A Propósito da Cultura e da sua Diversidade I – Contextualização do tema e aspectos conceptuais

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Introdução
O presente tema, tal como é concebido, leva-nos a tratar da cultura como um fenómeno total e  multidimensional, uma abordagem que, esperamos, abra caminhos para um aprofundamento de questões que, obviamente, muitas serão apresentadas com alguma superficialidade.


A Propósito da Cultura e da sua Diversidade I – Contextualização do tema e aspectos conceptuais

Pode-se constituir em antecâmara do relatório social de Angola, pois, falar da cultura é falar de uma vida inteira de um povo e da sua relação intrínseca consigo e com outros povos.
Todos os povos da terra são geradores e consumidores de cultura. Ela reflecte o espírito que opera neles ao longo do seu percurso de vida, identifica e define o ser humano na sua pertença a um grupo, condiciona-o como agente da sua história e é fibra insubstituível da fabricação das suas identidades singulares e colectivas.
Para o desenvolvimento do presente trabalho baseamo-nos em pesquisa documental e comparativa, tal como se constata da lista das nossas referências bibliográficas que espelham estudos sobre a cultura em África realizados por pesquisadores e cientistas sociais angolanos, demais africanos e de outras partes do mundo.
Deste modo, conseguimos produzir acerca da referida Diversidade Cultural uma abordagem que comporta, no global, a contextualização do tema, evidenciando as características específicas aos quadros angolano e africano, aspectos conceituais dos termos cultura, Identidade cultural, semelhanças e diferenças, cultura étnica, cultura nacional e unidade cultural. Fizemos referência à cultura na óptica multissectorial e multirrelacional com ênfase para o trabalho, a propriedade, a terra, a justiça, o desenvolvimento, a família, a participação bem como algumas ideias-força relativas à concepção da vida. Aqui, entram por exemplo, a língua, noções mágico-religiosas,  música, linguagem gestual, dança, cozinha, modos de ocupação e de arranjo do espaço, divisão do trabalho entre muitos mais aspectos interessantes.  Também lançamos um olhar ao vínculo entre diversas civilizações, em que são relevados o pluralismo cultural, a globalização enquanto fenómeno mundial, a defesa, a protecção e a preservação dos valores culturais e das próprias civilizações enquanto configurações incluindo elementos das culturas material e imaterial. É, igualmente, dado algum destaque à abordagem ao papel da palavra nas tradições africanas, na perspectiva da comunicação inter e intracultural. Finalmente, faz-se uma alusão particular à educação, sempre a partir do ângulo cultural.

CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA

Caracterização do contexto africano
A África é composta de muitas sociedades, etnias, tribos, etc. Os autores de estudos sobre a África não são unânimes acerca da existência de um ponto de vista comum sobre todas as sociedades que a constituem. Por exemplo, John Mbiti et Jeoffrey sublinham a unidade na concepção do mundo. Assim, é preciso considerar que há uma certa unidade nas diferentes experiências dos povos africanos e que eles têm muito de comum, o que não aparece à primeira vista. Contudo, em matéria de religião por exemplo, Mbiti afirma que cada povo tem o seu próprio sistema religioso. Por conseguinte, ele prefere falar mais em termos de “religiões africanas” e “filosofia africana” . Mas, em última análise, Mbiti constata uma certa unidade que lhe permite estudar temas comuns a todas as religiões africanas.
Vamos também tomar como prova a terminologia relativa à denominação dos povos da área sócio-cultural bantu; vocábulo esse que “deriva da evolução semântica do termo muntu (munthu) que em diversas expressões linguísticas africanas, próximas deste termo, assume o significado de pessoa. O termo muntu constitui a raiz da origem linguística comum dos ditos povos Bantu (Banthu ou Vanthu). Trata-se de povos que têm semelhanças linguísticas, com bastantes traços comuns, fazendo remontar a origem desses povos  não só de uma raiz linguística comum, mas também de uma origem étnica eventualmente mais próxima, em relação aos demais povos africanos” .
O termo bantu foi introduzido no léxico científico em 1862 por W.H.Black. Aplica-se aos povos de raça negra que conservam uma certa unidade civilizacional.
O radical “ntu,  partilhado pela maioria das línguas bantu, designa homem ou pessoa. O prefixo “ba” forma o plural da palavra “munthu” ou “muntu”. Logo “bantu” significa seres humanos, pessoas, homens, povo. “Bantu” não se refere a uma unidade racial mas a povos e a comunidades culturais com civilização comum e línguas aproximadas. E existem cerca de 500 povos bantu no continente africano, representando um universo relacional de 150.000.000 de habitantes .
Os povos bantu diferem, do ponto de vista das antropologias física e social, na cor da pele, na altura, nas dimensões culturais, etc. Na sequência, eles podem ser, de maneira muito geral, divididos em bantus das savanas e bantus das florestas. Entre outras, existem diferenças nos tipos de organização social (matrilinear e patrilinear), na actividade económica (caçadores, criadores de gado, agricultores, cultivadores de floresta tropical). Algumas sociedades bantu usam máscaras, outras não. Uns possuem sociedades secretas, outros não. Muitos praticam ritos de iniciação masculina e feminina e uns quantos não. De facto, o seu denominador comum é a estrutura linguística baseada em classes nominais. Portanto, são sociedades orais ou da palavra.

Caracterização do contexto angolano

Os estudos sobre a emigração bantu, apontam para datas e períodos muito contraditórios. Existem indícios de que no Séc. IV dC. os Luena e os Lubas teriam fundado as primeiras dinastias ao Sul do Equador. O linguista Guthier situa o núcleo linguístico protótipo dos bantu entre os Luba e os Bemba no Alto Zaire. Os povos bantu de Angola são: Ambundu, Baluba, Bakongo, Lunda -Tchokwe, Herero, Humbi, Nganguela, Nyaneka, Ovambo, Ovimbundu e Oshindonga . Para além disso, estes povos estão subdivididos em comunidades baseadas em critérios linguísticos. A composição etnolinguística de Angola faz-nos depreender que é um país pluriétnico, com uma diversidade etnolinguística predominantemente de origem bantu, portanto, multicultural. Situando-se a Sul do Equador, pertence tanto à África Central como à Austral. De uma extensão territorial de “1.246.700 km.²” , é habitada por uma população avaliada em cerca de “13.500.000 habitantes” , distribuídos em zonas ou áreas de influência determinadas pelas suas origens histórico-geográficas e pela sua expressão linguística.
Segundo a classificação de José Redinha, na sua obra ETNIAS E POVOS DE ANGOLA, reproduzida pouco antes da proclamação da Independência de Angola, são apontadas três áreas sócio-culturais: Área Bantu; Área Vatwa e Área Khoi-Sã e designa 11 grupos etnolinguísticos como “os Kikongo, os Ambundu, os Lunda Cioco, os Umbundu, os Ganguela, os Nhaneka-Humbi, os Ambo, os Xindonga, os Herero, os Hotentote-Bosquimano e Vatwa”, distribuídos em 122 comunidades. Por outro lado, o angolano José Kipungo, reconhece a existência, em Angola, de três áreas sócio-culturais e treze comunidades etnolinguísticas, “os Bakongo, os Ambundu, de expressão linguística Kimbundu, os Lunda – Tchokwe, os Ovimbundu – Umbundu-- , os Ganguela – Tchinganguela--, os Nyaneka – Olunyaneka--, os Ambo – Tchikwanhama--, os Helelo – Tchihelelo--, os Xindonga, os Baluba – Tchibaluba--, os Ovakwisi, Ovakwepe e Kung”, estes três últimos, da área não bantu.* E também, um outro angolano Moisés Malumbu, na sua obra, OS OVIMBUNDU DE ANGOLA, afirma que a população Angola está distribuída “por oito principais grupos étnicos com os seus subgrupos étnicos e respectivas línguas e dialectos locais. A esses grupos étnicos se juntam os de fenótipos branco e mestiços que constituem cerca de 3% da população angolana” .

ASPECTOS CONCEPTUAIS

A cultura depende da maneira de ver de cada pessoa, dos valores que, segundo ele, devem ser cultivados. Logo, a concepção de cultura depende da ideologia de cada indivíduo, da sua filosofia, da sua mentalidade, da sua sensibilidade, da sua concepção religiosa e da sua concepção moral. Pode-se, assim, compreender como podem nascer tantas definições e tantas opiniões diversas sobre cultura, cada uma com elementos verazes e também com os seus próprios limites.
Vamos tratar de apresentar alguns conceitos de cultura para evidenciar a diversidade na abordagem do assunto por vários cientistas sociais. As visões de cada cientista social vão permitir adequar um conceito de cultura, não divergente dos demais mas, em certa medida, complementar. Assim, em certos círculos cientifico-sociais, subdivide-se o conceito de cultura  em dois grandes campos epistemológicos: o dos artefactos e o dos mentefactos. Vejamos :
• A cultura é o conjunto de actividades nos âmbitos da arte, da música, da literatura, abarcando ainda conhecimentos técnicos, científicos, materiais, espirituais e éticos. Em suma, ela significa, “tudo aquilo que caracteriza a presença e a acção da pessoa humana num lugar, de um grupo de pessoas numa região, país ou continente, etc. Tudo quanto seja do saber sobre o modo de vida de um povo, seu convívio, trabalho e progresso” .
• A cultura consiste nos modos de agir, sentir, pensar e de criar formas apreendidas no quotidiano da vida.
• Segundo Sir Edward Taylor, cultura é a “complexa totalidade que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, lei, costumes e todas as outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade” . Portanto, as pessoas, na qualidade de membros de determinada sociedade, adquirem cultura e dela se apropriam. A pessoa se apropria dos padrões de comportamento vigentes na sociedade a que pertence. Tais fenómenos constituem a dita protocultura, ou seja, os processos de inculturação ou de integração sócio-cultural do indivíduo no grupo social onde se insere.
• De acordo com os cientistas sociais americanos Paul Harton e Chester Hunt, cultura “é tudo o que é socialmente aprendido e partilhado pelos componentes de uma sociedade”. Portanto, ela é toda uma herança social que pode ser dividida em cultura material e não material, representando, de um lado, a concretização nos objectos manufacturados, como ferramentas, mobílias, prédios, qualquer substância química, etc., transformada para uso da população e, do outro lado, as palavras que o povo usa, as ideias, os costumes, os hábitos e a manifestação de sentimentos diversos.
• Há quem defina ainda, cultura, como o sistema de normas teórico-práticas, na sua maioria transcendentais, que servem de base à caminhada da sociedade.
• Outros, por sua vez, a definem como “o conjunto de valores, tradições e costumes organizados na sociedade. É concebida originalmente e, por norma, é passada de geração em geração. Como todos os demais processos sociais, a cultura não pode ser nunca analisada do ponto de vista estático, mas sim como um factor evolutivo dentro da própria sociedade em si” .
• Cultura é, pois, um conjunto e uma relação que envolvem “as ideias, os hábitos, as competências, a arte, os instrumentos, a organização, etc. dum povo e num dado período”.
• “Em latus sensu, a palavra ‘cultura’ designa tudo pelo qual o homem afirma e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; esforça-se a submeter o universo …; humaniza a vida social, tanto na família como no conjunto da vida civil, graças ao progresso dos hábitos e práticas e das instituições; enfim… ele conserva nas suas obras, ao longo do tempo, as grandes experiências e as aspirações espirituais para que elas sirvam para o progresso de um grande número e mesmo de todo o género humano” .
Em suma, a cultura é considerada como uma visão global da vida e como um projecto da comunidade e da colectividade, uma síntese e uma manifestação de valores naturais e espirituais da própria vida da população. A cultura abraça a totalidade da vida de um povo. (…) é um conjunto de concepções de vida (diversidade) socialmente partilhados. Dai advém, então, todo um conjunto de reflexões em torno da pluralidade cultural e da cultura, quer no contexto africano ou no de um país como o nosso, E, nesta continuidade, se levantam múltiplos problemas como, não escolhendo senão alguns, o da cultura comunitária, o do desenvolvimento e da transmissão de códigos normativos e de valores e, necessariamente, as questões dos poderes, das autoridades tradicionais, da propriedade, do trabalho ou mesmo o da informação, como a entendemos na actualidade.

[CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO]    

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