A permanente Utopia da solidariedade

Envie este artigo por email

"Foram anos de descoberta da terra ausente. E dos seus anseios de mudança. Conversas na Casa dos Estudantes do Império, onde se reunia a juventude vinda de África. Conferências e palestras sobre a realidade das colónias. As primeiras leituras de poemas e contos que apontavam para uma ordem diferente. E ali, no centro mesmo do império, Sara descobria a sua diferença cultural em relação aos portugueses" (Pepetela, 1992, A geração da utopia, p. 13).

A permanente Utopia da  solidariedade
Solidariedade: a permanente Utopia da geração dos Estudantes do Império

Da consciência de ser culturalmente diferente para a consciência política da necessidade de sonhar uma nova ordem mundial anti-colonial e uma sociedade mais justa, foi um passo decisivo tomado pelos associados da então Casa dos Estudantes do Império (CEI, 1944-1965) “criada com o beneplácito do Estado Novo, como instituição de enquadramento dos jovens universitários oriundos das colónias portuguesas a estudar em Portugal”. No passado dia 28 de Outubro, no auditório da reitoria da Universidade de Coimbra, Pepetela, autor da obra que ficciona as conversas e lutas desses jovens estudantes, e que também foi um dos personagens reais da Utopia Africana, reviveu essa saga, na homenagem à Casa dos Estudantes do Império, promovida pela UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa. Será que Pepetela e os seus correligionários, hoje já na idade da sabedoria, puderam, ali na mais antiga universidade portuguesa, realizar que medida dos seus ideais não foi mera Utopia?

DEVER DE MEMÓRIA

Na cerimónia inaugural, Victor Ramalho, Secretário-Geral da UCCLA, considerou que “os jovens que então vieram estudar, porque não havia universidades nos territórios colonizados em África, tiveram um papel importantíssimo na vida de todos nós.” Para aquele responsável da UCCLA, “seria verdadeiramente indesculpável, se nós não erguêssemos esta memória. Uma memória solidária, afectiva, uma memória que também irmanou o povo português – é útil que se diga, é necessário que se afirme. Porque esses jovens que saíram foram os precursores da CPLP, quando criaram a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas – CONCP.”
Mais adiante, Victor Ramalho constatou como a roda da História Universal originou, através do Encontro de Civilizações, “novos países” e, em cada um desses países, “a fronteira do Mundo. Porque somos todos países que abrem as portas do mar aos continentes. Ao continente africano, com Angola, Moçambique, num caso no Índico, noutro no Atlântico, mas também em S. Tomé e Príncipe e em Cabo Verde (verdadeiros porta-aviões), mas também aqui em Portugal, o país mais próximo das Américas, do ponto de vista da relação marítima e porta de entrada, por isso, das Américas, mas também em Timor-Leste, mas também obviamente em Macau.”
O secretário-geral da UCCLA disse que “é caso para falar de uma grandeza que nos dá hoje a dimensão fantástica de uma das línguas mais faladas do Mundo. Uns já dizem que somos a 4ª, mas seguramente somos a 2ª ou a 3ª na utilização das redes sociais. “ Ramalho recordou “os homens que desbravaram caminhos para chegarmos aqui onde estamos. (...) Agora, contra ventos e marés, mercê desta equipa de amigos e solidários, foi possível levar a efeito esta tarefa, porque a UCCLA representa cidades e representa Lisboa que foi a sede da CEI e Coimbra – onde existia uma delegação muito importante.” A UCCLA fez o levantamento dos associados relevantes do ponto de vista histórico, abarcando o período dos 21 anos de existência da CEI, num total de 3.291 sócios, sendo os sócios nascidos em Angola o número mais elevado, com 952 associados. No próximo ano, esta União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa vai editar duas antologias poéticas de Angola, Moçambique e S. Tomé e Príncipe e reeditar os 22 volumes das obras publicadas na CEI com uma análise histórica por parte da professora Inocência Mata, pois, “por estranho que pareça, a memória também se perde”.
Fernando Martinho, representante dos associados da Casa dos Estudantes do Império, associado da CEI desde 1960, louvou esta iniciativa da UCCLA, como “uma honra devida àqueles que, oriundos da África, nos anos 40, 50 e 60 deixaram uma marca iniludível na história da luta pela liberdade e pelo progresso em Portugal e foram o gérmen – embora romântico naquela época, essas gerações da Utopia como escreveu Pepetela – foram os gérmenes das pátrias que existem por esse mundo fora e que, à época, eram colónias com todo o cortejo de exploração, desumanidade, de enfraquecimento do respeito pelos seres humanos. E esta homenagem é um mérito do Dr. Victor Ramalho.” Fernando Martinho considerou ainda que “a CEI teve o impacto que teve na formação cultural, politica e no amadurecimento de um projecto de libertação dos povos colonizados, porque surge num período agudo de luta do mundo que se batia pela liberdade contra o nazi-fascismo.” Essa luta pelo futuro, “no caso das colónias, tinha de passar pela descolonização, pela independência, pela auto-determinação, pela entrega dos destinos aos povos desses países”, constatou Martinho.
“A abertura desta homenagem tem toda a razão de ser feita em Coimbra. A CEI foi criada em Lisboa, mas rapidamente houve uma delegação em Coimbra. E a delegação de Coimbra tem a honra de ter tido como primeiro secretário, primeiro dirigente da delegação de Coimbra, Lúcio Lara. O secretário era Agostinho Neto. Lisboa não teve essa oportunidade. (...) Esta delegação da CEI de Coimbra foi talvez a mais aguerrida das Casas dos Estudantes do Império em Portugal. Foi aqui que se fez, nos anos 50, a declaração do Manifesto aos Povo Português a exigir a auto-determinação para os povos das colónias. (...) Sou também presidente do Ateneu de Coimbra. O Ateneu tem pouco mais idade que a CEI. Foi criada em 1940 e foi uma bolsa de resistência anti-fascista em Coimbra e nunca perdeu essa sua marca original e distintiva.”
O secretário-executivo da CPLP, embaixador Murade Murargy, destacou o papel da CEI que “marcou de forma bem vincada o percurso pessoal e político dos seus associados e, consequentemente, a história recente dos nossos Estados-Nações.” Para Murargy, a CEI foi o elo dos ideais humanistas e dos valores de liberdade e da auto-determinação dos Povos, focando a relevância do pensamento veiculado em debates, colóquios, boletins, poemas, contos e pelos laços criados entre os estudantes da Casa. “Posso dizer que a mensagem que os associados transmitiram agitou consciências, impôs a inovação do pensamento politico e assumiu relevância na vida cultural, fazendo ressoar um pouco por todo o território que hoje compõe a CPLP o eco dos ideais humanistas e dos valores da liberdade e da auto-determinação dos povos. Foi esta relevância que viria a ditar o seu encerramento pelo regime português de então,” acrescentou. Para Murargy, “a preservação do legado da CPLP é, manifestamente, a preservação do nosso património comum, pelo que enalteço o programa da comissão organizadora que compreende a reedição de obras como a Antologia de Poesia de Angola, S. Tomé e Príncipe e de Moçambique e o número especial do boletim Mensagem, entre outros. Pela CEI passaram Amílcar Cabral, Alda dos Espírito Santo, Pascoal Mucumbi, Pedro Pires, Vasco Cabral, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos, Luandino Vieira, Óscar Monteiro, José Craveirinha, Joaquim Chissano, Sérgio Vieira, Miguel Trovoada, Francisco José Tenreiro, Alda Lara, Pepetela, Onésimo Silveira, França Van-Dúnem, entre outras personalidades, terminou aquele palestrante, fazendo votos de que “do seu legado se cumpram os nossos sonhos.”

PARÁBOLA DO LEÃO
E DO CAÇADOR

Depois de uma pausa para café, foi aberta primeira sessão do único painel da homenagem à CEI, sobre “A importância da CEI na formação cultural dos seus associados”.
Diana Andringa, a moderadora, que não foi propriamente associada, visto ter entrado para a universidade quando a PIDE procedia ao encerramento da Casa e às prisões dos estudantes implicados (1964-65), confessou que “ao contrário do que há pouco foi dito, não considero que a liberdade dos países lusófonos de África se deva ao 25 de Abril, mas sei que o 25 de Abril se deve à luta dos nacionalistas dos países africanos.”
“Há um provérbio muito citado que diz que enquanto o leão não escrever a sua história, a gloria será sempre do caçador. E eu temo que os países lusófonos tenham estado até aqui a deixar que a glória seja do caçador. E penso que é muito importante assumirem a necessidade de escreverem a sua história (...)”
A segunda oradora foi Maria Eugénia Neto, presidente da Fundação Dr. António Agostinho Neto (FAAN), que ali em Coimbra esteve a representar o primeiro Presidente da República Popular de Angola, enquanto antigo associado da CEI em Coimbra e em Lisboa.
Eugénia Neto recordou que “em 1945, antes de partir para Portugal, bastante critico e convicto, Agostinho Neto afirmava: ‘os povos negros atravessam o seu período de confusão, por terem abandonado de chofre a sua cultura, modificando totalmente o sistema de vida em uma ou duas gerações, para adquirir uma cultura europeizada, estruturada sobre bases frágeis’. E também, noutro texto, afirmava: ‘ não estou idealizando uma nova arte colonial. Eu idealizo uma arte africana’. É imbuído destas convicções que, de 1947 a 1959, durante 12 anos, Agostinho Neto frequenta a Casa dos Estudantes do Império que vira a orientar através do MUD (Movimento de Unidade Democrática), no qual pertencia ao comité director, conhece prisões e conclui a atribulada licenciatura em Medicina. (...) Ao mudar-se para Portugal para estudar, Agostinho Neto começa a construir uma perspectiva política da cultura. À sua formação religiosa e humanista, adicionou a ciência, a modernidade e as novas correntes filosóficas modernas como o marxismo. Em Portugal desenvolveu a militância política activa contra o fascismo. E da negritude evoluiu para o pan-africanismo e para o neo-realismo. (...) Agostinho Neto destaca-se durante a campanha eleitoral oposicionista do general Norton de Matos à Presidência da República. Norton de Matos iria disputar as eleições com Fragoso Carmona. A CEI fez uma subscrição de auxiílio à campanha de Norton de Matos, em cooperação com a Associação Académica de Coimbra e com o Ateneu de Coimbra. Em 1949, Agostinho Neto, Antero de Abreu e Virgílio Simões Moreira convidam o general Norton de Matos a visitar Coimbra durante a campanha eleitoral à Presidência da República. Nesse ano, a PIDE recomenda o encerramento da CEI e a criação no Centro da Mocidade Portuguesa de uma secção destinada aos estudantes vindos das colónias.”
Maria Eugénia Neto propôs que “os edifícios da CEI em Lisboa, Coimbra e no Porto devem ser preservados, pois eles são uma parte da história de Portugal e dos territórios outrora ultramarinos. (...) Esperamos, pois, ver esses edifícios transformados em Centros de Cultura e de Amizade. Esta seria uma maneira de preservar a história e de evitar erros futuros. A Amizade entre os povos é a única via para a paz e a cooperação vantajosa para todos.”

O ESPÍRITO DA CASA

O engenheiro Jorge Querido, de Cabo Verde, que foi coordenador da secção do PAIGC em Portugal, de 1959 a 1968, revelou que “em 1994, ano em que a Casa dos Estudantes do Império, se ainda existisse, completaria meio século de vida, estando eu em Cabo Verde, tive a agradável surpresa de receber uma carta de um amigo, antigo companheiro e activista da Casa dos Estudantes do Império, dando-me a conhecer os caminhos já percorridos por uma Comissão que tinha a seu cargo a criação e instalação da Associação Casa dos Estudantes do Império e pedindo-me que, com base na minha experiência como antigo activista e também dirigente da Casa, desse um testemunho escrito dizendo o que para mim representaram os anos – mais de oito – em que a CEI foi realmente a minha, a nossa casa comum.
Esse meu pequeno texto de pouco mais de uma página viria a ser publicado, juntamente com vários outros testemunhos, todos eles elaborados por antigos associados, activistas ou dirigentes da CEI, num número especial da revista MENSAGEM que, como é sabido, foi durante toda a vida da Casa, o nome do nosso boletim associativo.
Nesse testemunho – que recebeu dos coordenadores da revista o feliz título de “o ‘espírito’ da Casa” – eu confessava o seguinte:
[…] Embora já tocado, ainda em Cabo Verde, pelos gérmenes da revolta contra uma situação colonial injusta e degradante, foi na Casa dos Estudantes do Império que obtive respostas a muitas das minhas interrogações e inquietações e foi ali que, em contacto diário, fraterno, amigo e enriquecedor com colegas da Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, pude conhecer, em toda a sua dimensão, a verdadeira face do colonialismo.
Na CEI, as nossas contradições, as nossas diferenças culturais, ideológicas ou outras eram debatidas franca e descomplexadamente.
Os nossos confrontos de ideias, ainda que por vezes implicassem incursões por terrenos difíceis e muito delicados, em vez de nos dividir, fortaleciam a nossa coesão.
A CEI, sem dúvida, engendrou um “espírito” que marcou gerações e que teve um papel importantíssimo na edificação dos novos países africanos que foram colónias portuguesas.”
Jorge Querido considerou que os poucos cabo-verdianos que passaram “pelo “espaço utópico” a que Alfredo Margarido chamou de “Uma ilha africana na Duque d’Ávila” e fomos capazes de descobrir e assimilar o tal “espírito” que ali se criara, podemo-nos considerar uns privilegiados. É que tivemos a oportunidade de viver uma experiência a que outros não puderam ou não quiseram ter acesso, e isso naturalmente que fez toda a diferença.”
Para Jorge Querido, a CEI foi “uma Associação de Estudantes muito especial, criada pelo regime de Salazar, com objectivos bem definidos e numa altura em que o Estado Novo ainda se esforçava por pôr em evidência toda a sua vocação imperial, embora se deva admitir que a fase imperial do colonialismo português não tenha ido além do fim da II Grande Guerra. De qualquer modo, se é certo e sabido que o colonialismo português não nasceu com o Estado Novo, não é menos verdade que foi o Estado Novo que, através da ideologia contida no Acto Colonial (1930), alterou o paradigma ideológico e as políticas coloniais até aí seguidas, criou e consagrou, tanto legal como constitucionalmente, a noção de Império, definido pelas autoridades portuguesas da época como sendo “a expressão do reencontro da nação com o seu passado, com as suas tradições autênticas e com a sua missão”. O império, tal como Salazar o concebia, era um corpo “disperso mas uno”, dotado de uma “cabeça”, a “metrópole”, que não só impôs desde logo uma forte centralização política e administrativa como ainda “firmou” com os restantes “órgãos”, que eram as colónias, uma “parceria colonial” que obrigava todas elas, particularmente as potencialmente mais ricas, a produzir e fornecer matérias-primas e a receber produtos manufacturados provenientes da “metrópole”, dando assim ao império a dimensão económica de que carecia. (...)
A ideia da criação da CEI foi lançada publicamente pelo próprio Ministro português das Colónias, Francisco Vieira Machado, no decorrer de uma visita feita à Casa de Angola, em Julho de 1944. O Ministro, no discurso que então proferiu, não só defendeu a fusão de todas as Casas de Estudantes – a de Angola, que já existia desde 1943, as de Moçambique, de Cabo Verde, da Índia e de Macau, que acabavam de ser criadas – numa única Casa que receberia o nome de Casa dos Estudantes do Império, como ainda deixou bem claro o seguinte: […] “Constituída a Casa dos Estudantes do Império fica satisfeito o nosso desejo, sabendo que podemos contar com a vossa dedicação, patriotismo e boa vontade. Estabelecer-se-á, assim, a necessária camaradagem entre todos e uma mentalidade nacional mais profícua. Cada vez mais as nossas colónias estão integradas no pensamento da metrópole, e é bom reforçar o elo que reúne o escol do Ultramar ao do Continente”.
A Casa única assim criada passaria a ser, no dizer das autoridades portuguesas da época, uma “filha da Mocidade Portuguesa” e, como tal, teria também a missão de fazer desenvolver entre os estudantes oriundos das colónias de Portugal os ideais do império. Por outro lado, era evidente que as autoridades portuguesas da época estavam também convencidas de que a existência de uma única Casa daria à Mocidade Portuguesa, ao Ministério das Colónias e à PIDE uma possibilidade maior de exercer um controlo político e policial mais fácil e mais eficaz sobre os estudantes provenientes de África.
No entanto, apesar disso, apesar de o Estado Novo de Salazar se ter esforçado por projectar sobre a CEI os desígnios da sua política imperial, a verdade é que bem cedo começaram a aparecer sinais reveladores de que tinham sido completamente subvertidos os objectivos que estiveram na base da sua criação.
Na verdade, já a partir de 1945/46, vários foram os relatórios elaborados pela PIDE sobre a CEI em que esta é acusada de ser “um covil de perigosos comunistas e traidores dos ideais da mãe pátria” e de ter contactos com meios oposicionistas, nomeadamente o MUD juvenil e o Ateneu de Coimbra, movimentos com fortes ligações ao Partido Comunista Português, única força política que, na altura, lutava efectivamente contra o regime de Salazar.
De “Filha da Mocidade Portuguesa”, a CEI se transforma, aos olhos do regime fascista de então, num “alfobre de elementos anti-situacionistas”.
No entanto, não obstante todas essas informações “negativas”, continuam, ainda hoje, a não ser inteiramente consensuais as verdadeiras razões que teriam levado o regime ditatorial de Salazar a permitir que a CEI tivesse conseguido ter, durante um período tão longo – quase metade do tempo que esteve Portugal submetido à ditadura do Estado Novo –, uma vida atribulada, sim, mas notavelmente activa e com um impacto enorme sobre o futuro das antigas colónias portuguesas e, quiçá, sobre o futuro de Portugal e do próprio povo português. (…)
É sobejamente sabido que praticamente desde a sua fundação não faltaram vozes, muitas até bem próximas de Salazar, a pedir que a Casa fosse encerrada. (...)
No entanto, ela resistiu a duas Comissões Administrativas, fez frente ao cerco apertado imposto pelo governo visando a sua asfixia financeira e só veio a sucumbir quando, em 1965, uma força policial encabeçada pela PIDE a invadiu, saqueou e encerrou.”
É verdade que a partir dos primeiros anos da década de sessenta do século passado a CEI claramente que começara a dar sinais de um certo enfraquecimento interno o que teria como causas não só a redução drástica do número de estudantes universitários vindos das “províncias ultramarinas”, em virtude da criação dos Estudos Gerais Universitários de Angola e de Moçambique, como ainda e principalmente pelo facto de os principais activistas da CEI terem deixado Portugal para se engajarem directamente na luta de libertação ou então, mesmo tendo ficado em Portugal, terem optado por outros tipos de acções noutros teatros de operações, quase sempre ligados às respectivas organizações nacionalistas que em Angola, Cabo Verde e Guiné e Moçambique tinham já dado início a acções concretas – quer clandestinas, quer político-diplomáticas, quer armadas – visando a conquista da independência.
Estou em crer que esse “enfraquecimento” da Casa era algo que poderia ser perfeitamente considerado como um acontecimento que marcou naturalmente a sua fase derradeira. A CEI viveu como viveu e só podia tombar como tombou. Opôs-se de forma enérgica, inteligente e consequente ao regime colonial-fascista imposto pelo Estado Novo, teve um papel muito importante, diria até fundamental, na formação da consciência nacional e anticolonial dos estudantes vindos das colónias e, quando caiu, a sua missão tinha já sido inteiramente cumprida.”
Foi o poeta angolano Manuel Rui Monteiro quem, na sua arte de saborear as palavras ditas, teceu ali um longo poema em prosa que levou os participantes a percorrer a memória planáltica das origens do poeta até este tempo em que paira no coração uma “certa nostalgia do sem quase saudade do presente.”
No seu tempo de estudante em Coimbra, “a Casa parecia um porão aberto de um esclavagista que se enganara e metera lá dentro médiuns e videntes fervendo panelas com ervas secretas do mato sobre o sabor das palavras e jograis reiventores incansáveis de outras palavras de forma encantatória indo no porão cada vez mais. A Casa era isso: uma fonte, um rio, um caminho e um mar imenso a navegar pelo sonho das palavras. De cada sabor de cada palavra. (...)
Na Casa começamos a canjonjar o verdadeiro sabor da falta de respeito organizada. A falta de respeito na poesia e na ficção nova que a Casa editava em pequenos livrinhos, a falta de respeito pelos cânones, a falta de respeito pela palavra História daquela maneira, palavra com sabor a amargo, pois tinha sido mandada cunhar sem sucesso. (...) A Casa foi o princípio de lutas, hinos e bandeiras, quando conseguimos segurar o sabor da palavra terra nos olhos dos mais velhos e nos braços das nossas crianças. Aqui em Coimbra não esqueço os amigos, irmãos portugueses e camaradas com quem partilhei sabores de muitas palavras como papoila, vértice ou ateneu. E o sabor novo da palavra guitarra e seu vocabulário poética de combate. E o sabor das palavras cravos, e o sabor do mês de Abril. Estou com um travo de sabor da palavra saudade e o passado, embora com uma certa nostalgia da saudade do presente. (...) Porém a Casa continua a vaguear. Como kazumbis ou espíritos que percorrem sonhos e corroem pesadelos.”

A DERRADEIRA UTOPIA

Utopia significa “lugar que não existe”. Em sentido amplo, define o imaginário de uma sociedade perfeita. Mas num sentido mais restrito, Utopia é também uma teoria que se propõe conduzir a uma mudança da ordem social existente, e está intimamente ligada ao país imaginado por Thomas More, escritor inglês do século XVI “onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona óptimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz.”
Num improviso de cariz pessoal e muito intimista, o escritor angolano Pepetela que definiu essa geração da CEI como geração da Utopia, tomou a palavra em Coimbra para referir um aspecto da CEI esquecido dos outros palestrantes. A sua biblioteca. “Ao ver a biblioteca”, disse Pepetela, “que talvez seja hoje uma coisa menor, sem importância, para mim foi um manancial incrível de conhecimento porque havia uns bonecos, quando uma pessoa ia de comboio de Benguela para o Huambo, passava no monte Saúa, e no monte Saúa as pessoas vendiam umas aves ao longo da linha, que nos chamávamos capota, que no Brasil chamam galinha de Angola, acho que em Luanda devem chamar galinha-do-mato... então, havia essas capotas feitas de madeira para vender. Só aqui na CEI é que eu aprendi que aquelas capotas faziam parte do artesanato angolano, que faziam parte da grande Arte Africana. Não fazia a mínima ideia do que aquilo era, no fundo. Foi aqui na biblioteca onde pude ler os livros que eram normalmente feitos em França sobre Arte Negra, em que havia, desde os bronzes do Benin às nossas máscaras tchokwe que eu descobri que havia todo um continente que tinha percorrido, uma larguíssima costa desse continente, mas não fazia a mínima ideia do que aquilo era. E isso aconteceu com a grande maioria dos estudantes que vieram para Portugal. Esse é um aspecto que eu considero muito, muito importante, aliado obviamente à literatura, aos livros que a Casa ia publicando, essa iniciativa do Carlos Ervedosa, apoiado pelo Fernando Costa Andrade que nós devemos sempre lembrar, portanto, esses livros que vão surgindo, as conferências que se faziam na Casa, discussões, debates, (...) enfim uma série de questões que eram passadas dos mais velhos para os mais novos e que fez com que eu abrisse os olhos para a riqueza cultural do continente africano e quisesse também participar nisso.”
Como disse, na abertura, o secretário executivo da CPLP, cumprir-se-ão 50 anos do encerramento da CEI em 2015 e “no mesmo ano celebraremos o 40° aniversário das independências dos nossos países.” Tal como asseverou Diana Andringa, na moderação da primeira sessão do colóquio, é necessário escrever a história das ex-colónias portuguesas “para não a deixar esquecida e para que as novas gerações saibam o que é que foi necessário de luta para que fossem independentes, mesmo independências imperfeitas, para que possam viver em liberdade, mesmo em liberdades imperfeitas.”
Portanto, o alcance da autonomia que, nos idos anos da CEI, fazia parte da grande Utopia política hoje é realidade. Nem tudo, afinal, era Utopia no sentido mais lato da palavra.

Da ficção histórica para o reencontro físico, no mesmo espaço geográfico, onde, há mais de meio século, se criou “o momento da euforia, da utopia”, Pepetela destaca que “para mim, isso era a CEI. Também era aquela solidariedade que muito mais tarde encontrei também na luta armada, o mesmo tipo de solidariedade, em que íamos para as manifestações, sobretudo a partir de 1960/61, começaram a ser violentas e arriscadas, havia sempre alguém que dava uma indicação ou alguém que puxava o outro que tinha caído. Esse tipo de solidariedade de pessoas que olham para trás, para ver quem é que se atrasou, que é fundamental em qualquer sociedade. Não é só em qualquer luta ou em qualquer guerra, ou em qualquer movimento político. Na vida, no viver das pessoas, é fundamental ver quem é que está connosco, se está a avançar também, ou se ficou para trás. Isso eu aprendi na casa dos Estudantes do Império.”
Pepetela, quase a concluir a sua oração, referiu que agora volta encontrar em Lisboa, “de novo, aquele ambiente que me faz voltar aos anos 60. Nitidamente, de pessoas mais tristes e portanto talvez agora me sinta de novo em casa.”
Se Diana Andringa concluiu, com Muragy, que parte substancial da Utopia foi realizada, seria, portanto, o próprio Pepetala a responder à questão imaginada no início desta reportagem. Há utopias que se desfazem na fenomenologia dos acontecimentos forjados pelo sacrifício colectivo dos povos e se tornam matéria palpável, bandeira, hino e escola. Mas o humanismo capaz de criar o fascínio na vida relacional e inter-subjectiva de todos quantos, na Casa dos Estudantes do Império, sonharam e vivenciaram e dos que nasceram depois desse sonho e dessa vivência permanece Utopia: o espírito de solidariedade, “esse tipo de solidariedade de pessoas que olham para trás, para ver quem é que se atrasou, que é fundamental em qualquer sociedade.”

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos