A memória viva da rainha Nzinga: identidade, imaginário e resistência

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Avaliando a sucessão de agravos cometidos pelo colonialismo em África, seria possível alinhar extenso prontuário de estratégias criadas para impor sua hegemonia.

Nessa averbação, o amordaçamento da memória popular constituiu uma das práticas mais recorrentes.

Todavia, a resistência africana somada à dos afro-descendentes da diáspora, logrou suplantar as omissões das narrativas ocidentais, assim como a lógica eurocêntrica e a investidura de regimes de sentido alheios ao continente, procedimentos que predicavam a meta comum de submeter a África.

Nesse cenário, a atuação da Rainha Nzinga (1582-1663), Ginga para os brasileiros, aufere prestígio incomum. Através de muitos feitos memoráveis que se estenderam ao longo de quarenta anos de lutas, Nzinga celebrizou-se pelo sucesso no enfrentamento dos colonialistas portugueses e do tráfico de escravos.

Nesse cenário, a atuação da Rainha Nzinga (1582-1663), Ginga para os brasileiros, aufere prestígio incomum. Através de muitos feitos memoráveis que se estenderam ao longo de quarenta anos de lutas, Nzinga celebrizou-se pelo sucesso no enfrentamento dos colonialistas portugueses e do tráfico de escravos.

Exercendo papel de liderança com audácia, argúcia e clareza política, seu nome tornou-se personificação icônica do repúdio ao domínio colonial e exaltação das lutas pela autodeterminação, que em Angola culminaram na Dipanda, tal como a independência é referida pelos angolanos (1975). Heroína nacional por consenso , a rainha é lembrada no nome dos logradouros, equipamentos públicos e monumentos.

Nzinga nasceu em Kábàsa, um dos prestigiados assentamentos das dinastias reais do Ndongo . Descrita pelos cronistas como mulher de beleza marcante e dotada de personalidade forte, Nzinga distinguiu-se como chefe militar, estrategista e diplomata. Os relatos mencionam também um indomável de espírito de luta. Frequentemente a rainha é citada liderando em pessoa seus comandados, marchando para o combate à frente da tropa.

Nzinga organizou formidável coligação política sob sua égide.

Apoiada numa coalizão reunindo os reinos da Matamba, Ndongo, Congo, Kassanje, Dembos e Kissama, a rainha combateu sem tréguas a invasão portuguesa. Resistiu até os últimos dias de sua vida sem jamais ter sido capturada. Quando de sua morte, aos 82 anos, Nzinga já tinha seu nome inscrito na história: estivera à testa do mais longo empreendimento guerreiro contra o colonialismo português em todo o mundo.

Claro sinal da simbiose a toda prova de Nzinga com as mais heterogêneas texturas sociais, culturais e políticas- em África e na diáspora negra- a rainha foi brindada com abundante repertório onomástico: Ginga, Singa, Zhinga, Jinga, Nxingha, Nzingha, Nzinga I, Nzinga Mbandi Ngola, Nzinga Mbandi, Nzinga Mbande e paralelamente à nominativa de base Bantu , versões portuguesas como Ana de Souza e Rainha Dona Ana; grafias compósitas como Rainha Nzingha de Ndongo, Ana Nzinga, Ann Nzingha e Ana de Sousa Nzingha Mbande; por fim, Dizonda, como ela mesma assinava os documentos.

Nessa ótica, afiançada por uma memória viva, o fascínio despertado pela biografia incomum da rainha terminou por ungir Nzinga como representação emblemática de uma Africanidade que não se deixa subjugar, creditando assim a determinação do continente na defesa dos seus desígnios civilizatórios. Em tal linha de abordagem, atentemos para as ponderações apresentadas a seguir:

“Nzinga Mbandi Ngola, rainha da Matamba e Angola nos séculos XVIXVII (1587-1663), foi uma das mulheres e heroínas africanas cuja memória mais tem desafiado o processo diluidor da amnésia, dando origem a um imaginário cultural na diáspora, tal como no folclore brasileiro com o nome de Ginga; despertou o interesse dos iluministas com a criação de um romance inspirado nos seus feitos (Castilhon, 1769) e citação na Histoire Universelle (1765); é cultuada como a heroína angolana das primeiras resistências pelos movimentos nacionalistas de Angola: e tem despertado interesse dos historiadores e antropólogos para a compreensão daquele momento histórico que caracterizou a destreza política e de armas desta rainha africana na resistência à ocupação dos portugueses do território angolano e consequente tráfico de escravos” (SERRANO, 1995/1996).

Deste modo, uma vez evidente a proeminência de Nzinga no imaginário negro e africano, o cerne desse ensaio tem por aspiração registrar pontuações e feedbacks testemunhados pelo autor do texto que segue nos cursos promovidos pelo Centro de Estudos Africanos da USP (CEA). Resultantes de interação com a clientela discente nos sempre animados debates suscitados pela Rainha Nzinga , a fascinação despertada pela soberana mostra o quanto o tema é não só angolano, mas também, brasileiro de corpo e alma.

Nessa declinação, ao lado de considerações matriciais relacionadas à história, ciência política e geografia, pautaremos entendimentos filiados ao percepcionamento da Rainha Nzinga pela consciência social. That is to say, à sua inserção no campo de análise da antropologia.

Com base nessas aferições, sumarizemos a trajetória de Nzinga, destacando os pontos que singularizam o percurso de vida da rainha no tempo e no espaço. Nesse prisma, em meio à geografia política da Angola pré-colonial (Figura 1), uma apreciação axial estaria dirigida para o Reino do Ndongo (ou Dongo), onde Nzinga assume o poder em 1623. A edificação do Ndongo deuse no frigir de articulações políticas travadas na sociedade Mbundu. Etnia que integra o universo Bantu, os Mbundu adentraram-se em Angola entre os séculos XIII e XVI, apoderando-se desde o litoral das imediações de Luanda até territórios situados 600 km em direção ao Leste, tendo por eixo os cursos médio e inferior do rio Kwanza.

A pesquisa histórica encontra dificuldade em datar com precisão os primórdios do Ndongo. Com base em levantamentos da literatura oral, acredita-se que o embrião desse Estado tenha eclodido no vale do rio Kwanza durante o século XIV. A partir dessa core area, o Ndongo paulatinamente desenvolveu uma rede de povoados, próspera economia agrícola, atividades de fundição e forja do ferro e um fluxo de trocas com base em feiras regulares integradas a rotas comerciais de curta e longa distância, as kitandas. Agremiando força crescente, o Ndongo corta os laços políticos com o Reino do Congo - ao qual estivera subordinado por uma suserania mais nominal do que efetiva - expulsando do seu território em 1556 na batalha de Ndande as tropas do Manicong (Senhor do Congo ao pé da letra).

Com a emancipação política, o Ndongo formou uma administração estatal complexa e hierarquizada, capacitada a convocar rapidamente numeroso exército. O reino era encabeçado pelo Ngola, título privativo dos soberanos do Ndongo, mais tarde desdobrando-se no topônimo Angola. É importante sublinhar que na língua quimbundo Ngola evoca significados de força e poderio, sensos que na cosmovisão Bantu, não se restringiam à esfera política. Como geralmente acontecia nas monarquias tradicionais africanas, o rei estava investido da intermediação entre os mundos visível e invisível, intercomunicando os ancestrais e os viventes, os humanos e as forças da natureza, sendo sua responsabilidade resguardar o bem-estar coletivo (FONSECA, 2012: 22-23; COELHO: 1995a e 1995b).

Quanto à Matamba, trata-se de uma vasta seção coberta por savanas secas situada no noroeste da atual Angola, hoje distrito da província de Malanje. Também conhecida como Ndongo Oriental ou Baixa de Kassanje, a Matamba era geograficamente a porta de entrada para o sertão angolano.

Quando da invasão portuguesa do Ndongo, Nzinga se refugia nessas plagas, lá sendo empossada como soberana em 1630. Conferida assim de dupla titularidade monárquica, tal episódio - inédito na história africana - configura uma monarquia dual Matamba-Ndongo que perdurou até 1756, quase sempre exercida por rainhas. No lapso dos 104 anos seguintes à morte de Nzinga, soberanas exerceram a realeza da Matamba-Ndongo por pelo menos oito décadas (Cf. FONSECA, 2012: 161).

No governo de Nzinga, a Matamba se consolida como autêntico bastião anticolonialista, funcionando durante todo seu reinado como trava para o avanço português em Angola e, além disso, desbaratando os intentos portugueses de avançar fundo no hinterland africano. Para Portugal a conquista da Matamba era essencial para alcançar as terras do Zambeze e do Índico, possibilitando obter mais escravos e mercadorias com alta cotação nos mercados da época (ouro, prata, marfim, peles e pedras preciosas).

Outro ganho seria assegurar acesso direto por terra, a partir de bases de apoio nos reinos Lozi e Lunda, com as cidades comerciais da contracosta do Índico e as regiões auríferas do Império Mutapa, uma meta secular do imperialismo luso.

Nesta contextualização, caberia o meritório apontamento de que os tremendos sucessos de Nzinga na luta anticolonial ocorreram em circunstâncias dificílimas. Note-se que no transcurso da entrada em cena dos portugueses, a tecedura sócio-espacial tradicional da região, modelada no fruir de intercâmbios sedimentados durante muitas gerações, fora duramente comprometida.

Desde o início, encetando guerra sem quartel contra os poderes africanos locais, as razzias portuguesas buscavam alimentar o comércio do “ouro negro de Angola”, isto é, de escravos. Assim, a predação dos autóctones, no geral prisioneiros de guerra, abalou o quadro demográfico original, acarretando intenso despovoamento e fugas maciças para
todas as direções (M’BOKOLO, 2012: 416).

Registros do período confirmam essa avaliação. Com a fundação de Luanda (1576), seu ancoradouro se tornou o mais importante porto negreiro da costa atlântica africana.
As exportações oscilavam anualmente entre 12.000 e 13.000 “peças”, ou seja, escravos.

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