A Propósito da Cultura e da sua Diversidade IV – Relações entre diversas culturas e pluralismo cultural

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Este é um aspecto que caracteriza sobretudo a nossa época que se designa a "Era Moderna", de acordo com uma ideia de periodização histórica entretanto reconhecida universalmente.

A Propósito da Cultura e da sua Diversidade IV – Relações entre diversas culturas e pluralismo cultural
A Propósito da Cultura e da sua Diversidade IV – Relações entre diversas culturas e pluralismo cultural

 (Aliás, hoje, muitos analistas referem-se já ao tempo actual como o do «Pós-Modernismo»). “As condições de vida do homem moderno … foram profundamente transformadas … e assim prepara-se pouco a pouco um tipo de civilização mais universal, uma cultura humana que faz avançar a unidade do género humano na medida em que respeita as particularidades de cada cultura (…). A pessoa é um ser de comunhão … ela desenvolve-se dando e recebendo. É portanto na solidariedade com os outros e através de laços sociais activos que a pessoa progride. Também a cultura, que é sempre uma cultura concreta e particular, está aberta aos valores superiores comuns a todos os homens. A originalidade de uma cultura não significa uma retracção cultural mas uma contribuição à uma riqueza que é um bem para todos os homens(....) O pluralismo cultural não deve ser interpretado como uma justaposição de universos fechados, mas como a partilha concreta de realidades, todas orientadas para os valores universais da humanidade.(....) Frequentes ao longo da História, os fenómenos de recíproca compenetração cultural, ilustram esta abertura fundamental das culturas particulares sobre os valores comuns a todos os homens e por isso uma abertura entre elas” .

Interdependência cultural
“Existe uma relação necessária de mútua dependência entre as diversas culturas na medida em que é justamente no âmbito da relação que cada cultura pode se desenvolver e atingir a sua plena realização” .
Em Angola e em particular no Reino do Congo, contrariamente ao que se esperava da aliança cultural entre portugueses e angolanos, entrou o pesadelo do tráfico de homens e da escravatura que se deixou sobretudo orientar pelo lema assaz ambíguo da “cruz e da espada”. Aparentemente, esse princípio foi motivo suficiente para justificar o imperialismo colonial que se traduziu na vontade de “converter os gentios” e de “civilizá-los” mediante a assimilação total pelos autóctones dos usos e costumes dos recém-chegados. No entanto, “os primeiros símbolos do que parecia ser um encontro positivo de culturas ressalta-(se) a primeira troca de dons entre Diogo Cão e o então rei de Mbanza Kongo (Nzinga a Nkuvu). Essa troca poderia ser vista hoje como sinal da primeira interdependência em termos de uma cooperação que deveria privilegiar seja os africanos seja os recém-chegados. Dentre os símbolos mais elevados desse intercâmbio conta-se já nessa data o envio dos primeiros angolanos para Portugal com o fim de se cultivarem na intelectualidade e nas tecnologias de desenvolvimento e do conhecimento dos elementos éticos que constituem a religião dos recém-chegados, uma religião que falava do amor e da justiça social” .
A cultura de socialização de certos povos angolanos transmite-lhes “uma grande capacidade de adaptação e de convivência com os povos vizinhos” . Porém, perante a boa convivência entre os povos angolanos, “os colonizadores levantaram ondas de ódio étnicos colocando os angolanos uns contra os outros” .
Se o pós-independência foi marcado em Angola por rios de sangue, há apesar disso um conjunto de elementos sócio-culturais “em parte, antigos; em parte, contemporâneos; alguns estão em vias de desaparecimento, enquanto que outros persistem ou se renovam sob novas formas de expressão sócio-culturais de um povo que luta desesperadamente pela própria existência passando os próprios valores sócio-culturais de uma geração a uma outra” .

GLOBALIZAÇÃO E CULTURA
Em abordagem cultural, a globalização é vista como um fenómeno complexo que suscita grande debate levando, por vezes, a posições imbuídas de dualidade maniqueísta de aceitação ou de recusa absolutas, embora alguns relevem precisamente a ambivalência de processos que contêm em simultâneo aspectos positivos e negativos. A veemência deve-se ao facto de a globalização e a cultura serem fenómenos intrínsecos ao desenvolvimento e à sobrevivência de uma humanidade caracterizada por contradições que a fragmentam.
De facto, “tudo depende da capacidade de um povo em criar mecanismos de sobrevivência perante as ameaças da globalização e perante as oportunidades que a mesma globalização oferece nos termos de tirar partido da interacção sócio-cultural e da interdependência económica com outros povos e nações.”
“Em quinhentos anos de colonização (…) Angola perdeu uma boa parte da fina-flor da sua riqueza humana como dentre outras, consequências da assimilação de culturas com o fim de cancelar ou aglutinar as culturas autóctones e modificar o equilíbrio e a composição étnica do povo angolano” .
Devemos, em todo o caso, chegar à conclusão de que “todas as riquezas dos povos – e sobretudo as riquezas espirituais e culturais – são um bem para toda a humanidade e devem ser acolhidas em tudo quanto são de positivo . E, por esses motivos, elas constituem também uma responsabilidade cujas dimensões ética e até estética não devem nunca ser descuradas, visto o desaparecimento do dom da variedade que elas representam equivaler a uma perda irreparável para todos os homens e não apenas para os atingidos. Por isso mesmo, surge a necessidade de recuperar elementos culturais ameaçados. Eles são respostas, frequentemente únicas, aos desafios que a vida na terra coloca aos homens. Tal variedade cultural, pela riqueza que lhe é inerente, “é muito importante e ... abre-nos ao diálogo com todos” “os seres humanos e com “todos os seus valores e, em primeiro lugar os valores das suas culturas que os realizam enquanto homens. ”Então, “a cultura de cada povo deve ser salvaguardada, como algo de precioso”.
Hoje no nosso país, confrontámo-nos com a dramática memória de um passado recente que assume a forma de uma ameaça ao equilíbrio da sociedade em todos os elementos que a compõem. E a ameaça é redobrada pelos desequilíbrios que a guerra aumentou e que nos obrigam, no presente, a conviver, de um lado, com todos os matizes da miséria e da desgraça humanas e, do outro, com o consumismo e a ostentação desenfreados. Se tal dicotomia constitui um problema interno, ela reflecte, para além disso, uma assimetria mundial que em nada beneficia a desequilibrada ordem local e a solução das imensas dificuldades que ela acarreta. Realmente, pelos excessos que ele fomenta, o processo da globalização sócio-económica acaba até por acentuar as múltiplas e cruas injustiças de natureza moral que nos assolam, como por exemplo, a falta de leis exequíveis para a protecção das minorias étnicas ou para a de aplicação dos direitos humanos fundamentais que são sistemática e estruturalmente violados.
E, como conclui um estudioso angolano, “o mundo já experimentou as consequências amargas desse fenómeno que levou ao empobrecimento do Planeta Terra (…). Infelizmente Angola constitui nesse capítulo um exemplo triste dessa dramática experiência.”

Defesa, protecção e preservação
As culturas nacionais precisam de ser defendidas pois, “o fracasso da protecção das culturas autóctones tem como consequência a ameaça do desaparecimento de inteiros grupos humanos ou a perda irreversível de inteiros grupos étnicos com toda a sua civilização e com toda a sua bagagem sócio-cultural. Eis aqui um argumento suficiente para fundamentar uma visão da problemática cultural voltada para a preservação do próprio ambiente, numa abordagem multidimensional e multisectorial, considerada agora numa perspectiva de educação, ou seja de consciencialização do homem, a fim de que este se assuma proactivamente enquanto participe e actor fundamentais para a viabilização da sobrevivência das culturas nacionais e nacionalizadas.
Isto porque “em quinhentos anos de colonialismo, Angola não só não cresceu significativamente em volume de população, mas também perdeu uma boa parte da fina-flor da sua riqueza humana como consequência da escravatura, dos trabalhos forçados, das guerras de ocupação colonial, das guerras civis alimentadas a partir de fora, dos interesses económicos e políticos inconfessos, assim como da assimilação de culturas com o fim de cancelar ou aglutinar as culturas autóctones e modificar o equilíbrio e a composição étnica do povo Angolano. Ou, então, porque “entre os primeiros símbolos daquilo que inicialmente parecia ser um encontro positivo de culturas ressalta a primeira troca de dons, entre Diogo Cão e o então Rei de Mbanza-Kongo (Nzinga a Nkuwu). Essa troca poderia ser hoje vista como sinal da primeira interdependência em termos de uma cooperação que deveria privilegiar seja os africanos seja os recém-chegados” .

Fraquezas e potencialidades
das culturas africanas
“Os elementos que demarcaram a fraqueza ou a robustez das culturas africanas, no momento em que estas entraram em contacto com as culturas dos seus colonizadores são definidos simultaneamente em termos qualitativos e quantitativos ou seja de maiores ou menores meios sociais e políticos para defender os próprios valores sócio-culturais como por exemplo a escrita e de menor disponibilidade de meios económicos e tecnológicos como por exemplo armas de fogo para contrabalançar o avanço bélico dos invasores e evitar a sua predominação e permanência no território.”
A análise dos elementos supracitados faz-nos lembrar de novo a necessidade da defesa e da preservação da identidade cultural, perante influências sócio-culturais internas ou externas que induzam ao conflito e à dissolução de determinados valores ou normas que há muito respeitamos. Assim, em termos qualitativos, encontramos nos povos da Angola tradicional, um brio “na preservação da sua cultura, nomeadamente a conservação da língua, usos, costumes e tradições que mantiveram vivos ao longo de 500 anos da colonização e que procuram defender e transmitir de geração em geração graças a instituições de convivência entre si e com outros povos e de protecção social”. Na verdade, os angolanos “conseguiram promover meios de produção económica, nomeadamente a agricultura e o comércio, para extirpar a fome e a nudez e construíram abrigos para se defender da invasão externa e para enfrentar agressividade da natureza que se manifestava através dos ventos, das cheias e chuvas torrenciais e as secas, por fim criaram uma avançada medicina homeopátiva criando técnicas de tratamento e medicamentos para enfrentar epidemias e doenças infectivas” .

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