À quarta-feira Cabinda se veste de tradição

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Dispersa entre árvores, mulher de corpo quente, Cabinda convida os novos filhos de Angola a não terem medo dos seus mistérios, da sua imperdível kizaca misturada com feijão ou da fama de que vende feitiço na praça.

O detalhe do pano na cabeça à maneira de Cabinda
Danças

Questionamos o plano geral da dança e quais as variações que têm suscitado maior intervenção. Esclareceu que, em termos de dança, falta sobretudo passar para o conhecimento científico; diferenciar o profissional do amador e dar privilégio à criação de tendências tradicionais no meio académico artístico, embora isso acabe por se reflectir em todas as artes.

Levantou o caso da imitação liberal dos Bakama, um triste episódio que o próprio conta: "Foi na abertura do mundial de hóquei em patins que alguém teve a ousadia de imitar os Bakama. Mas isso é muito grave. Os Bakama têm um ritual de elevado secretismo, que exige que eles não possam viajar ou cruzar rios ou lagos. São pessoas muito delimitadas na região de Cabinda, tendo os do Tchizu, Sussu, Povo Grande e Ngoyo".

O director acredita que situações dessas acontecem por haver pessoas que não têm o conhecimento cultural do comportamento dos Bakama ou de outras entidades em questão, que não podem ser desassociadas da sua estrutura social. Felizmente, o desfecho foi cordial. Os Bakama exigiram que as pessoas que cometeram esta falta tivessem que se deslocar até Cabinda para pedir desculpas à sociedade cabindense.

Em geral, enumera Euclides, são mais ou menos 27 variações de dança, e muitas delas relacionadas com o canto, embora Cabinda tenha a matchatcha, kintueni, libondo, mayeye, sunsa como as mais destacadas.

Além da falta do conhecimento científico, aponta a prevalência de condições transculturais como uma das causas do problema da falta de projecção de algumas variações consideradas menos representativas e do exagero de outras consideradas muito recorrentes, como é o caso do kintueni.

"Hoje o kintueni acaba por assumir grande influência na representatividade do carnaval, em que às vezes temos 12 grupos desta variação e 3 ou quatro de mayeye, que timidamente vai se mantendo. Mas nós temos consciência dessa realidade, e estamos a lutar para que tenhamos ainda vivas as outras variações da província", assegura.

Entretanto, o nosso entrevistado é dos que defendem a união na diversidade e reconhece que a solução deve ser aplicada a partir das gerações mais novas, visto que a influência e semelhança entre grupos é cada vez mais notória.

"Ontem por exemplo, ao vermos os Bismas das Acácias de Benguela vimos alguns traços semelhantes ao libondo de Belize. Se o ministério pretender fazer alguma transformação, teremos de começar da base e exigir que os especialistas estejam muito atentos à leitura antropológica das variações. E conseguir escolas de formação, porque a juventude começa a ser muito eclética e faz facilmente as suas amizades, gostos e ídolos", alerta.

O dia do traje tradicional

Há um dia da semana em que todos os alunos do sistema de ensino vão à escola vestidos à maneira tradicional de Cabinda.
Euclides conta que a ideia surgiu quando já era visível o quão difícil se tornava para algumas pessoas o uso do pano. Tudo começou numa escola aonde era o director, já há mais ou menos 12 anos.

Juntamente com um grupo de jovens e professores deste PUNIV, concordaram que às quartas-feiras fosse obrigatório o uso do traje tradicional de Cabinda. Um pouco depois as escolas missionárias também aderiram. Hoje toda Cabinda à quarta-feira se veste rigorosamente à maneira tradicional.

"Não posso dizer que sou o protagonista, mas estou umbilicalmente ligado a esta iniciativa. É um desafio que seria bom propor a nível do país, porque o que nos aproxima e nos une em África são mesmo os usos e costumes. Se outros países africanos acabam por manter uma cultura forte, nós também podemos intervir com alguma estrutura legal, a exemplo do próximo e vizinho Congo Democrático que voltou a emergir culturalmente a partir dos anos 60", aponta.

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