Abertura aquém das expectativas

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O espectáculo de abertura do II Festival Nacional da Cultura, Fenacult 2014, foi algo inaudito em Angola, quiçá em África. Tratou-se de uma esplendorosa exibição de cor e luz digna dos estúdios mais criativos e inovadores de Hollywood.

Abertura aquém das expectativas
Um dos momentos de abertura do FENACUL Fotografia: Dombele Bernardo

O cenário onírico e psicadélico de luz e cor era típico do século XXI correspondente aos países mais avançados do mundo. Mas apesar das coreografias que reportavam e faziam lembrar aspectos da história e cultura do país, tudo o resto, a começar pelos figurinos, apesar de muito bem feitos e apresentados, pareceu artificial, porque não reflectiu o estado actual de realização das artes performativas angolanas.
E aí esteve o contra-senso. Sendo o espírito do Fenacult o resgate e valorização das artes e da cultura angolana, era de esperar que estas manifestações fossem apresentadas tal como elas efectivamente são, na sua nudez real e verdadeira. A primeira parte do espectáculo de abertura, encomendada a uma empresa estrangeira, foi quase ou tão impecável, que pareceu nitidamente algo descontextualizado, fora da realidade cultural angolana actual.
Esse aspecto ganhou contornos mais claros quando comparado com a segunda parte, a actuação dos músicos, com os atrasos, as faltas de sincronização e outras imperfeições muito mwangolés.
Aceitamos, previamente, a hipotética objecção de que não existem culturas puras, isoladas do contexto universal, e que a inovação é o oxigénio vital das culturas populares. Aí, então, recuamos para um tempo não muito distante, quando, e isto está fresquíssimo na memória colectiva, o grupo carnavalesco Chá de Caxinde, na sua ânsia legítima de inovação e modernização, incorporou, nos seus figurinos, aspectos importados do carnaval brasileiro. A começar pelo júri, surgiu um coro a reclamar da pureza e autenticidade do nosso carnaval, que jamais deveria vergar-se à “aculturação” fácil. A consequência imediata foi a não classificação do grupo carnavalesco Chá de Caxinde nos lugares cimeiros, e, como reacção, a sua desistência de participação nas edições subsequentes do carnaval.
Por maioria de razão, o Fenacult devia ser o repositório do estado actual da cultura e das artes angolanas, uma montra das realizações do génio criativo dos angolanos, sem enfeites importados e artificialmente universalizantes que podem ser comprados facilmente no mercado internacional da criação de sonhos.
O I Fenacult, em 1989, contou com assessoria estrangeira, nomeadamente cubana, cujos técnicos, num quadro de solidariedade internacionalista, ajudaram a montar o espectáculo de quadros humanos. Mas essa participação esteve plenamente integrada e em consonância com o estado de então de organização, produção e realização de espectáculos no país. Não teve um décimo sequer da agressiva, invasiva e ilusória performance tecnológica, comprada a peso de ouro, do espectáculo de abertura do Fenacult 2014.
A segunda parte do espectáculo de abertura no estádio 11 de Novembro, com o desfile da nata dos músicos angolanos no activo, já esteve mais dentro do espírito programático do Fenacult, com todas a imperfeições nossas, a começar pelas soluções de continuidade, os vazios de som e a mornez de alguns músicos que ainda cantam burocraticamente, esquecendo-se que ao vivo têm a obrigação de dar show, apostando no mais puro entretenimento.
Em resumo, o espectáculo de abertura do II Fenacult esteve longe de fazer esquecer o da Cidadela em 1989, indelevelmente marcado pelo regresso e as canções maravilhosas de Teta Lando. Dificilmente voltaremos a ter um músico que encarne e sintetize, ao mais alto nível de conseguimento estético, nas suas canções, as aspirações de todo um povo num determinado momento histórico.
Mas o Fenacult 2014 ainda tem muito a dar. Os colóquios, mesas redondas, espectáculos, feiras, lançamentos de livros e discos, e outras realizações, vão marcar certamente a agenda cultural do país até ao dia 30 de Setembro.

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