9ª Maravilha

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Estando reveladas as 7 Maravilhas Naturais de Angola, apanha-se boleia para ir descobrindo outras e aumentar contagem.

9ª Maravilha
9ª Maravilha

Lá nos esperam com a paciência com que a natureza tem o prazer de viver. São muitas que podemos encontrar pelo país, chamemos a todas de 9ª maravilha, pedaços de território pouco percorridos, tão anónimos quanto maravilhosos.
Uma de cada vez. A nós, levou-nos o caminho pela costa sul da província de Benguela, por intrincada rede de picadas com muito pouco movimento.
Água, pão, queijo, gasosas, compras em Benguela e depósito cheio. Levar da cidade tudo para a autonomia exigida a quem se dirige onde não há lojas nem empreendedores vendendo na rua. A última ligação à economia dos Kwanzas é a paragem no mercado do Dombe Grande para comprar frescos.
Direcção Sul, pela estrada que liga ao Namibe sem se passar pelo Lubango. Pouco utilizada porque depois do Dombe Grande acaba o asfalto e assim se mantém por muitos quilómetros. A natureza começa a ocupar mais espaço e a colonização humana é menos notória. A natureza nua, quase como veio ao mundo.
Talvez seja aqui onde acaba a estrada de alcatrão que começa a África Austral. O relevo acidentado de baixa altitude, a vegetação rasteira cobrindo os ondulados montes que se sucedem como padrão no tecido amarrotado da paisagem.
A estrada de picada é uma serpente em curva contracurva, sobe e desce os montes, embala o corpo que olha o azul fixo do céu dividindo horizonte com os amarelos e laranjas da terra seca. Neste zig-zag, em trânsito para Sul, estamos rodeados de várias finalistas das 7 Maravilhas, duas delas vencedoras. Para trás, fica a Caotinha e Egipto Praia, para o interior o Morro do Môco, a Serra da Leba e a Tundavala, e a Sul o Deserto do Namibe.
A Ocidente, o mar. Podíamos ter virado para Equimina ou praia da Lua, mas vamos seguir nos sobressaltos do caminho, que a ideia era essa, fazer quilómetros ir longe. Cuidado com as cabeças, o destino é a Binga - com nome a fazer lembrar outra maravilha do Kwanza Sul – praia da Binga, onde existiu uma importante pescaria agora sem actividade. A Binga é uma entre várias enseadas que se seguem ao longo da costa com o mesmo tipo de recorte da Baía Azul e Baía Farta.
Isto era o que o corpo esperava depois de ser batido pelos intensos solavancos da picada: uma praia inteira para nós, um éden sem flores mas com peixe no mar. Largamos o automóvel e corremos para um mergulho na água pouco quente ou a Corrente Fria de Benguela perdia o seu nome no mar onde deixamos a poeira do caminho.
Nadar. Boiar na água como estrela no céu. Esticar os ossos ao sol, mas não por muito tempo que o calor queima. Andamos pela orilha da praia esquecidos do protocolo da rotina urbana e o pé desenterra da areia molhada conchas de um cor-de-rosa inesperado. Cortamos o tomate com as mãos salgadas, e almoçamos de pé entre risadas, na sombra de uma casa da pescaria em ruínas.
Tirar uma fotografia, alargar a vista, estreitar laços na falésia sobre a baía da Binga. Em baixo, ao longo do mar, segue o contraste entre o brilho das areias da praia e o silêncio do morro que a contorna.
A carrinha conseguiu subir, desta vez não é preciso empurrar e seguimos caminho que as praias são intervalos numa jornada de muita estrada. Horas no interior do automóvel: quilómetros de filme se desenrolam nos vidros e os diálogos são nossos. Já desde a viagem de Luanda para Benguela que vínhamos na estrada parodiando a vida. Gargalhadas na cabine. Longe de casa, ocorrem-nos as mais excêntricas histórias e assuntos, possivelmente histórias de outras viagens. Em andamento a memória viaja para eventos dispersos, e conta-se de tudo. Conversa menos filtrada, sobem-se degraus na intimidade, na amizade, e a geografia emocional se remexe. Cacau, Indira, Kátia, Ana, tio João, Sandra, Joana.
Amizade. As pessoas com quem temos gosto de estar, e viajar. Para não saltarmos números, podemos chamá-la de 8ª maravilha da natureza, maravilha natural universal produzida pelos amigos e amigas com quem andamos por aí emocionados, a improvisar momentos maravilhosos. Esquerda ou direita? Vezes sem conta a picada se divide em duas. Placas, nada, referências, nada. Os amigos conhecem os caminhos por onde nos levam, e têm um cd de Curtis Mayfield no carro. A natureza sucede-se numa aparente repetição de montes pardos e essa monotonia mais ainda engrandece o território e a sua extensão. Vistos do céu, somos um ponto minúsculo a circular numa rede de estradas onde quase nunca ninguém passa.
O mundo é excepcionalmente marcado por sítios com uma beleza de cortar a respiração. Mas respira pelos inúmeros pontos desconhecidos que ligam os locais de referência. O mundo não está cheio de Quedas de Kalandula, Serengetis e cumes de Kilimanjaros. Só existem umas Quedas de Kalandula, um Parque do Serengeti e um cume do Kilimanjaro, e quem dera lá ir. Toda a gente quer ir ao topo, ao centro, ao fundo do mundo. Mas aqui quase nunca ninguém passa.
Muitos dos lugares sem nome nos mapas, são eles as nonas maravilhas, locais pouco referenciados, lá longe nas florestas, chanas, terras altas, deserto, praias; afastadas do asfalto e das cidades. Sítios que não chamam a atenção das multidões nem procuram a glória e são magníficos no que não os distingue das redondezas. Zonas sem princípio nem fim demarcado, extensões de terra incógnita com que n4os identificamos ao primeiro olhar, paisagens que olhamos com a intimidade com que nos reconhecemos ao espelho. Cada um tem o seu mapa pessoal de nonas maravilhas. Locais que percorremos e nos despertam, deixando de ser território estranho. Assim como um ano de mediatização das 7 Maravilhas resgataram para o nosso imaginário ­colectivo grutas, ­lagoas e rios esquecidos nos confins de Angola e da memória.
Neste imenso promontório à beira mar entre Benguela e Bentiaba, a natureza não tem nada de evidente para oferecer nem destaques que façam capa de revista de avião, e por isso as estradas são precárias e pouca gente se aventura por esta região hostil. A pegada humana é curta, a natureza dita a lei irrevogável que cumprimos sem apelo. Não há rede de telemóvel e parece que até os relógios perdem a utilidade. A distância a que estamos das regras do jogo da urbanidade conforta-nos, longe da rotina há mais perigos mas menos preocupações.
É preciso ir longe para encontrar pedaços de mundo pouco condicionados pelas representações que fazemos deles, um mundo que só existe quando o pisamos.
Ao fim da tarde, já no cair da luz, uma raposa atravessa a estrada e fica curiosa a olhar para nós, nós paramos e curiosos ficamos a olhar para a raposa. Afinal talvez não seja tão importante o lugar. Qualquer sítio pode ser palco da maravilha, a maravilha acontece em nós.
Nuno Milagre

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