído pelas academias.

Para além de várias antologias e reuniões da sua poesia, publicou ainda: “The Clouds”, 1948; “The Pink Church”, 1949; “The Desert Music and Other Poems”, 1954; “Journey to Love (includes Asphodel, That Greeny Flower)”, 1955; “The Lost Poems of William Carlos Williams; or, The Past Recaptured”, 1957; “Pictures From Brueghel and Other Poems”, 1962, a que foi atribuído postumamente o PrémioPulitzer, em1963.

Obra em prosa (ficção, ensaio, autobiografia e teatro): “The Great American Novel”, 1923; “In the American Grain (essays)”, 1925; “A Voyage to Pagany (novel)”, 1928; “The Knife of the Times, and Other Stories (short stories)”, 1932; “A Novelette and Other Prose”, 1932; “The First President (three-act libretto for an opera)”, 1936; “White Mule (novel; part I of trilogy)”, 1937; “Life along the Passaic River (short stories)”, 1938; “In the Money (novel; part II of White Mule trilogy)”, 1940; “A Dream of Love (three-act play)”,1948; “A Beginning on the Short Story: Notes”, 1950; “Make Light of It: Collected Stories”, 1950; “Autobiography”,1951; “The Build-Up (novel; part III of White Mule trilogy)”, 1952; “I Wanted to Write a Poem: The Autobiography of the Works of a Poet”, 1958; “Yes, Mrs. Williams: A Personal Record of My Mother”, 1959; “Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams”, 1961; “The Farmers’ Daughters: Collected Stories”, 1961.

Em 1949 William Carlos Williams foi convidado para consultor da Biblioteca do Congresso, tendo então declinado o convite, alegando motivos de saúde: sofrera um ataque cardíaco, que o haveria de marcar para o resto da vida.

Porém, a sua devoção à causa da poesia não se alterou: apenas o tema da morte como exorcismo em favor da vida, e o tema do amor que se regenera (ou seja, como sublinhou Hofstadter, “o amor e a imaginação como essência da vida”) se tornaram mais presentes na sua obra.

Acusado, na sequência da publicação do seu poema “Rússia”, de comunista, pela editorada revista Lyric, não pôde Williams, quando em1952 decidiu aceitar o cargo na Biblioteca do Congresso, assumi-lo, nem jamais o convite lhe foi alguma vez renovado.

A permanente atenção, quer à ínfima grandeza das coisas do mundo, quer ao sentido mais frágil ou mais heróico do ser humano (a que não é alheia a sua condição de médico), ou ao seu lado trágico e não raro burlesco, fazem da poesia de William Carlos Williams um hino à vida numa contenção exuberante do seu dizer inaugural e límpido.

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