A ciência e a técnica na escola angolana de hoje face ao peso da herança do sistema de ensino colonial

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«Problemática da formação integral e qualitativa do cidadão africano para o desenvolvimento sustentável do continente» é o tema central que os organizadores das IIº Jornadas Científicas do ISCED/Uige, em reflexão sobre o dia de África, propuseram aos intervenientes. Neste certâmen, abordei sobre o ensino e a ciência na escola em África de hoje em dia: caso de Angola. Exatamente sobre «A ciência e a técnica na escola angolana de hoje face ao peso da herança do sistema de ensino colonial».

Isto é, as regras científicas não aceitem falhas. O estudioso ou o investigador, no cumprimento da sua atividade científica, deve ter uma certa ética . Portanto, as leis científicas não devem respeitar os princípios morais. Às regras ou leis científicas não se pode dizer que são boas, convenientes ou más. Mas penas se são corretas ou não.

No segundo lugar, a ciência trabalha no sentido de descobrir e explicar as leis que regem a realidade, aquilo que existe ou aconteceu. Se a primeira missão tem a ver com a existência de ciência e da sua prática, a segunda missão é para a sua finalidade ou o seu objeto.

Descobrir e explicar as leis que regem a realidade é razão de ser da ciência, isto é a sua utilidade. Nesta lógica, a ciência deve ficar ao serviço do homem, no sentido dum instrumento. O homem utiliza a ciência para entender tudo sobre o seu meio ambiente e sobre si mesmo, com fim de resolver os seus problemas.

Não podemos falar da ciência sem evocar a metodologia que é uma «estratégia: modo de proceder; esforço para atingir um fim...» .

A metodologia é indispensável à ciência. E é a pesquisa científica que termina o valor de seu resultado. Porque, por exemplo, nas ciências sociais os factos ou acontecimentos são mudos. Isto é, não são explícitos em si.

É por excelência um método que permite ao facto de falar e ser compreendido. O método não pode faltar para que uma ciência possa existir. A metodologia e o objeto decidem a existência da própria ciência.

Na realidade, por exemplo no espaço universitário, o estudante, durante todo o seu processo de aprendizagem, passa a boa parte do tempo a adquirir a metodologia científica que vai orientar o seu comportamento profissional.

É esse comportamento que faz nascer nele os reflexos de entender os fenómenos. Mais tarde, esses reflexos vão tornar-se em competências para a resolução dos problemas, objetivo de toda a formação.

Isto significa que, no fim de cada formação dada pelo nosso sistema de ensino e aos quaisquer níveis, devemos ter presente essa pergunta: «será que o nosso produto final que vai sair da nossa escola foi dotado suficientemente de espírito científico que o permite entender e explicar os fenómenos de acordo com o seu nível e especialidade»?

Para salientar o peso da herança da conceção colonial portuguesa ao nosso sistema em Angola, Filipe Zau revelou que o angolano era formado no âmbito de não adquirir o reflexo científico, quando ele notou o seguinte: «O assimilacionismo, um princípio reitor da política de educação colonial em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, tinha como propósitos os seguintes: mudar valores e hábitos culturais africanos por europeus como forma de perpetuar a administração colonial; proporcionar aos africanos uma formação voltada, quase exclusivamente para a religião e a actividade laboral, mas que evitasse a concorrência no marcado de trabalho com os portugueses, bem como qualquer aspiração política dos africanos a um maior sentido de autonomização» . Será que a nossa escola foi tirada completamente dos efeitos desta herança, para pretender dar uma formação integral e qualitativa ao cidadão angolano de hoje em dia e visar o desenvolvimento sustentável de Angola?

A técnica, finalmente, é a dimensão visível da ciência. Com ela se consagra a conceção dos princípios, orientações de procedimentos e limita-se a fase da teoria. É a técnica que vem com a materialidade ou visibilidade da produção.

É de salientar que a «ciência é o saber, pois a técnica é o saber fazer». Isto quer dizer que, à partida, a ciência alcança os seus objetivos quando ela chega ao nível de suscitar à técnica a sua dimensão de «arte de fazer algo».

Acumular os conhecimentos e não chegar ao estado de produção, o «saber fazer algo» na sua especialidade de formação, não é a ciência. Saber e não ser capaz de fazer, conhecer sem ter capacidade de transformar a matéria-prima ao produto útil não é o ideal de um processo de formação.

Conclusão

Sendo formadores, devemos estar preocupados em saber o que os nossos finalistas sabem fazer. Só as respostas a esse género de perguntas podem nós fornecer uma ideia sobre o sistema de ensino que queremos, da formação integral e da qualidade em si. Que tipo de ensino elevará o cidadão africano para o desenvolvimento sustentável dos seus Estados.

1- Gérard Bwakasa Tulu Kia Mpanzu faz parte dos primeiros universitários do mas alto nível em actual Republica Democrática do Congo (RDC), logo depois da independência daquele país. Doutor em Sociologia e em Filosofia, Gérard Bwakasa deu aulas em muitas universidades de seu país, da França, da Bélgica, do Canada e dos Estados-Unidos de América. Publicou muitas obras de grande valor científico e de reconhecimento mundial. Pode-se citar duas: L’impensée du discours ou le Kindoki dans le pays Kongo (o impensavél do discurso ou o fétiche no país Kongo), «Inventons notre Afrique à partir de nos traditions ancetrales. L’Afrique d’aujourd’hui est de ceux qui l’ont inventée…»

(Inventemos nossa África a partir de nossas tradiçoes ancestrais. A África de hoje é dos aqueles que a
Inverteram…). Morreu em Canada há alguns anos.


2- Axelle Kabulu é dos Camarões, grande pensadora, ela consagrou toda a sua obra sobre as questões de desenvolvimento em África. Também, ela foi animadora dos projectos de bem-estar dos africanos.

3- Ano1*Maio/Junho 2011*

4- Kabengele Munanga, professor titular do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, professor orientador do Programa de Pós Graduação em Direitos Humanos da Faculdade de Direito da USP e director do Centro de Estudos Africanos da USP.

5- Dicionário da Língua portuguesa, 2004: 624.

6- Dicionário da Língua portuguesa, 2004: 656.

7- Dicionário da Língua portuguesa, 2004: 578.

8- Isso não significa que os diferentes povos autóctones de Angola começaram com a presença portuguesa. Pelo contrário, todos eles tinham níveis culturais que não eram inferiores ao do Portugal.

9- Isso não corresponde a realidade.

10- Samuels, M., A., A Hpstória do Ensino em Angola 1878-1914, Luanda, Mayamba, 2011: 38.

11- Dicionário da Língua portuguesa, 2004: 355.

12- Dicionário da Língua portuguesa, 2004: 1006.

13- Godelier, M., «peut-on se passer des sciences sociales ?», comunicação feita no dia 5 de Fevereiro de 2009 na «Université Lumière Lyon2»/França

14- Fala-se que a ciência sem consciência é ruína de alma. No sentido que o estudioso deve ter a convicção que fazer a ciência é um bem pelo homem e pela própria humanidade.

15- Dicionário da Língua portuguesa, 2004: 1101.

16- Samuels, M., A., 2012: 13.

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