A Propósito da Cultura e da sua Diversidade III – A cultura na óptica multissectorial e multi-relacional

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Trabalho, propriedade e terra na óptica cultural. O trabalho, como outras coisas, não tem definição própria no âmbito cultural tradicional, pois, na concepção tradicional africana “é absurdo pretender atribuir uma definição a alguma coisa.

A Propósito da Cultura e da sua Diversidade III – A cultura na óptica multissectorial e multi-relacional
Trabalho, propriedade e terra na óptica cultural

É ainda muito mais absurdo exigir uma definição de algo de que se presume ser conhecido e compreendido por todos!” . Os povos africanos têm a noção de conceitos, porém, optando pelo sentido prático, eles os exprimem em “provérbios e através de ditos dos sábios” . Numa outra vertente, a abordagem ao conceito de trabalho implica o do lazer, visto serem ambos elementos intrínsecos, embora distintos, de um mesmo processo relacional com o meio natural e humano em que se inscreve o actor social e visando o bem-estar. Contudo, “hoje, muitos dos mais jovens estudantes africanos não têm ideia do que foi a vida dos seus ancestrais. E até os mais idosos perdem de vista muito rapidamente muitos dos valores existentes nas sociedades tradicionais de há apenas cem anos” .
No campo cultural, é perceptível a visão de que o trabalho constitui uma necessidade que se, de um lado, acarreta esforço, por outro, significa também algo de apreciável, senão de louvável, porque ele incorpora componentes de uma percepção estética de ordem social que, na realidade, correspondem a valores morais de cariz comunitário. Por essa razão, a sociedade privilegia os valores colectivos em detrimento dos preguiçosos e de todos aqueles que recusam o compromisso com o bem comum que, por isso, são votados ao desprezo. Por conseguinte, o trabalho é assumido como um elemento de valorização que denota um posicionamento perante si e a comunidade; enfim, ele é entendido enquanto marcador de estatuto social e enquanto atributo essencial à dignidade humana.
Dentre as estratégias constituindo factores socioculturais dignos de apreço e de menção que garantiram a sobrevivência dos povos angolanos, face à violência da agressão colonial, há que sublinhar a rápida reorganização da sociedade e das suas estruturas globais na passagem “da economia da recolha e da caça, à economia das caravanas comerciais e desta à economia agrícola de subsistência e desta à agricultura comercial”
A partir deste ponto de vista, mais uma vez, vamos fazer uma breve alusão ao conceito de cultura; o vocábulo latino ‘cultura’ está de raiz ligado ao verbo ‘cultivar’ que, em termos fenomenológicos, indica as acções, designadamente as produtivas, que o homem empreende para enfrentar os desafios que a própria vida, quer dizer, a sua pura reprodução material e imaterial, coloca. Pois que a natureza, a terra mais exactamente, era por excelência o objecto sobre o qual ditas actividades se exerciam, não nos pode admirar que, em fases mais avançadas do devir angolano, a agri-cultura se haja convertido numa das modalidades primordiais da nossa existência e de tudo que ela pressupunha. Deste modo, como metáfora, a cultura, agora independente do «agru», (latim para campo) aparece enquanto figura do espírito para designar aquele tipo de obra e os seus frutos que, no seio de todos os seres vivos circundantes, nos distinguem deles e nos perfazem na nossa qualidade de humanos. Algumas definições de cultura, em especial as de cunho decididamente humanista de origem religiosa ou secular que, não querendo abdicar de uma vertente teleológica no percurso da realização do homem, ressaltam a urgência da afirmação da sua dignidade e do seu bem-estar físico e psíquico.
Também na esteira do que temos estado a expor, as noções de trabalho, senão de produção, e de propriedade, evidenciam-se aqui como elementos de cultura que vale aflorar. E, de facto, muitos especialistas têm se debruçado sobre o conceito de “propriedade”, sobretudo em termos de “propriedade privada”, como aquilo que se possui de próprio e, isto se, nos ativermos à proveniência etimológica da palavra. Já que tratamos de diversidade cultural, vamos, então, ver como é que culturalmente se concebem o “trabalho e a propriedade”. Para tal, importa referirmo-nos, inicialmente, ao que dizia Julius Nyerere, ex-Presidente da Tanzânia, citado por Justine BEYARAAZA, no seu texto «Le Concept de “Propriété” dans les Cultures Africaines», : - “Um homem não pode ter direito à vida se não tiver direito aos meios para manter a vida”. Neste contexto, os meios são apresentados no sentido mais amplo possível, ou seja, enquanto instrumentos tangíveis e intangíveis inerentes à realidade humana, portanto, aqueles que asseguram e condicionam a reprodução do homem. E isto, tanto no seu papel vital no quadro produção em si, quanto num mais geral, das suas interacções societais.
Torna-se evidente que, em relação à propriedade, persistem certos aspectos comuns a praticamente todas as culturas, o que, apesar da sua enorme e enriquecedora diversidade, as leva a tomar a terra como “a fonte de toda a propriedade” .

Sem destoar dessa lógica universal, as sociedades tradicionais africanas crêem que “a terra constitui a forma de propriedade mais preciosa.” .
No seu livro “Problems of African Development”, T.R.Betton declara que “em África, é possível encontrar certas ideias tradicionais concernentes à terra que são comuns a quase todas as sociedades tribais”, e, desta forma, o autor nos conduz à terra como factor fundamental de produção.

Justiça na óptica cultural
A justiça equivale a uma componente maior da nossa existência, enquanto seres e actores sociais, por conseguinte, imersos por completo em ambiente cultural, que se revela primordial, que nos ajuda a criar configurações de organização básica de comunidade que favoreçam níveis aceitáveis de convivência cívica. Por esse motivo, a  justiça não é uma ideia abstracta e sim algo de muito concreto . Na verdade, ela  permite-nos compreender onde se situa uma das raízes principais da cultura, pois consoante a opinião de alguns, esta consiste na síntese de todos os valores positivos que se encontram no homem.  
Não será descabido inferir do que se afirmou antes, que se nós não nos empenhamos activamente na superação dos nossos limites individuais e em prol do aperfeiçoamento dos grupos sociais onde nos inserimos, dificilmente nos poderemos olhar como pessoas ética e espiritualmente amadurecidas .

CULTURA E DESENVOLVIMENTO HUMANITÁRIO
‘Gaudium et Spes’, declara que “a cultura deve tender ao desenvolvimento integral da pessoa humana, ao bem da comunidade e do género humano na sua plenitude (…) uma profunda transmissão está em curso actualmente na humanidade; uma transformação na mentalidade, na sensibilidade, nas situações concretas. Trata-se de mutações que tocam todos os aspectos da vida humana: a vida social, a vida económica, a vida política, e que também se referem tanto ao domínio intelectual como ao moral e religioso. Noutros termos, trata-se de uma verdadeira transformação cultural da humanidade de hoje. Tais mutações provocam profundos desequilíbrios na humanidade: desequilíbrios entre pobres e ricos, entre o Norte e o Sul, entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos”.

CULTURA COMUNITÁRIA E PARTICIPAÇÃO
Prosseguindo, esse documento da Igreja Católica esclarece que : - “A cultura de uma comunidade é a expressão de escolhas de cada um e dos valores comuns. Ela se transforma portanto, em proposta de participação e de diálogo interpessoal e intercomunitário. Hoje, muitos povos descobrem o sentido da sua identidade cultural, como base para uma relação particular no diálogo mundial entre as nações.
A participação do homem na vida da sociedade se transforma em expressão cultural, na medida em que ele (homem) encontra espaços para comunicar aos outros os seus valores e para participar dos valores de outros.”  
Em resumo, “existe, no mundo, uma pluralidade de culturas que todos devem respeitar. O respeito da dignidade pessoal dos homens e dos povos compreende o dever de respeitar as respectivas culturas”.

IDEIAS-FORÇA DA CONCEPÇÃO DA VIDA
Alguns pesquisadores identificaram como património comum da cultura africana bantu, a força vital e o conceito do tempo.
No seu estudo sobre a filosofia bantu, Tempels  defende que:
1. Na concepção africana do mundo, há uma força vital que está presente em cada pessoa e em cada coisa;
2. Esta força vital é o centro ou a essência do ser e da existência;
3. A força vital no homem e nas coisas pode ser reforçada ou enfraquecida (debilitada);
4. As forças do universo têm entre si uma interacção; um ser influencia o outro, a existência dum ser (por exemplo o homem) no universo depende da sua relação com outros seres ou coisas;
5. As forças no universo interagem uma com a outra de forma hierárquica, quer dizer do mais alto ao mais baixo;
6. Esta hierarquia é fundada na idade (tempo);
7. A criação é considerada como um evento que tem ao centro o homem; em cima dele, os seres sobrenaturais e em baixo dele, os seres menores;
8. Os mortos (os ancestrais) continuam vivos e podem reforçar ou diminuir a força vital dos viventes.
[Para uma síntese do estudo de Tempels; cfr T.Groenewegen et R.Githige, cit.p.116-117]
 “Para suscitar e fazer crescer a vida e por ela a «força vital» que é considerada a base de toda a filosofia africana” , John Mbiti sustenta que a chave da interpretação da filosofia africana é o conceito do tempo. Façamos uma síntese dos pontos-chave da sua tese:
1. O tempo, como conceito numérico (calendário) não tem uma grande importância para os africanos; o que conta são os acontecimentos que se realizam na vida;
2. O tempo tem duas dimensões: o passado (Zamini) e o presente (Sasa). O futuro é praticamente muito curto, próximo do presente ;
3. O conceito africano do tempo vai no sentido reverso mais para Zamini do que para frente. Apercebe-se mais do passado em relação ao que poderá ainda acontecer ;
4. Sasa e Zamini se sobrepõem, no sentido em que Sasa contém em si uma parte do Zamini. Assim, um homem que morre entra no Zamini, mas se os seus entes queridos se recordam dele, ele continua a fazer parte da família e fica no Sasa. Somente quando for esquecido completamente é que fica todo ele no Zamini ;
5. Uma vez que o tempo marcha recuando, ele não influencia o futuro.
[Para uma síntese do estudo de Mbiti; cfr T.Groenewegen et R.Githige, cit.p.116-117]
Esta abordagem faz-nos compreender a grande importância que o africano confere ao passado, pois, “o segredo da vida encontra-se na santidade da atitude e do comportamento dos ancestrais”.  Desta maneira, “os seres humanos devem, antes de tudo, viver em harmonia entre eles, com os outros seres animados e com toda a criação inanimada. Se o africano tradicional considera a harmonia como primeiro dever e princípio de ordem moral, isto não significa que as pessoas e os outros membros da criação perdem a sua liberdade. De facto, a harmonia vem em primeira instância, ela é o primeiro factor e a condição da liberdade, ela não existe para impedi-la mas para faze-la crescer e reforçá-la” .
Para Bujo, isto não implica que os Africanos fiquem fixos no passado sem interesse no futuro. Pelo contrário, o recurso aos ancestrais para beneficiarem de alguns dos seus privilégios, transforma-se em “fonte de vida para as gerações futuras” .

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