A poesia da dança

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Dançar faz bem à alma humana e ao Grande Espírito da Natureza.

 Antes do homem dançar, já o faziam as árvores, ao sabor do vento e da chuva. Já dançavam, antes do homem, as aves e os oceanos, as baleias e as areias finíssimas de muitas cores, já dançavam os vulcões e as placas tectónicas da própria Terra. O Sol dança há muitos milhões de anos, em torno de si mesmo, e todo o Universo é uma infinita dança em espiral.
Dançam os animais antes de acasalarem. Dançam as aves e os pássaros, poisados ou suspensos no fio do horizonte. Dançam as palavras no céu da nossa boca, antes de saírem pela boca fora e criarem novas realidades físicas e psíquicas.
De tanto observar a sociedade humana nos seus mínimos contornos, tenho visto ao pé de mim aves bailarinas. Mesmo sem asas visíveis. Essas aves têm outra espécie de asas: as da imaginação e da bondade. Também as tem a Ana Clara Guerra Marques, fundadora da Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC). E o espírito que com ela se senta à mesa é essa arte de saber dançar como uma mariposa e fazer dançar em palco os sete pássaros acrobáticos da CDC. Sete revelações do antigo mito do humano voo com os pés na terra.
Depois de vermos tudo quanto a CDC já mostrou, ficamos sem saber qual espectáculo eleger, porque todos se pautaram pelo prisma da excelência e do rigor. O último espectáculo, que é tema de capa deste jornal, “Paisagens Propícias” tem algo de mágico: são as vozes dos pastores do deserto do Namibe. E é toda uma cultura nascida do ouro do leite das vacas e da transumância que irradia dessa peça. Os corpos em êxtase dançante exprimem, em figuras móveis, elásticas e em determinadas pausas e silêncios o que só a poesia de Ruy Duarte de Carvalho e a poesia dos cantares dos Herero foi capaz de exprimir. É uma recriação poética da vida em forma de dança e de drama que tem, no meu modesto ver, o estatuto de Património Cultural Imaterial de Angola. A ser exibido ao público que não cabe numa sala de espectáculos.

Literatura e direitos humanos

Nadine Gordimer deixou de pensar em escrever aos 90 anos. Deixou-nos aquela que uniu a literatura à luta pelos direitos humanos, numa África do Sul que esteve tanto tempo sob um dos regimes mais desprezíveis do Planeta, o Apartheid.
Prémio Nobel de Literatura em 1991, Gordimer venceu também o prémio Man Booker. O jornal Cultura recorda aqui essa grande escritora sul-africana que nunca quis ver as pessoas pela cor da pele. Este é o legado mais importante que qualquer ser humano pode deixar aqui na Terra antes de partir. Olhar o Outro pela cor única do sangue. Ou da alma, que é invisível. E que faz do ser humano, um animal transparente.

O olhar do escritor

“O meu olhar é o do escritor. Acima de tudo entendo-me na poética da minha ficcionalidade. Falo alto e grosso: tenho uma maneira minha de fazer ficção”, diz Manuel Rui, em entrevista ao Cultura. Manuel Rui, para quem o exercício da escrita representa “o favo, o voo da abelha e o mel.” Uma entrevista que desvenda a forma e o âmago do nosso griô, aquele que sabe contar estórias “Da Palma da Mão” e dar a um porco o estatuto de cidadão nacional. Um visionário que encontra na escrita o chão fértil de erguer uma Nação. Ainda que virtual.

O vício de reinventar a Vida

São estas vozes da Arte Africana que destacamos, no meio de outros materiais de ler, para que você nos ajude a celebrar este vício de reinventar a Vida nas páginas dos jornais.

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