" Agostinho Neto e a Cultural Nacional "

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O colóquio sobre o tema “O Dr. António Agostinho Neto e a Cultura Nacional”, em alusão ao 8 de Janeiro, Dia da Cultura Nacional, que decorreu no Memorial António Agostinho Neto (MAAN), destacou as línguas nacionais como tema transversal aos diversos temas discutidos na ocasião.

O colóquio sobre o tema “O Dr. António Agostinho Neto e a Cultura Nacional”, em alusão ao 8 de Janeiro, Dia da Cultura Nacional, que decorreu no Memorial António Agostinho Neto (MAAN), destacou as línguas nacionais como tema transversal aos diversos temas discutidos na ocasião.
Convidado a abordar o tema "António Agostinho Neto e as línguas Nacionais", no segundo painel, o director-geral do Instituto de Línguas Nacionais (ILN), José Domingos Pedro, começou por lembrar que é notório nos discursos do Primeiro Presidente de Angola a preocupação com as línguas nacionais. Citando trechos de um discurso de Agostinho Neto na União dos Escritores Angolanos, em 1979, em que defendia que o ensino das línguas no ensino básico e médio, José Domingos Pedro destaca a sua preocupação não só em " identificar os problemas da cultura nacional" mas também em "apontar soluções, apresentar caminhos", o que culminou, por exemplo, com a criação, em 1978, do Instituto Nacional de Línguas, que depois passa a designar-se Instituto de Línguas Nacionais. "Há a necessidade de adoptar uma política linguística que tenha em conta a coexistência de todas as línguas. Daí o facto de o saudoso Presidente Agostinho Neto ter levantado este problema", diz José Domingos Pedro. "Se existem tantas línguas por que razão é que se terá exclusividade de uma só língua".
O também docente universitário lembrou que as línguas nacionais ainda não gozam de um estatuto próprio, por isso precisam de uma protecção jurídica que lhes permita obter maior dignidade, o que, aliás, poderá definir, claramente, o que são e que papel devem desempenhar na sociedade. Entretanto, consta que a Assembleia Nacional já aprovou em Outubro de 2011, na generalidade, a proposta de Lei do Estatuto das Línguas Nacionais, que visa regular a situação linguística nacional. O documento, ainda sem aprovação final, e que deverá brevemente estar em discussão pública, poderá permitir o aumento do número de línguas nacionais com alfabeto, pois, até ao momento, das várias faladas no país, apenas seis dispõem de alfabeto. À título de exemplo, o artigo 17.º do documento, assinala que" devem ser criadas condições, em todo o território nacional, para que a língua materna do aluno seja o meio pedagógico durante as três primeiras classes (...)". Há ainda a proposta de uso das línguas nacionais nos tribunais, na administração pública e em vários sectores da vida pública.
O escritor José Luís Mendonça, que abordou "Angolanidade e Universalidade na Poética de Agostinho Neto", no primeiro painel, elucidou a pertinência do uso das línguas nacionais em vários poemas do Primeiro Presidente de Angola, declamando-os e reforçando assim a referida preocupação do autor de "Sagrada Esperança". Questionado sobre possibilidade de ensino das línguas nacionais nas escolas, José Luís Mendonça explica que, enquanto docente da Faculdade de Ciências Sociais, nota o ensino das línguas nacionais na referida unidade da Universidade Agostinho Neto. "Mas tem pouca aderência", sublinha. "A minha opinião é que as línguas nacionais devem ser aprendidas na infância, essencialmente nas comunidades". O poeta avança que, com as autarquias, há aqui uma possibilidade para envolver os "mais velhos da comunidade". José Luís Mendonça desafia ainda as universidades a criarem licenciatura em línguas nacionais, assim como há as de línguas portuguesa, francesa e inglesa. "É importante apostar no ensino destas línguas num nível superior, e não somente como cadeiras de algum curso".
José Luís Mendonça acrescentou que, enquanto sintomatologia do estado do mundo, a obra poética de Agostinho Neto constitui um vasto poema épico angolano e universal, em verso livre, entremeado de estâncias líricas e elegíacas.
Já o sociólogo CornélioCaley, que abordou "Sagrada Esperança: o conceito", destacou os vários períodos que marcaram a intervenção de Agostinho Neto na luta contra a pobreza, a consolidação da independência nacional, a consolidação das ideias pan-africanistas, a negritude, entre outras questões. Para CornélioCaley, "Sagrada Esperança" são duas palavras que, juntas, traduzem uma mensagem infinitamente grande que nos convida a atingir um nível de felicidade, fraternidade, de igualdade ou de solidariedade na criação da nação angolana. "Os linguistas deveriam envolver-se na tradução deste livro para as principais línguas nacionais", diz o também escritor CornélioCaley, e que já foi secretário de Estado da Cultura. "A maioria do nosso povo não assimila ainda bem o discurso veiculado na língua portuguesa".
Enquanto isso, a directora do Arquivo Nacional, Alexandra Aparício, a quem coube a dissertação do tema “António Agostinho Neto e a Geração da Mensagem Na Afirmação da Identidade Angolana”, frisou que Agostinho Neto deixou um legado com uma boa parte por explorar e partilhar. Referiu-se também a uma descrição da situação da colónia de Angola da época, explicando o aparecimento do Movimento dos Jovens Intelectuais dessa Geração, que através da sua poesia contestaram e chamaram a atenção para a situação calamitosa e para o sistema colonial vigente. Um Movimento que se estendeu passando da contestação intelectual para a luta armada que conduziu à libertação de Angola do jugo colonialista e à sua independência. "Foi uma geração de literatos que acabou por se envolver em política, em virtude da inércia do colonialismo", diz a historiadora. "Esta geração influencia toda a geração de escritores subsequentes e cria raízes do que mais tarde seria a identidade nacional".
No segundo painel, além de José Domingos Pedro, tomaram a palavra Benjamim Fernando, com o "Renúncia Impossível: o conceito"; Eduardo Pérez Alberto, com o tema "O Pensamento Filosófico de Agostinho Neto sobre Angola enquanto Estado: "o mais importante é resolver os problemas do povo" e António Fonseca, com o tema "A política Cultural no Pensamento do Dr. António Agostinho Neto".
Entretanto, a criação de um espaço de debate para se repensar a cultura nacional e se traçarem novas áreas de actuação, capazes de dar sustentabilidade aos planos e metas alinhadas no Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) 2018/2022 e que definem as políticas de governação no domínio da cultura, foi defendida pela ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, na abertura do evento.
O Dia da Cultura Nacional foi instituído em 1986, devido ao discurso pronunciado pelo primeiro Presidente angolano, António Agostinho Neto, em 1979, na tomada de posse dos corpos gerentes da União dos Escritores Angolanos (UEA).

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