À quarta-feira Cabinda se veste de tradição

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Dispersa entre árvores, mulher de corpo quente, Cabinda convida os novos filhos de Angola a não terem medo dos seus mistérios, da sua imperdível kizaca misturada com feijão ou da fama de que vende feitiço na praça.

O detalhe do pano na cabeça à maneira de Cabinda

Terra do sábio e irreverente Mayombe, testemunha viva do engajamento cultural que se manifestou pelo dia 8 de Janeiro ­ Dia da Cultura Nacional, que este ano fechou ao som do semba novíssimo de Edy Tussa, com destaque para os registos "Amor a mwangolé", "Margarida"e "Nzenze".

Por telefone, marcamos entrevista com Euclides da Dalomba, director provincial da Cultura, que reconheceu que a realização do acto central do Dia da Cultura Nacional permitiu mostrar o "essencial do mosaico cultural cabindense e dar um verdadeiro banho de cultura".

Quanto às perceptivas da província, salientou sobretudo o reconhecimento nacional de alguns monumentos que poderão passar a Património Nacional devido à carga histórica nesta região, como são os casos do cemitério dos nobres, das casas de construção holandesa e dos locais de embarque e concentração de escravos e outros ainda por se classificar.

"Penso também que este banho de cultura permitiu que convencêssemos a ministra a criar uma orquestra de corda e garantir a capacitação de centros culturais municipais, projectos que já estão a ser pensados há uma década e que agora se mostram mais concretos", acrescentou.

Estes bens culturais exigem a gestão dos mesmos, o que possivelmente obrigará a contratar músicos nacionais e estrangeiros quetenham sensibilidade para os instrumentos de corda. "O que existe na verdade é um certo conhecimento da igreja kimbaquista no que toca ao uso dos instrumentos de sopro e violinos de corda, e salvo algumas excepções agora quando já conseguimos integrar um profissional estrangeiro que toque clarinete ou saxofone ou outro instrumento dessa linha", esclareceu o director da Cultura.

A música em fiote

Segundo pudemos apurar, até nos espaços mais urbanos de Cabinda a música cantada em fiote tem uma adesão muito mais significativa do que em qualquer outra língua. O público canta com o músico.

"Nós temos esse cuidado, e às vezes temos chamado a atenção do nosso ministério que quase sempre recorre aos músicos de Luanda nas suas saídas internacionais, quando quem faz a música autóctone são aqueles que estão no interior, e Cabinda, embora com muita influência da música dos países circunvizinhos, acaba sempre por defender um estilo muito próprio e uma proposta coesa no mosaico cultural angolano da dança e música que são muito bem aceites na língua local", comentou Euclides, que também avançou que, afinal, Cabinda irá acolher o palco das vozes femininas do "FENACULT", por possuir vozes do género que acabam sempre por marcar a diferença naquilo que é a arte de bem cantar e também pela sua incisiva presença nos lugares de destaque do VARIANTE.

Mas as novidades sobre a música não findaram. Por outro lado, continuou o director, "já pensamos seriamente na implementação de um festival de música tradicional (Kintueni), tanto que no ano passado aconteceu timidamente uma amostra que nos anos que vêm poderá ser desenvolvida. A amostra não reuniu os atributos que todo um festival implica, faltando também um pouco de publicidade à dimensão nacional". Danças

Questionamos o plano geral da dança e quais as variações que têm suscitado maior intervenção. Esclareceu que, em termos de dança, falta sobretudo passar para o conhecimento científico; diferenciar o profissional do amador e dar privilégio à criação de tendências tradicionais no meio académico artístico, embora isso acabe por se reflectir em todas as artes.

Levantou o caso da imitação liberal dos Bakama, um triste episódio que o próprio conta: "Foi na abertura do mundial de hóquei em patins que alguém teve a ousadia de imitar os Bakama. Mas isso é muito grave. Os Bakama têm um ritual de elevado secretismo, que exige que eles não possam viajar ou cruzar rios ou lagos. São pessoas muito delimitadas na região de Cabinda, tendo os do Tchizu, Sussu, Povo Grande e Ngoyo".

O director acredita que situações dessas acontecem por haver pessoas que não têm o conhecimento cultural do comportamento dos Bakama ou de outras entidades em questão, que não podem ser desassociadas da sua estrutura social. Felizmente, o desfecho foi cordial. Os Bakama exigiram que as pessoas que cometeram esta falta tivessem que se deslocar até Cabinda para pedir desculpas à sociedade cabindense.

Em geral, enumera Euclides, são mais ou menos 27 variações de dança, e muitas delas relacionadas com o canto, embora Cabinda tenha a matchatcha, kintueni, libondo, mayeye, sunsa como as mais destacadas.

Além da falta do conhecimento científico, aponta a prevalência de condições transculturais como uma das causas do problema da falta de projecção de algumas variações consideradas menos representativas e do exagero de outras consideradas muito recorrentes, como é o caso do kintueni.

"Hoje o kintueni acaba por assumir grande influência na representatividade do carnaval, em que às vezes temos 12 grupos desta variação e 3 ou quatro de mayeye, que timidamente vai se mantendo. Mas nós temos consciência dessa realidade, e estamos a lutar para que tenhamos ainda vivas as outras variações da província", assegura.

Entretanto, o nosso entrevistado é dos que defendem a união na diversidade e reconhece que a solução deve ser aplicada a partir das gerações mais novas, visto que a influência e semelhança entre grupos é cada vez mais notória.

"Ontem por exemplo, ao vermos os Bismas das Acácias de Benguela vimos alguns traços semelhantes ao libondo de Belize. Se o ministério pretender fazer alguma transformação, teremos de começar da base e exigir que os especialistas estejam muito atentos à leitura antropológica das variações. E conseguir escolas de formação, porque a juventude começa a ser muito eclética e faz facilmente as suas amizades, gostos e ídolos", alerta.

O dia do traje tradicional

Há um dia da semana em que todos os alunos do sistema de ensino vão à escola vestidos à maneira tradicional de Cabinda.
Euclides conta que a ideia surgiu quando já era visível o quão difícil se tornava para algumas pessoas o uso do pano. Tudo começou numa escola aonde era o director, já há mais ou menos 12 anos.

Juntamente com um grupo de jovens e professores deste PUNIV, concordaram que às quartas-feiras fosse obrigatório o uso do traje tradicional de Cabinda. Um pouco depois as escolas missionárias também aderiram. Hoje toda Cabinda à quarta-feira se veste rigorosamente à maneira tradicional.

"Não posso dizer que sou o protagonista, mas estou umbilicalmente ligado a esta iniciativa. É um desafio que seria bom propor a nível do país, porque o que nos aproxima e nos une em África são mesmo os usos e costumes. Se outros países africanos acabam por manter uma cultura forte, nós também podemos intervir com alguma estrutura legal, a exemplo do próximo e vizinho Congo Democrático que voltou a emergir culturalmente a partir dos anos 60", aponta.Segundo ainda o director, que tomou como exemplo uma das práticas casamenteiras mais aplaudidas da província: o tchicumbi, a casa de tinta que algumas províncias chamam apenas por alembamento , de um tempo a esta parte muita coisa foi se desvirtuando.
"Antes era tacula, agora é com o pó branco e já não rapam os cabelos.

A moça, antes era completamente pura (virgem). Hoje já não é bem assim. Tudo ficou apenas reduzido ao simbolismo", confronta.

Artes Plásticas

No plano das artes plásticas, Euclides adiantou que os artistas plásticos são os que têm gozado de uma condição especial, beneficiando para já de alguns apoios, isto também porque a grande meta é a requalificação do sector.

"Criámos um local onde eles pudessem expor, embora eles acabem por vulgarizar as suas obras como quem vende qualquer produto no mercado. E não era esse o objectivo. Os preços praticados também não foram de acordo à realidade económica dos habitantes.

Demos um espaço para que eles funcionassem como associação e conseguimos um espaço aonde eles conseguissem comercializar as suas obras dentro do Malongo, e isto já faz anos", enumerou.

Também adiantou para breve um espaço que será mobilado, sendo que reconhecem que há bons artistas que trabalham com a madeira. Outra grande preocupação levantada é a de que muitos deles são do Zaire ou do Congo Democrático, que chegam a fazer as suas oficinas nas terras do Mayombe.

Mas, sustenta que agora é preciso ter criatividade.

Também pretendem arranjar espaço no centro de Simulambuco, para que se tenha um roteiro turístico-cultural a funcionar.

Os artistas plásticos apontaram a dificuldade de vendas como a que mais os "incomoda". Têm muita madeira e as peças dependem muito da coragem e da madeira a desbravar. Levantaram a maka de haver gente que pensa que a feitoria de peças artesanais tem alguma coisa ligada à feitiçaria ou magia oculta. Pensam que as estátuas têm vida. Pedem aos filhos para não comprarem. Pensam que as pessoas vão ficar estátuas. É preciso desmistificar e impor a função económica da arte.

Domingas Sumbu, a estilista

Domingas Sumbu, a linda mulher que defende a moda africana há já treze anos, foi uma das artistas aí encontradas. É estilista de roupa africana e dona da boutique "Mima África".

Compra os panos no Benim, Senegal e Costa do Marfim. Foi a cabindense que nos ensinou que o tecido bazé, oriundo do Senegal, é o mais solicitado e que o samakaka é entre os nacionais o que também chama muito a atenção dos seus clientes. O conjunto de dois panos à moda de Cabinda é uma das representações que exercita em toda a sua trajectória.

Lembra que a sua mãe contava que as mulheres não se imaginavam de calça. Era sempre de pano, principalmente quando o casal prestava uma visita aos sogros. Fazia parte do feitio da mulher de Cabinda. Domingas defende ser necessário que os maridos tomem um pouco do seu poder de influência para ajudarem as esposas a serem livremente africanas.

A estilista acredita que a noção de beleza não é uma coisa estática, mas que depende muito dos parâmetros da época. Um pouco contrário ao que acontece com a tradição, um conceito e prática que não pode ser abalado, mas apenas ser tomado como base de qualquer tendência contemporânea por surgir.

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