A Propósito da Cultura e da sua Diversidade VI – A EDUCAÇÃO NO ÂMBITO CULTURAL

Envie este artigo por email

A educação, no processo cultural, corresponde à "passagem da relação mãe-criança à relação do recém-nascido ou da criança com os outros membros da família, tias, tios, irmãos, irmãs, meio-irmãos, pais, avos…"

 

A Propósito da Cultura e da sua Diversidade VI – A EDUCAÇÃO NO ÂMBITO CULTURAL
Escultura de António Ole Fotografia: Escultura de António Ole

1 . Essa relação é a base da que se desenvolverá mais tarde no meio comunitário. “Um outro traço comum cultural é a prática da iniciação à qual se submete todo o jovem”2 . Numa outra vertente, segundo as Escrituras Sagradas, “a educação tem as suas raízes da sabedoria dos ancestrais”.
Numa visão cultural, a abordagem à educação requer uma sensibilidade capaz de respeitar e valorizar os conhecimentos de vária ordem, a ampla gama de atitudes e as múltiplas práticas que distinguem os diferentes povos. Unicamente tal postura assegura o tipo de diálogo sincero e constante que favorece a concretização da unidade na diversidade cultural, pois que, na sociedade contemporânea, a educação reclama um potencial de interacção que para ser adequada tem que estar atenta às mais distintas formas de alteridade.

Conceito de Educação na Visão Cultural
Neste contexto, pode-se definir a educação como a “transmissão das maneiras de fazer e de pensar, dos princípios morais e racionais, considerados como válidos por um grupo humano e a sua cultura, que serão imprimidos na constituição psico-fisiológica original do indivíduo”3 . A educação está intrinsecamente ligada à cultura que marca o meio em que está imersa a criança e ela consiste, em grande parte, na transferência da cultura de uma geração à outra. “Isto é particularmente importante na África tradicional onde a cultura, mais do que um conjunto de princípios morais e racionais, é, antes de tudo, uma maneira de viver”4 , a própria existência. Há particularidades culturais distinguindo muitos grupos e povos africanos ou desta origem de um lado e do outro do oceano. Elas constituem um vasto e rico espaço cultural que contém muitos traços comuns a praticamente todos os habitantes África Subsariana que urge capitalizar através da sua salvaguarda e da sua difusão.
De princípio, recorde-se que “o fundamento da cultura e da sabedoria africanas é claramente a natureza espiritual e toda a forma de orientar e de conceber a educação apoia-se sobre este elemento essencial”5 . No entanto, nenhuma cultura é perfeita e também nenhuma atingiu o ponto final da sua evolução porque esta “deve tender sempre para a construção de uma sociedade mais humana”6 . Assim, nenhum povo tem o direito “de negar ou de esquecer os valores profundos, as sementes da sabedoria”7 que lhe garantiram a vida e a sua condução até agora e, que, ao contrário do que tantas vezes se passou, precisam por isso de ser retidos e desenvolvidos para o seu próprio bem e para o benefício do resto da humanidade. Realmente, no quadro da interacção cultural, esses traços e valores nos parecem demasiado significativos para que sejam preteridos.

Valores Fundamentais e Objectivos da Educação no Contexto Cultural

Como proposta, para o domínio cultural podem ser preservados alguns valores éticos e morais de base e alguns principais fins da educação :
• “A vida e a pessoa, a comunidade e o mundo no seu todo, como princípios fundamentais;
• A aquisição da sabedoria, o auto-domínio e a integração da pessoa na vida da comunidade;
• A continuação da linhagem e a ligação vital com os ancestrais;
• As boas relações humanas como base da via social;
• As relações harmoniosas com a natureza e com Deus” 8
Pode-se, deste modo, concluir que a grande finalidade da educação consiste em integrar esses valores e princípios gerais na vida da pessoa humana de acordo com a sensibilidade de cada comunidade. É, nesse sentido, que “em geral o fim da educação em África é de reforçar e de assegurar uma boa direcção ao aspecto interior da pessoa humana”9.
Do homem, exige-se um esforço constante de aperfeiçoamento e, é óbvio, que tal melhoria se insere, para além da dimensão moral que não deixa de ter uma faceta cultural, num quadro de cultura.

Pedagogia Ritual, Comunitária
A África tradicional praticava o que Pierre Erny (na sua obra sobre a educação em África10 ) designa “Pedagogia Ritual”, algo habitual nas comunidades africanas, inclusive nas angolanas. Entretanto, para a abordagem actual, releva-se útil chamar “pedagogia ritual, comunitária”, dizendo respeito a “uma pedagogia e uma educação que integram continuamente os valores da pessoa e da comunidade na vida humana com o apoio da comunidade e ajuda do mundo ancestral”11 . Assim, podemos destrinçar esta perspectiva em três campos, nomeadamente, o comunitário, o ritual e o pedagógico:
Comunitário. A comunidade tradicional, identificada como “comunidade de vida”, exemplifica, enquanto tal, a unidade e a identidade da existência, porque ela é a pedra angular que sustenta materialmente e imaterialmente a vida e tudo aquilo que a simboliza como representação12. “É a comunidade dos viventes que está autorizada a transmitir a tradição de uma geração a outra e garantir essa transmissão. É a comunidade (família, clã, tribo) que é confiada à educação dos seus membros13.”
Nesta sequência, em muitas sociedades comunitárias, o nascimento de uma criança compreende, pelo menos duas fases, ou seja, “o nascimento biológico e o nascimento comunitário14” . Com efeito, a comunidade é o verdadeiro lugar do nascimento, por assim dizer, ela equivale a um viveiro societário;
Ritual. Os ritos celebrados pela comunidade actualizam e cimentam continuamente o laço (ligação) com as forças espirituais, divinas do outro mundo de onde provém o ser humano. Eles ocupam um lugar importante na educação tradicional para ajudar o ser humano a crescer, amadurecer e traduzir esta educação numa sucessão de papéis e de estatutos ao longo da vida do indivíduo. (…) Portanto, os ritos indicam a direcção e a finalidade do crescimento e da educação15” .
Pedagogia. Na introdução ao livro de Erny, Gerald Wanjohi dá indicações úteis no que tange à pedagogia tradicional africana, mencionando três momentos: a observação, a imitação e a explicação. Depois, o autor enfatiza o facto de que, procedendo desta maneira, a pedagogia tradicional «faz da criança um participe activo na aprendizagem, desejoso de aprender» e conclui que, neste caso, o que a criança aprende é concreto, real e a toca pessoalmente e salienta também «que não convém dizer que se educa uma criança para a vida e pela vida mas que ainda melhor a educação é a própria vida16.» Em conformidade com esses preceitos, a criança deve ser guiada e corrigida mas no momento oportuno e de uma maneira adequada à sua idade.
Sob um ângulo cultural, o processo educativo, em sentido lato e na sua dimensão institucional e específica, manifesta-se através da socialização que é não só inerente à génese social da comunidade e dos seus membros enquanto indivíduos, como “é também essencial no plano ontológico para a pessoa humana17” .
As comunidades tradicionais, entendidas como “estruturas sociais ensinam e favorecem, de uma certa forma, as relações harmoniosas, a igualdade, a coesão e a fraternidade que são valores essenciais da sociedade africana18” .
Em suma, “a mensagem essencial deixada pela educação tradicional é que a vida tem um sentido, uma direcção e um valor único e sagrado e nela o indivíduo tem um papel a jogar, um estatuto a assumir19”

ESBOÇO DE CONCLUSÃO
O objectivo do tema foi de tratar da diversidade cultural mas no sentido de que nela há unidade:
- O nosso objectivo foi de demonstrar e de inventariar assuntos, factos da cultura africana que de uma ou de outra forma influenciam e tem a ver com a nossa maneira de ser e de estar;
- Então, a cultura é um todo de cada um de nós. Cada ser humano é uma totalidade cultural, ou seja, é uma identidade que na diversidade se une e se fabrica em constantes configurações, singulares e colectivas, de interacção;
- Nisto, urge respeitar a totalidade de cada um, relevando sempre os aspectos positivos que representam os factores que, na diversidade, permitem a unificação. Todavia, isto não nos inibe de chamar a atenção para os aspectos negativos que devem ser corrigidos;
- Procuramos, ao falar de cultura, não ignorar o mau, porém de alguma maneira enfatizá-lo pelo reverso, referindo-nos ao bom, patente naqueles aspectos que se mostram recomendáveis e até indispensáveis para instigar a inter-relação na diversidade e, por conseguinte, fomentar a aceitação da diferença e a coexistência e a coabitação cultural entre identidade e alteridade como elementos do mesmo nacional;
- A reflexão, que levamos a cabo acerca do presente tema, tem por objectivo sensibilizar o leitor para uma visão global das transformações que o sistema de vida, incluindo a organização social e económica, operaram na cultura tradicional e não só nela, como ainda recordar os valores e as marcas essenciais ao sustento da vida como um todo.
Resumindo, precisamos de reforçar, na sociedade angolana, as tradições e os elementos de modernidade que nos são comuns, especialmente no que concerne ao seu fundamento material e imaterial, seja ele político, económico, social ou cultural, a fim de conseguirmos organizar as bases de uma esperança de continuidade e de bem-estar para os povos angolanos, enquanto unidades singulares e como colectivo nacional. Isto, até porque apenas um presente, provido de algum desafogo material e de justiça, incentiva simultaneamente um olhar positivo, embora esclarecido, sobre o passado e aguardar o futuro sem grandes temores.
Luanda, 2010

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos