A Propósito da Cultura e da sua Diversidade v – Papel da palavra na cultura das tradições africanas

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Do ponto de vista linguístico, diversidade é multiplicidade ou dissemelhança, portanto, o oposto de identidade, mas, do ponto de vista filosófico, não poderemos falar de diversidade sem nos referirmos e nos elevarmos à identidade cultural.

A Propósito da Cultura e da sua Diversidade v – Papel da palavra na cultura das tradições africanas
Bessangana Fotografia: Paulino Damião

 Linguagem e palavra
Com efeito, é na diversidade cultural que encontramos os valores e os princípios estruturantes de cada cultura e o ego cultural, todos tomados nos seus aspectos que permitem a convivência entre culturas diversas, enfim, mostram a riqueza dos muitos factores que perfazem a identidade nacional. Em perspectiva diferente ainda que complementar, a linguagem do corpo, enquanto realidade privilegiada que dá conta da organização do mundo e se situa no centro da sabedoria autóctone, manifesta a “magia” ou a “mística” daquele inefável que exprime qualquer coisa como uma subjectividade específica de cada cultura africana.

“Em África, onde a tradição é essencialmente oral, a palavra é um meio poderoso e vital de comunicação e de socialização, o que requer um estudo mais profundo. A linguagem em si é já um meio de conhecimento e de sabedoria, ela reflecte a vida e como a vida em si, compreende um lado perceptível e um lado oculto, misterioso e espiritual. A assimilação da língua materna (pelas crianças) serve de iniciação e introdução à experiência da (…) comunidade, às realidades da vida ordinária dum lado e do outro ao mundo do além, dos espíritos e dos ancestrais1” A materialização destes elementos constitutivos da tradição efectua-se através do recurso a histórias, advinhas, máximas e provérbios, etc.

Poder da Palavra
na Cultura Comunicativa

A palavra humana, mesmo se a um nível inferior, é uma realidade dotada de um poder que se exterioriza claramente por intermédio de pronunciamentos solenes, bênçãos ou maldições, contratos, promessas e em outros procedimentos usados para o estabelecimento de relações humanas. Em princípio, a palavra do rei é mais potente do que a de um homem-comum, mas também um cidadão comum, desde que as circunstâncias o propiciem, pode possuir um poder temível. Em suma, a palavra representa a potencialidade, tão variada, da transmissão da mensagem.
Nas tradições orais, características de todos as culturas autóctones dos povos africanos, “a palavra contém em si um aspecto dinâmico, porque o seu objectivo é a transmissão de uma mensagem que passa de um sujeito a outro e deste à comunidade (…). A palavra transmite informações úteis ao viver, códigos de vida ou códigos sociais que regulam os costumes dos indivíduos e da comunidade, que estatuem os relacionamentos na família e as responsabilidades sociais. De facto a capacidade de falar foi dada ao homem, dotado de inteligência e razão e esta é o instrumento por excelência que ele possui para se fazer entender e para revelar os seus pensamentos, intenções, necessidades e desejos 2 (…)” .

De acordo com M.Magnolfi, professora numa universidade da África do Sul, cada palavra contém não somente um significado mas também uma energia. Através da palavra pronunciada passa a totalidade do ser de quem a pronuncia. “Aquele que dirige uma palavra a um outro cria alguma coisa da própria alma naquela do outro3” .
“A palavra possui um duplo valor néotico e dinâmico4. De um lado, ela é expressão dos pensamentos, das intenções, dos projectos e das decisões que levamos a cabo; ela torna o discurso inteligível e, portanto, aferido para a comunicação; ela ilumina o significado dos acontecimentos dando um nome às pessoas e às coisas, porque o nome é a realidade enquanto algo perceptível e compreensível. E5, do outro lado, a palavra é uma força activa, uma potência que realiza aquilo que significa6”.
Portanto, a palavra liberta energia e a sua eficácia é tanto maior quanto mais potente ou inspirada é a pessoa que a pronuncia. A palavra é, em si mesma, fonte de revelação pois, ninguém fala sem se mostrar a si mesmo e ao outro.

Linguagem, Língua,
Comunicação

A comunicação em todas as suas formas verbais, não verbais, audiovisuais, multimédia, etc., representa um elemento central na vida humana. Viver é comunicar. Não se pode não comunicar. Esta afirmação inscreve-se na prospectiva dos símbolos que constituem uma linguagem muito utilizada em Angola e na África em geral, onde tudo tende a se converter em sinal, porque tudo termina por visar a comunicação. A troca das mensagens entre pessoas se baseia em símbolos orais ou gestuais. Por sua vez, esta simbolização aparece plasmada nos provérbios, nas danças, nos ritos, nos cantos, na música… em tudo aquilo que nos permite dizer, reproduzindo os ensinamentos da semiótica, que na cultura o mundo pode ser interpretado e representado por meio de um sistema de sinais e de símbolos.
Infelizmente, o peso semântico destas ideias destaca o impacto da linguagem simbólica na comunicação cultural que dá a impressão de começar a perder a amplitude que tinha antigamente. Porém, o que importa, hoje, é descobrir, no contexto da herança cultural, aquilo que continua valido e apropriar-se da parte ainda utilizável. Na linguagem, tanto a falada como a escrita, o uso dos provérbios é frequente. As TIC’s permitem conservar este património cultural (provérbios, danças, lendas...).

Da palavra oral à escrita

A escrita, como qualquer outro meio de registro de uma obra, inclui-se actualmente na cultura das tradições orais. Embora pareça uma incongruência, essa transferência constitui já um facto consumado. “Os estudiosos concordam hoje com a afirmação de que este processo de colocar por escrito as tradições orais e os oráculos proféticos aconteceu lentamente7” . Podemos também constatar que tal facto ocorre muito raramente, contudo, ele acontece pela necessidade de ordenar e de completar o material espalhado através da organização de várias colectâneas que, em sucessivas relações, vão dar origem à história escrita dos povos africanos. E é de aproveitar o momento para realçar a urgência da compreensão de uma história cujo decurso marcou indelevelmente as nossas vidas.
A palavra escrita reveste-se de um carácter de perenidade que, por relativa que ela seja, perdura por um período de tempo que tende para a eternidade. Para manter o seu dinamismo “exige sempre uma actualização e aplicação às novas situações da história com uma constante e repetida leitura que é já em si mesma, um aprofundamento8” .
“As palavras não têm o objectivo de agir somente como imperativos, mas com expressão de uma realidade íntima ao coração do homem9” . Diz-se que “a palavra está muito perto de ti, é na tua boca e no teu coração, para que tu a coloques em prática” (Dt. 30, 11-14). É assim que os planos de políticas públicas, discursos dos dirigentes, etc., são palavras que apelam para a necessidade do seu cumprimento e da sua avaliação.
Há uma estreita interacção entre a palavra pronunciada e a versão escrita desta palavra que a torna duradoura porque a fixa para sempre para o proveito das gerações futuras. Portanto, neste caso, tal palavra mantém a dinâmica inicial e manifesta, também, um dinamismo irresistível que interpela o homem de diversas épocas.
Este dinamismo reside nas qualidades instrumentais que a palavra possui enquanto meio de transmissão de mensagens que lhe oferece a faculdade de comunicar. “Esta comunicação actua-se dentro de uma compreensão que é fruto de experiência e quer conduzir a uma experiência10” . As palavras exigem “uma resposta de obediência e justamente esta fidelidade concreta determina o desenvolvimento da história11” .
Na comunicação entre os homens, o simples acto de emitir palavras denota um modo privilegiado de relacionamento A palavra nunca se resume a um mero som vazio porque ele comporta em si uma intencionalidade, um conteúdo e visa um alvo. Como resultado, a palavra revela a pessoa que fala e incide sobre aquela que a escuta. Uma prova convincente do que acabou de se dizer persiste nos provérbios que são uma modalidade exemplar de exteriorizar as tradições africanas.

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