1961, memória de um ano decisivo

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O maior espólio documental da narrativa independentista angolana.

1961, memória de um ano decisivo
Capa do livro

Confrontado com a magnitude dos “Trilhos da Independência”, que a Associação Tchiweka entendeu oferecer-nos como uma das mais recentes e valiosas peças do nosso acervo histórico-político,mergulhamos agora nas raízes das histórias trilhadas nas cento e noventa e oito páginas daquilo que pode ser já o maior espólio documental reunido até hoje à volta da nossa narrativa independentista,com a amplitude de uma utopia que se consagrou na nossa maior saga: a conquista da Independência!
Não resisti também ao pioneirismo de um trabalho de investigação de uma envergadura ímpar, que tem o DNA de um nacionalista cuja grandeza se confunde com a epopeia de milhares de angolanos que, naquele tempo, há mais de cinquenta anos, cada um à sua maneira, deram o melhor de si para abrirem os caboucos do nosso edifício pátrio.
Por essa razão, as fotografias, os vídeos e as gravações, mais do que o acervo e o legado do nacionalista Lúcio Lara, são a expressão do grito de alma de uma imensa geração depositária dos mais nobres valores do nosso moderno nacionalismo.

Foi por essa razão que, desde o primeiro momento, entre Fevereiro de 2011 e Janeiro de 2012, a equipa do Novo Jornal da qual eu fazia parte, se associou, incondicionalmente, a esta iniciativa.
Contagiado pela sua dimensão, o Novo Jornal de então abriu-lhe as páginas e,assumindo-se cúmplice da mesma causa, paginadores e jornalistas, entenderam contribuir, de forma modesta, para a sua visibilidade ao irradiar grafismos e afins extraordinários para um projecto que era então uma esperança e um sonho e que, agora, se tornou realidade.
Esta é uma obra que não foi gerada por nenhuma universidade, nem recebeu o concurso de nenhuma consultora estrangeira, como agora, exageradamente, virou moda.
Também não foi escrita por nenhum jornalista insigne, que quase já não os há, nem por jovens engravatados que, falando de cátedra, da história têm a mesma vaga noção que alguns dos nossos novos ricos têm da pobreza...
Estamos perante uma arma poderosa, que resistiu a todas as tentativas de rasura da história da Independência e mesmo a certas correntes negacionistas, que gostariam de ver triunfada aqui uma narração “descafeinada”.
Se essa narração se impusesse, não sejamos inocentes, prevaleceria a manipulação da verdade através de uma subtil selecção de acontecimentos, que daria lugar à criação de mitos para justificar doutrinas e práticas do passado e do presente.
Se essa narração triunfasse, assistiríamos, não tenhamos ilusões, a exclusão de partes da nossa memória colectiva e de grupos mais sensíveis, tais como as minorias étnicas, políticas, religiosas ou raciais.
A Associação Tchiweka preferiu a Nação e decidiu memorizar um pedaço chave da nossa história cuja riqueza assenta na sua transversalidade.
Nele estão projectados depoimentos e fotos memoráveis depatriotas angolanos, de outros combatentes africanos anti-colonialistas e também de anti-fascistas portugueses, que decidiram solidarizar-se coma causa angolana.
Não há aqui, nesta obra,angolanos da UPA, da FNLA, do MPLA, da Revolta Activa, da Revolta do Leste ou da UNITA. Há aqui apenas angolanos! Estamos aqui, porventura, perante a viagem documental de maior fôlego nacionalista, que carrega o mérito de estar despida de estreitismos partidários ou de preconceitos de natureza étnica, tribal, racial ou religiosa.
Estamos perante um hino à reconciliação, escrito com poemas que afastam a exclusão e procuram antes irmanar passados com percursos diferentes mas todos eles trilhando o mesmo espírito.

Folhas ressuscitadas
Estamos perante uma obra com nome e endereço próprios,cujos testemunhos retratam os horrores da ocupação colonial, os mortos, nas cidades e nas matas, os perseguidos e os desaparecidos.
Estamos perante um monumento esculpido com devoção e discrição, fora dos holofotes da propaganda, feito por gente simples, modesta e abnegada, que fez desta investigação um desafio em busca de um passado e de um tempo que, porventura, muitos julgavam perdidos...
A leitura desta obra gera emoções e obriga-nos a reviver a chama do protesto que galvanizou milhares de nacionalistas de diferentes matizes políticas que, enjaulados pela PIDE na luta clandestina ou empunhando armas nas matas, lançaram as sementes da inesquecível gesta da libertação de Angola das grilhetas do ocupante português.
Comprometidas apenas com a história, queiram as novas gerações ler esta obra, que ajudará a compreender o passado e a iluminar o futuro, através do que a Associação Tchiweka qualificou como “folhas arquivadas, que não serão mortas, antes renovadamente ressuscitadas”.
Por isso é que esta é daquelas obras que deveria figurar nos escaparates das nossas livrarias e nas galerias das bibliotecas dos nossos estabelecimentos de ensino público e privado.
Porque partiu da ideia do resgate da história, da ideia da liberdade de pensar, de fazer, de ser e de ver a história sem complexos e sem zonas de sombra ou de escuridão.
Estamos perante um notável levantamento de uma parte significativa da história, feita por uma associação que recusa, porém, ser detentorado monopólio dos seus despojos.
Por isso é que esta vasta compilação escrita, documental, iconográfica e testemunhal, feita em tempo oportuno, desafia a isenção e a liberdade dos historiadores para que persigam a investigação agora iniciada pela Associação Tchiweka.
E, porque é que os historiadores são chamados a enfrentareste desafio?
Para que as novas gerações saibam que houve um antes e um depois. Para que a geração 80 interiorize que o passado aconteceu e não pode “desacontecer”.
Para que a geração Google, aquela que tem tudo ao toque do teclado, que sabe quase tudo a respeito dos outros, não diga nunca, por nunca, que nunca ouviu falar dos horrores do colonialismo e da resistência anti-colonial protagonizada por milhares de heróis anónimos.
Gustavo Costa

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