A dimensão patrimonial do Kabocomeu

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Vários motivos concorrem para a atribuição de dimensão patrimonial ao grupo carnavalesco União Operário Kabocomeu. Primeiro por ser o grande dinamizador da Kazukuta.

Vários motivos concorrem para a atribuição de dimensão patrimonial ao grupo carnavalesco União Operário Kabocomeu. Primeiro por ser o grande dinamizador da Kazukuta, estilo de dança característico da cultura nacional, com origens no Kimdabire, no Icolo e Bengo, assimilada pelos grupos carnavalescos luandenses no primeiro período do Cancioneiro do Carnaval em Angola (1930-1960), tendo como representantes nesta época os grupos: União Chique, no musseque Pedrosa, União Cruzador, União Fecha, Os Patitos, Gonçalves Velho, Kimangandu, todos do quilómetro 7, União Liceu, Malungem, União Kwanza, estes no bairro operário, União Água Luz no Museque Marçal, União Mabuba, União Musondinho e União Pagantes com destaque para “União João Belo”, os únicos a usarem guarda-chuvas. Em 1952 surge o grupo União Operário Kabocomeu, que incorpora de maneira inteligente e criativa a Kazukuta do União João Belo e a partir da década de setenta firma-se como principal representante do estilo Kazukuta em Luanda.
Segundo relatos e documentos, o nome do grupo está intrinsecamente ligado a actividades desenvolvidas por um grupo de operários do Sambizanga, nas obras dos Armazéns Diogo & Companhia. No ano de 1951, estes homens haviam feito grandes obras para esta companhia, e o dono ficou tão satisfeito que no final do ano, para celebrar, comprou dois barris de vinho e muito bacalhau, e a kazukuta começou aí, em meio a festa de fim de ano. De volta ao Sambizanga, a festa continuou e, no ano seguinte (1952), foram encorajados pelos mais velhos reunidos no quintal do avô Ndona, mãe de Joaquim Desliza, fundador e primeiro comandante do grupo a formar um grupo carnavalesco baseado na Kazukuta. Daí em diante, o grupo seguiu com o ritmo festivo nas tabernas, mercados, lojas, onde quer que os operários se reunissem para dançar, para logo em seguida gastar o dinheiro recebido pelos serviços prestados. E eles juntaram os dois termos, “Acabou e comeu”, em termos de receitas das exibições que faziam e “Cabouco”, que era o cabouco dos prédios que eles faziam na construção. E assim ficou perpetuado o nome do grupo “Kabocomeu”. Portanto, o Kabocomeu é originário do modo como os antigos operários viviam e se divertiam em comunidade.

CONTRIBUTO DO KABOCOMEU
Em 1978 realiza-se o carnaval da Vitória. O grupo já bem constituído aparece em grande, e demostra na sua performance e teatralização como os topógrafos coloniais roubavam os terrenos das lavras do povo nas imedições, e sagra-se primeiro vencedor do carnaval após a independência. Desde 1978, o grupo perpetua-se no imaginário colectivo da cultura luandense como emblema da Kazukuta.
No ano de 1979 este grupo foi agraciado pelo primeiro Presidente da República com uma sede para as suas actividades, situada na Zona da Frescura, no bairro Sambizanga. No mesmo ano, o grupo foi convidado por Agostinho Neto para animar o palácio presidencial (o único grupo na história do carnaval) num encontro com altas figuras africanas.
Ao longo do seu percurso, o Kabocomeu contribui de modo significativo para o cancioneiro da música popular luandense, quer pela adequação da letra ao enredo e ao espírito do carnaval luandense, quer pela poética, beleza e bom gosto característica da música popular. Somos informados que canções como “Rua São Paulo, Nosso Lamento, Divórcio preservam este género característico do Carnaval, com textos que transmitem valores comportamentais e cívicos, no ritmo sincopado característico do grupo”. De acordo com Raimundo Salvador “…algumas das grandes composições emblemáticas da música popular angolana emergiram desses grupos carnavalescos. João Domingos, que é cantada por Bonga e pelo finado André Mingas, é do Kabocomeu. Mariana Yo é do Comandante Desliza. E outras canções”. A este título, não só a tradição Semba, como o próprio Kuduro devem muito da sua formação e desenvolvimento ao Kabocomeu.
Para Jomo Fotunato “o Kabocomeu é um grupo patrimonial por preservar um dos estilos de dança característicos da cultura nacional” e que, com outros, corre o risco de desaparecer. A título de exemplo, na última edição do Carnaval de Luanda (2019), ao longo de três dias, cerca de 43 grupos desfilaram na então Avenida Agostinho Neto, sendo 15 na ordem de desfile Infantil, 10 grupos na Classe B, e 18 grupos na Classe A, dentre os quais 34 grupos representaram o estilo Semba, 5 representantes do estilo Kazukuta, 1 Cabecinha, 1 para Dizanda, 1 para Kabetula.
Ao longo de mais de 40 anos de existência, o Kabocomeu está na origem de vários grupos carnavalescos representantes da Kazukuta. Destacando-se os “Cassules Kazukuta do Sambizanga”, “Cassules Kazukuta do Hoji Ya Henda”, ambos da classe infantil, União Kazukuta do Sambizanga e Juventude Unida do Kapalanga.
Em 2003, o Comandante Desliza foi, em conjunto com o União Operário Kabocomeu, o grande homenageado da edição do Carnaval. No ano 2005, o fundador e eterno comandante do grupo faleceu no hospital Josina Machel, vítima de doença.
Apesar dos altos e baixos, como a perda de quatro membros num acidente de viação, a concorrência e rivalidade de grupos hostis ao seu sucesso, e de sentir-se muitas vezes injustiçado em relação à classificação, o Kabocomeu jamais desistiu, mantendo-se sempre entre os primeiros oito lugares nos desfiles do carnaval, com exceção do ano 2015 em que ficou em décimo primeiro lugar, e desceu para a segunda divisão, o que para o grupo foi a pior humilhação de sempre. Apesar de tudo, esteve sempre entre as melhores canções.

O ESTILO KAZUKUTA

Modernidade e a tradição, estão relacionadas não apenas com a estrutura do Entrudo, mas também com o conteúdo. O conteúdo retém a identidade cultural dos grupos carnavalescos. Neste sentido, o Kabocomeu representa um caso particular, pois o seu conteúdo essencial; a Kazukuta é também a sua raiz. A kazukuta é sem dúvida o elemento sagrado do Kabocomeu. Ora, a dança kazukuta engloba todo uma série de elementos, e todos eles formam um todo, e é na perfeita harmonia entre estes elementos que o grupo encontra a sua essência e finalidade.
Segundo a etnomusicologia, ciência que estuda a música a partir de seus aspectos culturais, socias, espirituais, das pessoas que as fazem, e com abordagens históricas, biológicas, cognitivas e não apenas no seu aspecto isolado como sonoridade. De acordo com o trabalho apresentado pelo etnomusicólogo angolano Patrice Ngangula, na cosmovisão africana existem condições prescritas para a invenção da música e da dança patrimonial.
1.Voz; sons corporais; cantos
2. Expressões culturais, movimentos dança
3. Instrumentais musicais
O corpo e a voz são os primeiros instrumentos humanos. Dentro da canção, temos os géneros/ grupo etnolinguístico/ língua materna. As expressões corporais englobam os gestos, o movimento, as formas de oralidade ligadas à expressão corporal. Os instrumentos englobam o material de que são feitos os mesmos, a ligação espiritual com os mesmos. Reconhecemos, antes de mais, que a vaga imagem da relação entre estes elementos por nós apresentada não passa de uma pálida sombra da perfeita idiossincrasia entre estes elementos. Conforme a esplêndida apresentação e explicação do professor, tentaremos, não obstante:
A canção é sempre cantada em língua patrimonial “Kimbundu”, os instrumentos devem obedecer à composição dos mesmos, de modo a reproduzir uma sonoridade peculiar e a dança perfeitamente esta mística relação entre os elementos da Kazukuta. E com alguma sapiência explicam este carácter. A manutenção destes elementos é vital, qualquer mudança, por menos significativa que pareça, pode quebrar o ritmo, a harmonia patrimonial.

O KABOCOMEU
E A MODERNIZAÇÃO

O Kabocomeu não entende a modernidade no plano puramente conceptual, coisa que considera propia dos académicos. Há modernização do grupo na prática, assim como inovações e simbiose de elementos novos e velhos. Para o comandante Manuel Júnior «a relevância e actualidade são perfeitamente aceites». Para Lucas Raimundo Manuel, segundo comandante do Kabocomeu desde 1992, a modernização deve ser recebida pelo grupo com a auto-estima fundada na nossa identidade cultural. O trabalho realizado ajudou-nos a entender que cada grupo tem as suas características próprias. Certamente, e com o advento das autarquias, a estrutura do carnaval luandense sofrerá alterações profundas nos próximos anos, quer a nível da estrutura, quer dos conteúdos do Entrudo. Para António Joaquim não haverá uma modernização uniforme, conceptualmente palpável ou uma modernidade totalizante, mas modernidades paralelas, ou seja, cada grupo, de acordo com as suas caraterísticas particulares e condições financeiras, deverá forjar a sua própria modernidade.
De facto, as entrevistas, revistas e documentários sobre o grupo levam-nos a compreender que o Kabocomeu começou a modernizar-se antes do Carnaval da Victória. A kazukuta herdade do grupo “União João Belo” jamais permaneceu intacta. A nível da jinga; as novas gerações incorporaram a essência dos ritmos do Kuduro que, assim como a Kazukuta, é o grito e força dos ritmos ancestrais que gritam e se expressam na corporeidade dos jovens. Novos passos podem ser denotados na kazukuta de hoje. Também a nível da indumentária o grupo apresenta mudanças. O uso de bengaladas na ausência do guarda-chuva. Para a geração Desliza, o uso de máscaras era inconcebível, mas hoje as gerações, seguindo o espírito do nosso tempo, vão deixando certos aspectos para trás, e isto reflecte uma certa abertura às mudanças dos tempos consentidas pelos mais velhos. Portanto, não existe nada mais falso e superficial que a ideia de que “o grupo resiste à modernidade”. Não obstante, a direção do grupo apela ao bom uso da tradição. Acreditamos que “isto é possível através de uma memória vigilante, que não ataca cegamente a tradição. A tradição não é um corpo fechado, mas aberto, neste sentido não é inimiga da modernidade, e portanto, da modernidade africana. A tradição não está simplesmente na origem, mas também a fim de oferecer modelos utópicos para o agir actual”.
Entretanto, para o Kabocomeu, a questão que subsiste a todo o discurso sobre a modernização do Carnaval e dos grupos não é tanto a salvaguarda da tradição, mas o investimento necessário para modernizar. Ora, a modernidade é um processo que envolve investimentos de vária ordem, mas é sobretudo o investimento de ordem pecuniária que determina o grau de modernidade acessíveis aos grupos carnavalescos. Não existe modernidade sem investimento financeiro, e o Kabocomeu não conhece quaisquer apoios ou investimentos há mais de 20 anos. A título de exemplo, tomemos o caso particular do ano corrente. Até ao mês de Fevereiro (pouco de um mês antes do desfile) o grupo não dispunha de quaisquer recursos para preparar-se para o desfile. O carnaval se prepara um ano antes, os grupos levam pelo menos um ano para organizar um bom desfile. Cada aspecto da preparação envolve dinheiro. Os valores que a APROCAL disponibilizou chegaram ao grupo um mês antes do evento, faltando o espaço necessário para a organização do desfile.
Segundo o secretário do grupo, Joaquim Manuel, o contexto actual exige grandes cenários, maior qualidade nos adereços e outros aspectos. A concorrência com grupos como “União Mundo da Ilha” e “União Recreativo do Kilamba”, para citar apenas alguns, não tem sido fácil, pois representam adversários de condição económica privilegiada, ou pelo menos, com melhores condições de apoio. Como concorrer com os mesmos com justiça e dignidade? Chegamos no tempo em que o carnaval perdeu o seu carácter recreativo. Para alguns, trata-se simplesmente de um investimento financeiro, um evento com fins lucrativos, o mais forte é quem tem melhores condições financeiras. Para o vocalista do grupo, vivemos os tempos do “Carnaval fora de época”.
O grupo lamenta ainda do facto de não poder acompanhar a evolução do Entrudo, pois que não é possível satisfazer a modernidade, agradando os novos regulamentos com parcos recursos e sem patrocinadores. A maior dificuldade do grupo tem sido o carro alegórico, diz o comandante Manuel António Júnior. Nos últimos anos, o grupo acumulou várias dívidas. Hoje, o grupo encontra-se completamente endividado.
Este ano, o grupo enfrentou graves dificuldades financeiras, para participar no desfile do Carnaval. O comandante teve de recorrer à sua filha, Mima Irriquieta Antónia, que cedeu um empréstimo de 1.000.000 kz (Um Milhão de Kwanzas) ao grupo, a fim de avançar com os preparativos para o desfile central, pois o carnaval prepara-se ao longo do ano, trabalha-se com o tempo, há aspectos que não podem ser deixados para a última hora, dado que o dinheiro dado aos grupos pela APROCAL chega tardiamente, tanto é que, se não fosse o empréstimo feito por uma cidadã de boa vontade, não haveria Kabocomeu no carnaval 2019, diz o comandante.
Podemos concluir com Roldão Ferreira que “a modernidade representa um desafio social que requer o apoio de toda a sociedade, pois o que está em jogo é a perda ou salvaguarda dos referenciais identitários do Carnaval luandense (…) O carnaval evoluirá na medida do desenvolvimento sociocultural do país, mas para isso é necessário investir no carnaval, caso contrário teremos que assumir a responsabilidade histórica do seu desaparecimento”.

A MODERNIZAÇÃO
E OS PARADIGMAS
De acordo com Jomo Fortunato “…a modernidade, enquanto estádio adulto da tradição, ergue-se num processo de ruptura parcial com a tradição, conservando determinados códigos e linhas de força, representativas dos valores do passado”. Ora, o paradigma moderno na cultura do carnaval luandense é um fenómeno recente. Segundo Roldão Ferreira, começa no ano 2000 com o surgimento do grupo carnavalesco “Unidos do Caxinde” em 2000, o maior apologista da modernidade no carnaval luandense, e vencedor das edições 2005/2010 do carnaval Nacional. Desde então, o elemento moderno tem sido incorporado no carnaval luandense, com destaque para o União Recreativo Kilamba nas últimas edições a. A questão que a modernidade enquanto desafio do carnaval local levanta consiste na preservação dos elementos que estão na base da matriz cultural do Carnaval luandense.
Assim, a necessidade de modernização segue-se à criação de bases capazes de garantir a salvaguarda dos aspectos tradicionais e populares do Carnaval local e preservação dos grupos que conservam elementos patrimoniais em meio a um contexto de crescentes interações globais. Para o Kabocomeu é sensata a modernização que dialoga com a tradição, reincorporando-os no sentido de reinventá-los ou atualizá-los dentro dos novos modelos.

SOBRE A ORGANIZAÇÃO
E LEGALIDADE DO KABOCOMEU
Outro especto em que as instituições competetentes devem prestar auxílio ao grupo (é possível que o Kabocomeu não seja o único nesta condição) é a falta de personalidade jurídica, ou carácter institucional reconhecido, o que daria maior credibilidade ao grupo junto das instituições nacionais e internacionais, facilitando a manutenção e gerenciamento dos apoios que certamente viriam.
Por outro lado, não há um centro de arquivos ou base de dados para apoio do público interessado em informar-se sobre o historial do grupo. Tudo ainda funciona mais na base da oralidade, informações de maior relevo são inerentes à memória dos mais velhos. Em termos de acesso e acompanhamento das novas tecnologias, o grupo encontra-se bastante limitado, o que dificulta a acção dos estudiosos e todos aqueles que buscam informações sobre o grupo. Também em termos de divulgação através dos meios virtuais, o grupo não deu ainda passos significativos. Podemos concluir que o Kabocomeu carece de uma nova ordem de trabalho, e uma nova distribuição de tarefas que leve em conta as nossas necessidades da sociedade. Precisa-se de criar condições para os jovens interessados tomarem as rédeas das novas necessidades, como criação de Sites, páginas no Facebook (apesar de existir, encontra-se sem actividade a pelo menos 6 anos), Canal no Youtube, e outras formas de comunicação e divulgação, que certamente sugerem dimensões da modernidade que não devem ser colocados de fora neste equacionamento.

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