A propósito dos 438 anos da cidade de Luanda

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Uma retrato antigo da cidade de Luanda

Luanda é das mais antigas cidades do nosso país, já foi no passado, avaliada como uma das mais belas urbanizações do nosso continente e, não é por acaso que ela foi eleita, ainda no contexto da colonização portuguesa, para capital, ou seja, o centro político, administrativo, económico e religioso da então colónia de Angola,

Segundo a tradição historiográfica, será à sombra da Fortaleza de São Miguel que se ergueram as primeiras construções. Com o tempo, o perímetro urbano veio a expandir-se em torno de uma faixa estreita do planalto até à área do actual Hospital Josina Machel (local do antigo Convento de São José), passando a denominar-se "Cidade Alta", enquanto, na parte baixa, veio a desenvolver-se a "Cidade Baixa" com incremento desde o sopé do morro daquela fortaleza até à Ermida da Nazaré. Posteriormente, e no seu interior, esta área foi se estendendo até ao Convento dos Carmelitas, de que resta a Igreja do Carmo.

Na "Cidade Alta" e na "Cidade Baixa", foram com efeito, construídas as mais antigas edificações, os mais notáveis palácios e os sobrados que se tornaram nos ícones principais da arquitectura histórica da cidade.

Luanda foi elevada à categoria de cidade em 1605. O desenvolvimento do comércio de exportação, principalmente de escravos (do século XVI até ao XIX), embora também de marfim, cera, urzela, café e depois o petróleo a partir dos anos 60 do século passado, foram factores determinantes para o crescimento da população e da cidade.

As construções mais notáveis desses tempos acabaram por desaparecer, uns devido à acção do tempo e outros em virtude dos vários atentados, que vão desde a sua destruição pura e simples, até a incorporação de materiais inadequados ou maquilhagens desnecessárias que provocaram profundas transformações na paisagem básica da cidade.

A construção de novas edificações, sobretudo, à charneira dos anos 50 acontecia paralela à destruição das primeiras edificações da cidade. Acabaram por desaparecer, dentre outros, a "Casa dos Contos", "Casa dos Lencastres", "Casa dos Bispos", "Casa do Catonho-tonho", as antigas igrejas de "Santo António dos Capuchos", "do Rosários dos Pretos", São João", e ainda um conjunto notável de construções, sobretudo os sobrados dos séculos XVII e XVIII que acolhiam as casas comerciais dizimados para projectar o edifício sede do actual Banco de Poupança e Crédito.

Mais recentemente acabaram ainda por desaparecer vários outros conjuntos arquitectónicos de referências para a história e evolução urbanas da cidade. Referimo-nos à Rua do Sol, Rua Manuel Augusto dos Santos e ainda o majestoso Palácio de Dona Ana Joaquina, do século XVIII e a descaracterização da Rua dos Mercadores, Largo do Pelourino, etc, etc.

A Zona Histórica de Luanda

A importância da preservação do núcleo da cidade, motivou o tombamento de uma Zona Histórica que compreendia não somente as antigas construções mas também os primitivos eixos de acesso ao casco urbano.

Ela é composta, no âmbito da arquitectura, urbanismo e paisagismo, por 123 bens tombados como Património Histórico e Cultural, dentre os quais edificações religiosas, militares e civis, sítios históricos, zonas históricas e conjuntos urbanos.

É interessante colocar como parênteses que, a cidade de Luanda, nasceu sob o signo do comércio, tendo em conta a importância da sua actividade portuária para o processo de escoamento dos escravos e produtos trazidos do interior eram daí mandados para destinos vários.

O desenvolvimento da actividade mercantil deu origem ao estabelecimento, na Cidade Baixa, das grandes firmas e armazéns que fizeram prosperar a urbe luandense. As primeiras construções com caracter definitivo eram marcadas pelo cunho dessa actividade predominante. As construções dessa época histórica possuíam, regra geral, um rés-do-chão que era ocupado para fins comerciais ou o armazenamento de produtos, um andar superior que se destinava à habitação dos proprietários e empregados e os seus quintalões que serviam para concentração dos escravos.

A cidade e a actividade mercantil possuíam um sistema defensivo constituído, por várias fortalezas construídas em locais estratégicos. Dessas restam ainda hoje três: as fortalezas de São Miguel, São Francisco (Penedo) e São Pedro da Barra, construídas entres os séculos XVI e XIX.

O desenvolvimento urbano da cidade, foi também, acompanhado da construção de vários templos que são resultantes do processo de materialização da ocupação do território e da colonização portuguesa em Angola. As mais antigas e notáveis, são sobretudo as dos séculos XVII e XVIII. Mas ainda outras há de séculos mais recentes (séculos XIX e XX). Algumas dentre as mais antigas desapareceram, salvo a torre da antiga Sé Catedral, na "Cidade Alta", onde hoje funcionam os serviços de meteorologia e que data do século XVI.

Luanda, conservou até muito recentemente as características ou a configuração de uma cidade de origem colonial e de influência essencialmente comercial. Por isso, se juntam às fortalezas e as Igrejas as outras edificações que deram, ao longo dos tempos, vida à cidade.

Essas construções (militares, religiosas e civis) são no seu conjunto, os testemunhos eloquentes da trajectória ou história por ela vivida.

Contudo, o valor patrimonial que se pode atribuir à Luanda além de agregar esses conjuntos de bens de valor histórico, arquitectónico, urbanístico, antiguidade, uso, arqueológico, remete-nos para outros valores de ordem literária, legendária, toponímica, geológica, biológica e inclusivamente, ecológica.

A Sedução pelo Povo

Apesar de ter sido definida uma Zona Histórica (que em nosso entender deveria estar sob protecção total...) e além terem sido tombados vários monumentos e sítios pela cidade, a sedução pelo novo ou moderno faz com que a cidade seja objecto de transformações urbanas.

É assim que em nome do progresso a generalidade das cidades do nosso país e Luanda em particular, têm crescido através de demolições de autênticos documentos históricos acumulados através dos tempos. Conclusão, os monumentos, símbolos da nossa história, desaparecem a cada dia, enquanto o vandalismo e o desrespeito aos mesmos aumentam.

Os monumentos e os locais de memória deveriam ter um significado enorme para uma cidade como Luanda que conta com pouco menos de cinco séculos de existência. A menos que tenhamos vergonha da idade que a cidade tem.

Será bom entender que quando abordamos a questão da preservação da Zona Histórica ou Centro Histórico, não partimos do princípio de um acto de "congelamento" da imagem antiga, mas sim saber manter a imagem real, viva e, inclusivamente, integrada à contemporaneidade. Nada impede que o velho conviva com o novo. É preciso sim, entendermos que a preservação não tem apenas um sentido referencial, mas também possui um sentido basicamente didáctico, na medida em que ela procura sinalizar e perpectuar, para a população actual e vindoura, os momentos históricos importantes vividos nos distintos períodos e contextos da cidade!

Por isso, o estado físico dos monumentos não pode continuar a servir de justificação aos pretensos propósitos de embelezamento citadino e de melhoria da qualidade de vida dos seus cidadãos.
Causa, de facto, constrangimento verificar que em pleno século XXI, haja ainda gente que, simples e deliberadamente ignora ou então não é capaz de entender que os monumentos devem ser preservados e valorizados.

Precisamos evidentemente, encontrar uma forma capaz de fazer conviver esse património com a modernidade e com as transformações naturais da cidade. Ao preservá-lo estaremos também a incrementar a qualidade de vida da população.

O que se verifica na prática é que essa teoria do modernismo e da qualidade de vida aparece, amiúde, usada com alguma imprecisão conceptual, ou mesmo confundida unívoca e semanticamente quanto ao seu real significado.

A DESTRUIÇÃO DESENFREADA

O modernismo é frequentemente confundido com novas construções, imóveis em escala ampliada, etc, etc… porém, muito dessas novas construções não têm sequer aproximação ao verdadeiro conceito de arquitectura.

Simplesmente, o gosto do vilão da modernidade acaba quase sempre na imitação acaba por mistificar ou esconder a idade que a cidade carrega consigo; e como o dissemos antes, é como se disso nos envergonhássemos!

O resultado da antipatia do homem moderno com relação a composição e idade da cidade é quase trágico: perdem-se as memórias de infância e as memórias das populações relativamente aos lugares onde nasceram e cresceram.

Não temos dúvidas que há necessidade de se promover a melhoria da qualidade de vida da população. E isto até já soa a chavão! Porém, a qualidade de vida não é garantida apenas por um conjunto de bens artificiais. Esta é também, inerente a um conjunto de valores e bens que temos a obrigação de preservar e o direito a desfrutar. Está implícito, deste modo, um conjunto de obrigações materiais e éticas a que estamos obrigados e, de onde destacamos neste específico âmbito o respeito pelos lugares de memória e pela identidade colectiva dos cidadãos.

Que futuro para a zona histórica de Luanda

Apesar da destruição desenfreada do património, Luanda pode ainda oferecer, quer na "Cidade Alta" quer na "Cidade Baixa", um número razoável de edificações cujo valor histórico, arquitectónico, paisagístico, ou simplesmente pela sua antiguidade.

É esse património que pode ainda projectar a cidade de Luanda a um lugar ímpar nesta região geográfica, justamente porque atesta a sua antiguidade em relação as demais cidades.

Estamos de acordo que nem todos os imóveis têm valor histórico ou arquitectónico e haja intrusão de construções, grande parte, de períodos bem mais recentes e sem qualquer interesse no contexto da Zona Histórica; Mas, ainda é possível preservarmos os que restam, por constituírem elementos de identidade e de valorização da cidade e, que são determinantes à atracção turística.

Conclusão: já é tempo de deixarmos de tratar o património imóvel da cidade de Luanda com a leveza e distancialismo de outrora e de olhar, admirar e exaltar sempre o que é de fora (como se o que está fora tem o que é bom) e, como se o que aqui se encontra é que não é desejável, nem viável.

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