A Ekula - O poder da autoridade tradicional em Benguela II

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O Dombe-Grande é uma região recheada de tradições vivas, imergidas de uma localidade encravada entre montanhas, mais ou menos desérticas, antecâmara do Namibe, por um lado e, por outro, uma fértil bacia hidrográfica em torno da foz do rio Kupololo que faz interferência ao oceano Atlântico.

A Ekula

Aderem à comuna distintas comunidades de origens etnolinguísticas Bantu e não-Bantu, processando nela uma cultura peculiar ndombe, a ponto de proporcionar alguma ambiguidade de interpretação do etnónimo, cuja dimensão causa impacto na região temida, respeitada mas também procurada por muita gente.

Além de potencialmente agro-pecuária e piscatória, bastando recordar as infraestruturas adstritas à Açucareira 4 de Fevereiro, aos aeródromo e porto pesqueiro (R. Delgado, 1944), há uma dinâmica de valores ancestrais que o resto da província não tem conhecimento (A. J. Gomes, 2007).

Dentre as várias instituições endógenas que lhe dão esta envergadura, paralelo ao ekwenje, à Okufekalã, Makunga, Okuyanga (Gomes, A. J. 1996), a ekula acaba sendo o coração da alma ndombe enquanto etnónimo e, por conseguinte, constitui o suporte do Dombe-Grande na qualidade de toponímia. Assim se explica e se entende porque o comportamento comunitário acaba tendo características próprias. O clima, deserto, rio e bosques, as montanhas, lagoas e praias, fundamentaram a religiosidade ndombe (Sagrado e Profano) encarnada nas estruturas do poder endógeno (Arjago, 36-37:2002).

Realizável uma vez a cada 25 a 30 anos, a ekula é uma instituição tradicional e secular, de âmbito sociopolítico, de maior envergadura e bastante mobilizadora, relativamente ao fluxo do poder da autoridade endógena, por isso indissociável das instituições complementares nomeadamente ekwenje e ocoto. Ao seu nível de funcionamento delimita as três estruturas sociopolíticas masculinas mais ativas que subentendem a gestão do poder. Explica-se pelo facto da organização social ndombe estar distribuída entre as gerações masculinas separadas, mais ou menos, em 30 anos, o que em olundombe se chama ekula. A cada 25 a 30 anos, o mundombe pára para legitimar a criação de uma classe social masculina, estratificando o grupo etnolinguístico em categorias, mais ou menos homogéneas, que correspondem às gerações úteis, repartidas entre i) jovens recém-iniciados tratando-se de menores de 30 anos de idade, ii) adultos de meia idade e iii) mais velhos. Organizadas em torno de líderes com a categoria hierárquica de Ohoma y'ekula com um préstito de vakesongo, constituintes de ovisoko, ambas tomam a designação genérica de Akula e distribuem-se em zonas administrativas para participarem da gestão comunitária funcionando em regimentos de castas.

O ingresso do primogénito do Ohoma y'ekula de jovens ao ekwenje, tão logo que atingem a puberdade, define o critério básico para a institucionalização da ekula mais nova, permitindo que todos os circuncisos dos últimos 30 anos tenham acento no ocoto para o acesso ao exercício de cidadania, por ser este o lugar onde se tomam as decisões mais importantes da vida comunitária.

Caracterizado por um intenso programa escolar, quer teórico, quer prático, ministrado na base da oralidade permitindo separar o homem-criança do homem-adulto (Pe R. Altuna, 281 -284:1993), o ekwenje serve essencialmente para vincular o cidadão aos ancestrais passando-o a autoridade através do pacto eterno, que consiste no sacrifício simbolizado através da ablação do prepúcio, estabelecido entre as partes, por intermédio do qual o sangue jorrado sobre a terra é assumido pelas autoridades não-vivas. Ao contrário de outras realidades, o mundombe não esgota a implementação do programa educacional do ekwenje, dando motivos para a realização da ekula.

Na prática, tudo começa quando o Ohoma y'ekula2 mais-velho, o líder espiritual que comunica com os ancestrais, sempre que a situação exija, consultados os vakesongo ou deles recebidos os conselhos pertinentes, convoca todos os jovens identificados com o grupo etnolinguístico ndombe e demais circuncisos interessados, para constituir a mais nova ekula.

Certificámo-nos unicamente aquando da realização da ekula convocada em Outubro de 1999 pelo Ohoma y'ekula Tchivela Segunda, que fez coincidir com o ingresso do primogénito do Ohoma y'ekula de jovens, neto de Tchivela Segunda, no ekwenje, que teria feito meses no ocombo apelando à comunidade ndombe para a comparticipação voluntária da logística através de animais para o sacrifício.

A ekula de 1976, do Ohoma y'ekula de jovens (A. J. Gomes, 33 ­ 39: 2007), sendo a última, respondeu com a realização de uma serie de plenários de zonas administrativas para avaliar e consolidar o nível de organização logística na preparação de mancebos para o início da caminhada ao ocombo. Uns 300 iniciados Vandombe e alguns Vakwandu, recebidos em ambiente festivo pelos Ovilombola, obrigados pelos preceituados consuetudinários a aderirem, pois se tratava de uma iniciação de integração e inclusão social, fez abarrotar o acampamento do ekwenje (A. J. Gomes, 31 - 33:2007).

Tratando-se de um cerimonial festivo realizado com intervalos bastante longos, os Vandombe de lugares mais longínquos, quer das zonas urbanas, quer do meio rural, de diferentes status e ocupações socioprofissionais, aproveitaram a oportunidade para participarem a todo custo, pelo menos, no quinto e último dia da ekula. Então, cerca de dez mil espectadores e actores, organizados em grupos hierarquizados e classes sociais, separados por idades e género, juntam-se no recinto do Elombe do maisvelho Ohoma y'ekula Tchivela Segunda, onde compuseram um festival de danças ritmadas pelo batimento das palmas das mãos, dos paus e dos pés. Também neste local se juntaram os Olohoma Vyakula, enquanto líderes hereditários das Akula de 1957, 1976 e incluindo a de 1999. Inúmeros rituais de passagem foram executados, tocando, cantando, dançando do quarto ao último dia sem repouso e, no meio de tanta agitação festiva com a cor dos trajes de gala, comeram muita carne de animais sacrificados.

O juramento público junto do ocoto dá acesso à constituição formal do mais novo Ohoma y`ekula mas, para evitar a profanação, os Vakwamutapi certificam-se antes de que os incircuncisos, geralmente representados por mulheres e crianças, estão distantes do ocoto e que não há violadores das regras nem ofendidos ou descontentes. Detetando alguma incompatibilidade no ambiente institucional, os infratores sofrem multas públicas depositadas no ongalo, colocado no centro do ocoto para efeitos normalmente limitados entre valores pecuniários e animais para sacrifícios posteriores.

Organizados em esquadras no centro do palco, os iniciados exibem a ekula, a própria dança cerimonial ensaiada nos últimos dias do ekwenje no ocombo (Pe F. Duff, 1945). Sendo uma coreografia artística, rara e especial, orquestrada pelo ritmo de palmas e batimentos dos pés no chão em harmonia com cânticos bucólicos, foi um momento tão espetacular, que o Mundombe espalhado sobre as montanhas procura não perder.

No final do singular espetáculo, os iniciados são convidados ao ocoto pelo Ohoma y'ekula mais-velho, para outorgar-lhes em cerimónia restrita presenciada pelo Ohoma y'ekula adulto, com o omutapi, testemunho que os autoriza a ocupar o lugar institucional. Por serem muitos, a entrega hierarquizasse começando com o Ohoma y'ekula mais novo a quem cabe a responsabilidade de outorgar os demais.

Como se pode perceber na hierarquia da ekula, a entronização de Ohoma obedece à linha uterina. Como Ohoma y'ekula, Tchivela Segunda herdou o poder de seu pai e foi entronado pelo avô em 1957. Em cerimónia similar acontecida em 1976, participou na passagem do testemunho de seu pai ao seu filho, Singuila Malengue3. Precisamente na nossa presença enquanto agentes externos, em pleno sol do dia 20 de Novembro em 1999, com 29 anos de idade, assistiu à passagem de testemunho de seu pai ao seu xará, filho de sua irmã mais velha, por isso seu primogénito uterino, na perspetiva de consanguinidade alargada. Aos 12 anos de idade, Singuila Malengue, passou a liderar uma ekula que vai assistir ao entronamento de seu primogénito tão logo que atinja a puberdade para ingressar no ekwenje.

A fim de consolidar os dados aqui descritos tínhamos planificado um encontro de réplica e reposição para 29 de Fevereiro de 2000 que não aconteceu pois, postos no local, deparámo-nos com o óbito do Ohoma y'ekula mais-velho Tchivela Segunda falecido aos 26, portanto, último sábado, e enterrado no dia seguinte. Com a morte de seu pai, aos seus 30 anos de idade, o Ohoma y'ekula da segunda geração tomou as rédeas da nação ndombe.


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