A ciência e a técnica na escola angolana de hoje face ao peso da herança do sistema de ensino colonial

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«Problemática da formação integral e qualitativa do cidadão africano para o desenvolvimento sustentável do continente» é o tema central que os organizadores das IIº Jornadas Científicas do ISCED/Uige, em reflexão sobre o dia de África, propuseram aos intervenientes. Neste certâmen, abordei sobre o ensino e a ciência na escola em África de hoje em dia: caso de Angola. Exatamente sobre «A ciência e a técnica na escola angolana de hoje face ao peso da herança do sistema de ensino colonial».

Numa outra linguagem, o ensino não era para «transmitir conhecimentos e competências» a fim de identificar problemas e os resolver, ou seja, a missão da escola não consistiu em formar «uma instituição que tem o encargo de educar, segundo os programas e planos sistemáticos os indivíduos nas diferentes idades da sua formação». E, por fim, a educação não era «um processo que visava o desenvolvimento harmónico do ser humano nos seus aspetos intelectual, moral e físico e a sua inserção na sociedade», mas sim o aluno angolano ia na escola ainda para mudar de estatuto social.

Isto é, sair do estado de atraso para aceder à categoria duma pessoa civilizada que já não era «matumbo». Logo, nesta escola, a primeira competência para adquirir era copiar a maneira de ser e de estar dos portugueses, que eram, em Angola, os representantes da classe aristocrática.

Por este propósito, Michael Anthony Samuels notou o seguinte: «Quaisquer recomendações respeitando à política em África tinham por base o sistema educativo em Portugal... Em Portugal, havia-se desenvolvido uma longa tradição de negligência do governo para com a educação pública, ... Desde os seus primeiros dias, Portugal navegara confortavelmente a par da educação formal, privilégio de uma classe aristocrática e da responsabilidade da Igreja Católica Romana.

Sob domínio Jesuíta, a Universidade de Coimbra tornara-se o expoente máximo de um sistema limitado de aprendizagem do latim, destinado a continuar a superioridade espiritual da Igreja.

Os Jesuítas estavam particularmente preocupados com os estudos superiores de filosofia e teologia e não acentuavam a responsabilidade dos seus membros de ministrarem instrução primária. A monarquia, fortemente católica, não exercia qualquer interferência política sobre esta situação...» .

Se a Angola de hoje não é o Portugal de ontem, logo não pode comparar os seus sistemas de ensino de maneira absoluta, isto é uma evidência. Mas, pelo facto de que o ensino de Angola não caiu do céu, ninguém pode dizer que não tem a ver com sua matriz que o nasceu.

Claro, não se pode também dizer que depois de 37 anos de independência não se fez nada no sentido de atualizar e adaptar a escola de Angola à sua situação de hoje. Mas, devemos reconhecer que não se fez uma «tabela-rasa» no sentido de deitar no lixo tudo o que foi herdado da colonização portuguesa.

Se não, por que Angola continua organizar inteiramente e a todos níveis a escola em língua portuguesa? Por que na escola angolana se defende ainda a língua portuguesa, no mesmo tempo e cada vez os nossos alunos e estudantes têm problemas em escrever corretamente esta língua? Por que não estamos preocupados em saber o que pensam os angolanos que não sabem ler e escrever sobre aquilo que os seus filhos aprendem na escola? Essas questões devem ser imaginadas não só em língua portuguesa, mas em cada língua nacional (em língua kikongo a pergunta é: «e nki bana betu ba kwenda longokanga ku sikola».

Porque, em geral e pela sua atuação, o finalista da nossa escola, em todos níveis, têm ainda mais referências de fora do que de Angola?

Ciência e tecnologia na escola angolana de hoje.

A ciência e a tecnologia são pilares de toda a formação escolar. Na realidade, quando se fala dos conhecimentos que o aprendiz deve adquirir ao longo do processo de sua formação, trata-se da aquisição dos reflexos que lhe vão dar competências de entender os fenómenos naturais, sociais e de atuação.

A ciência é constituída por um conjunto de conhecimentos adquiridos pela observação ou pela iniciação, através de um processo de aprendizagem. Segundo esta lógica, exceção feita aos casos de génio, a ciência é o resultado da acumulação dos conhecimentos. Mas, a simples acumulação não é necessariamente a ciência.

Pois, a missão primeira da ciência é dupla: estabelecer leis e metodologia a fim de entender e explicar os fenómenos naturais, sociais, humanos e outros; e suscitar ou fazer nascer a tecnologia.

Embora uma das suas definições apresente-se da maneira seguinte: (a ciência é uma investigação metódica das leis que regem os fenómenos» ). Sabendo que a lei é uma proposição geral que enuncia uma relação regular de fenómenos . Falando das ciências sociais, de seu campo de investigação e das leis sociais, Maurice Godelier salientou o seguinte: «... os homens não limitam-se a viver numa sociedade como o fazem os animais selvagens, mas eles produzem a sociedade para viver» .

Numa outra linguagem, se a ciência dá o poder de resolução de problemas e que depois de sua formação o nosso finalista, em todos níveis, seja desprovido de ciência; qual é sua utilidade na sociedade? Se alguém foi formado só para mudar de estatuto social, isto é, sair do grupo dos «atrasados para o dos civilizados», como era a conceção colonial portuguesa, penso eu, nunca a formação do nosso sistema de ensino vai ser integral e qualitativa. Quais são as missões da ciência?

Primeiramente, a ciência tem a missão de estabelecer leis, normas, regras cujo respeito absoluto, pelo cientista, justifica a própria existência da ciência. Não há práticas científicas sem estabelecimento de regras e do respeito exigente.

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