A promoção da Literatura na era digital

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A História da Humanidade, conhecido como Globalização, tem na utilização da tecnologia digital

A promoção da Literatura na era digital
Colaboradores do jornal Cultura e jornalistas das variadas editorias de outros títulos da Edições Novembro marcaram presença no acto comemorativo ao quinzenário cultural Fotografia: Paulino Damião

Há quatro anos (2012) surgia em Angola, particularmente em Luanda, o Jornal Cultura com o qual, na qualidade de leitor e por força da minha formação histórica, passei a estabelecer uma relação de proximidade, que com o decorrer do tempo tornou-se íntima, na medida em que o «estatuto» de colaborador deste órgão de comunicação social conferiu-me o privilégio de recebê-lo quinzenalmente por meio da internet, evitando deste modo que eu me desloque aos postos de venda para adquiri-lo.
De facto, este período (se é que assim podemos chamar) da História da Humanidade, conhecido como Globalização, tem na utilização da tecnologia digital uma das suas características, e o seu papel na transformação das mentalidades e igualmente na promoção das artes tem sido analisado frequentemente pelos especialistas de diversas áreas, como os engenheiros informáticos, pedagogos, sociólogos, psicólogos, etc..
Pelo que tenho ouvido atentamente destes especialistas, o uso desta ferramenta – a tecnologia digital - foi precedido e acompanhado em alguns países ocidentais pelo processo de educação que visava preparar os cidadãos para a utilização correcta desta plataforma, por meio da qual são divulgados e consumidos, entre outros, produtos culturais, como o jornal, o livro, a música, o filme, a revista, só para citar estes.
Tendo em conta a abrangência do tema, limitar-me-ei apenas em tecer algumas considerações sobre o papel que a tecnologia digital desempenha na divulgação da Literatura que, apesar das suas especificidades, não deixa de ser uma arte.

Literatura na Era Digital
Arte do cultivo da palavra, a Literatura encontra na tecnologia digital um meio, diria mesmo, um espaço de preservação e de divulgação de obras literárias produzidas pelo homem em determinada época. Para o caso angolano, que é o que mais nos interessa, sou de opinião de que a publicação de obras literárias sob a forma de audiobooks contribuiria grandemente para o acesso de muitos cidadãos ao livro e, sobretudo para o resgate do hábito da leitura, tendo em conta o peso da oralidade e da audição, respectivamente, na transmissão e na recepção de informações nas sociedades africanas, em geral, e em Angola em particular. Esta será possivelmente uma das razões que torna a rádio no meio de comunicação social de maior impacto em Angola, em relação ao jornal e à televisão cujos conteúdos informativos, incluindo os de carácter cultural, têm sido divulgados ultimamente através das Tecnologias de Informação e de Comunicação.
Aliás, a ideia de publicação de livros sob a forma de audiobooks foi apresentada recentemente por um dos candidatos ao cargo de Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos, no debate promovido na quarta-feira (06/04/2016) pela LAC (Luanda Antena Comercial), no qual participou o responsável máximo da referida instituição que concorre para sua própria sucessão.
Isto porque a alegada «falta de tempo» para leitura de livros decorrente da dinâmica da vida dos tempos que correm, é hoje um argumento inaceitável, diria mesmo, caduco, na medida em que, por meio do audiobook, surgido na Era Digital, é possível ter se acesso ao seu conteúdo por meio da escuta da sua mensagem. Ou seja, o livro é «lido» por meio da audição.
Sobre esta questão, nada melhor do que recordar aqui o diálogo que mantive recentemente com uma jovem, durante o qual a minha interlocutora questionada se lia um dos livros de Pepetela respondeu a pergunta que lhe foi dirigida com a seguinte objecção: «Eu vou ler a obra de Pepetela?!».
Creio que a licenciada em Gestão de Empresas, interessada em ouvir músicas e ver novelas, teria tido outra postura se tivesse tido contacto com as obras de Pepetela, e de outros escritores, se as mesmas tivessem sido publicadas em audiobooks que ela - penso eu - teria adquirido.
Dito isto, passo agora para outro ponto que acho interessante abordar.

Espaço de interacção com o leitor
Outra possibilidade existente actualmente é a criação de blog por meio do qual o seu criador, neste caso, o escritor, pode estabelecer um diálogo com o (s) seu (s) leitor (es) atráves de textos sobre literatura, de crítica literária, ou seja, sobre o mundo das Letras no qual está inserido.
Mais do que isso, a criação de um blog permite ao escritor anunciar em primeira mão o lançamento de uma obra literária, e por esta via incentivar o seu consumo. Relativamente a esta questão, tenho a dizer que, contrariammente aos escritores brasileiros, não encontrei nenhum blog da autoria de um escritor angolano durante a pesquisa que efectuei com objectivo de obter informações que serviriam de suporte para a produção deste texto. É possível que existam blogs de escritores angolanos. Porém, salvo opinião contrária, desconhecço até aqui a existência dos mesmos.
Nunca é demais afirmar que em Angola a consulta de blogs e de sites tem sido feita frequente e principalmente pelos jovens, que por sinal constituem a maioria da população angolana, e particularmente o maior número de consumidores de obras artísticas. Neste ponto, parece-me que os músicos estarão numa fase mais avançada de divulgação das suas actividades, por meio da abertura e utilização de páginas nas redes sociais como o facebook.
Portanto, não haja dúvidas de quão importante é nos nossos dias a tecnologia digital como espaço de promoção da Literatura, em particular, e das Artes em geral, e igualmente como espaço de interacção entre o escritor e o leitor.

Um caso recente
A divulgação e a retirada do youtube do videoclipe da música Azar da Belita, da autoria do músico C4 Pedro, é um dos exemplos do impacto provocado pela tecnologia digital na promoção da arte.
O caso que envolve o referido artista gerou polémica entre os cidadãos que, de um lado, defendiam a liberdade de expressão, e, por extensão, de criatividade (SILVA, 2016), ao passo que, do outro lado, algumas vozes em número reduzido apelavam ao respeito dos valores morais, éticos, cívicos e religiosos, tendo em conta que Angola, embora seja um Estado Laico, é um País cuja maioria da população é cristã. Portanto, algumas sensibilidades religiosas manifestaram-se como tendo sido ofendidas com a sugestão feita pelo “Rei da coloca” enquanto figura de estilo que, além do apelo à violência contra a mulher, recorda a imagem do homem que a considera apenas como uma fonte de prazer. Tais interpretações foram feitas num período em que os abusos sexuais contra crianças do sexo feminino voltaram a ocupar largos espaços noticiosos na imprensa angolana.
Constatou-se no seio da sociedade, especialmente entre os usuários das redes sociais, que a discussão esteve centrada sobre o papel do artista enquanto formador de consciência e promotor de comportamentos eticamente aceitáveis ou reprováveis (KATÚMUA, 2014). Aqui chegados, seria bom que quem de direito colocasse à disposição do público, em geral, por meio da internet as canções entoadas pelos agrupamentos musicais como Os Kiezos, Os Jovens do Prenda,Os N’gola Ritmos, só para citar estes, a fim de que os actuais músicos, em particular, possam ter noção do desempenho dos músicos angolanos na formação da consciência revolucionária durante a luta de libertação nacional.
Num dos seus artigos publicado no Jornal Cultura, Patrício Batsîkama (2012), crítico de Arte, referiu-se ao casamento entre a moral e a “etimologia da palavra arte” e, igualmente sobre a “conquista social do Bem” como o fim que a última prossegue. Mais do que isso, o especialista em Filosofia e História das Artes apontou o “analfabetismo artístico” como o motivo pelo qual se produz e consomem obras de pouca ou nenhuma qualidade em Angola.
Por outras palavras, quanto menos instruído for o consumidor, maior será a tendência para a produção e o consumo de obras de arte de qualidade duvidosa.
O que acaba de ser dito aplica-se a alguns textos publicados ultimamente com o rotulo de “literários”, que na verdade nada têm de literário/artístico (MACEDO, 2010). De acordo com o escritor José Luís Mendonça (2015), a cedência de espaço ao “preconceito crítico”, em detrimento da crítica literária na imprensa angolana permite que actualmente “todo o produto artístico (?) lançado no mercado [seja] apresentado como uma obra-prima digna de aplauso”.
Um observador atento da realidade angolana apercebe-se que, em certa medida, esta prática tem sido incentivada por muitos jornalistas, que no afã de «informar com verdade» (FONSECA, 2014) publicitam toda e qualquer obra como sendo literária, não havendo assim distinção entre o trabalho científico e o literário/artístico.
Permitam-me dizer que, o jornalismo cultural enquanto ramo da actividade jornalística, requer a familiarização com diversas áreas do conhecimento como a Literatura, a História das Artes, só para citar estas, que fornecerão subsídios importantes para o jornalista enquanto formador de opinião sobre os produtos artísticos que irá divulgar no exercício da sua profissão.
É nesse sentido que o Jornal Cultura apresenta-se como um dos poucos espaços de reflexão sobre as artes e as letras que se produzem em Angola.
Em jeito de conclusão, a aposta na criação de outros jornais como este, em todas as cidades, e a inclusão de jovens recém-licenciados em Letras e em Ciências Sociais no colectivo de trabalhadores, poderá trazer resultados positivos no desempenho do jornalismo cultural, que no nosso País carece de jornalistas entendidos em questões culturais.
Este é o apelo que faço e desde já agradeço a atenção dispensada.

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