A ciência e a técnica na escola angolana de hoje face ao peso da herança do sistema de ensino colonial

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«Problemática da formação integral e qualitativa do cidadão africano para o desenvolvimento sustentável do continente» é o tema central que os organizadores das IIº Jornadas Científicas do ISCED/Uige, em reflexão sobre o dia de África, propuseram aos intervenientes. Neste certâmen, abordei sobre o ensino e a ciência na escola em África de hoje em dia: caso de Angola. Exatamente sobre «A ciência e a técnica na escola angolana de hoje face ao peso da herança do sistema de ensino colonial».

Introdução

Neste ponto inicial, três referências científicas de renome internacional devem ser evocadas:
1-A primeira é a obra dum grande pensador africano, o sociólogo e filósofo Gérard Bwakasa Tulu kia Mpanzu , cujo título do livro é: «RÉINVENTER L'AFRIQUE de la tradition à la modernité au CongoZaïre (REIVENTAR A ÁFRICA da tradição à modernidade ao Congo-Zaïre)».

Logo no início do livro dá-se conta que quando o autor fala de África é só para chamar atenção. Na realidade, ele fala do africano, mas não qualquer africano.

Trata-se do africano formado na escola segundo a visão e a herança colonial. Gérard Bwakasa constate que, antes de serem dominados ou colonizados, todos os diferentes povos de África tinham organizado sociedades segundo as suas necessidades, e eles não estavam em atraso em relação aos povos de outros continentes.

Gérard Bwakasa chegou à conclusão que todos povos antigos africanos se são conhecidos hoje é porque são, no grupo de todos os povos antigos do mundo, povos que não desapareceram. Ao contrário, eles conseguiram adaptar-se no seu meio ambiente.

Cada povo tinha a sua forma educativa, o seu sistema de ensino e conseguiu possuir o nível científico necessário a fim de produzir a tecnologia de que precisava para viver e continuar existir de maneira particular e sem assistência dos outros.

2- A segunda referência vem duma outra grande africana de nome Axelle Kabulu , que, de maneira provocatória, intitulou o seu livro escrevendo: «... Et si l'Afrique pouvait refuser son développement» (E se África poderia recusar o seu desenvolvimento).

A autora desta obra constate uma contradição no comportamento dos quadros africanos, pessoas formadas na escola da visão colonial, que falam e fazem planos de ações e estratégias de desenvolvimento que são contrárias ao próprio desenvolvimento de seus países.

Axelle Kabulu pensa que o grande obstáculo ao desenvolvimento de hoje em dia em África é o cultural.

Mas, pergunta-se a autora, de onde vêm as culturas dominantes que determinam o comportamento dos africanos de hoje? Sem dúvida, salienta ela, o africano de hoje é produto do laboratório colonial que pensa que copiar os outros é ficar moderno.

3- A terceira referência vem duma revista internacional: «Dossiê, le monde diplomatique Brasil» que consagrou a sua quinta edição à África , falando dos desafios da democracia e do desenvolvimento. Apresentando os desafios do continente africano para os objetivos do milénio, o Professor Kabengele Munanga perguntou-se: «porque a África, em comparação com países da Ásia e da América do Sul, não tão distantes dela nos anos 1960 em termos de desenvolvimento (...), não conseguiu globalmente e de forma significativa levantar voo rumo ao desenvolvimento, ...».

Ensino na escola angolana e o peso da herança.

Ensino, do verbo ensinar, é a ação de transmitir conhecimentos e competências . Portanto, a escola é uma instituição que tem o encargo de educar segundo programas e planos sistemáticos os indivíduos nas diferentes idades da sua formação . Por fim, educação é um processo que visa o desenvolvimento harmónico do ser humano nos seus aspetos intelectual, moral, físico e na sua inserção na sociedade .

À luz do que procede, também é o ponto de vista do Gérard Bwakasa. Uma comunidade não pode existir se os seus membros não conseguem resolver os seus diferentes problemas de vida. Portanto, essa capacidade adquire-se de geração em geração, pelo ensino, escola e educação. Porque é através da educação que as gerações anteriores duma sociedade comunicam as tradições, que são na realidade soluções a todos os desafios e que sem os quais a vida de um grupo não existe.

Esses desafios são preocupações ou necessidades de vida de toda ordem (comer, dormir, casar, enterrar mortes e organizar funerais, construir casas, defender-se contra qualquer perigo, organizar a ordem e a segurança numa sociedade, curar-se em caso de doenças, produzir os bens alimentares, fazer a agricultura, lavar-se e tomar cuidado higiénico do corpo, organizar a própria escola e definir o perfil do homem a ser formado...) que cada sociedade deve satisfazer para permitir aos seus membros modelos de viver que permitam a continuidade da comunidade.

Finalmente, é na escola, e através do sistema der ensino, que uma sociedade forma as pessoas que têm a vocação e a responsabilidade de resolver os seus problemas de maneira organizada e desejável.

Angola, sendo hoje sociedade e entidade nacional, começou a sua existência sob forma da possessão colonial portuguesa . Por isso, a sua administração, a sua polícia, o seu sistema de saúde, o seu ensino... foram concebidos ainda para projeção daquilo que estava a se fazer em Portugal e de acordo com os interesses dos portugueses.

No que diz respeito à escola em Angola, ela foi concebida e organizada no sentido de formar um «homem» cuja colonização portuguesa precisava. A vocação deste homem era de servir ainda a comunidade portuguesa em Angola antes de tornar-se seu membro com o estatuto de assimilado e depois ser utilizado como exemplo do êxito da «missão civilizadora» nas terras dos «povos primitivos desprovidos de humanidade e das línguas, pois eles tinham dialetos» .

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