Agostinho Neto: formação e ideário de um intelectual orgânico africano

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Em 1981, a revista Okike (An African Journal of New Writing), publicada em Nsukka, Anambra State, sudoeste da Nigéria, sob a direção editorial de Chinua Achebe, presta uma homenagem a Agostinho Neto, dedicando-lhe o seu número 18, em que se destaca o poema escrito pelo eminente escritor nigeriano.

Num texto consagrado à descolonização da teoria e da crítica africana, publicado em 1990, na revista americana Research in African Literatures, o professor nigeriano Biodun Jeyifo considerava que os textos doutrinários de Agostinho Neto sobre a cultura nacional e a literatura podiam pertencer à categoria do «discurso literário nacionalista».

Trata-se de textos de discursos proferidos num contexto institucional, por ocasião da tomada de posse dos órgãos diretivos da União dos Escritores Angolanos.

Em Agostinho Neto, qualidades pessoais como audácia, orgulho e autoestima enquanto africano, a assunção do compromisso político e as formulações teóricas sobre a libertação e o nacionalismo traduzem o culminar de um longo processo de formação.

A avaliação de tais qualidades exige um conhecimento da genealogia do seu pensamento. O momento genealógico inicial há-de situar-se na década de 40 do século XX.

Aos efeitos socializadores dos meios de referência associa-se um programa que começa a concretizar-se a partir da publicação de dois textos de opinião em O Estandarte, jornal da Igreja Metodista, nomeadamente A Nova Ordem Começa Em Nossa Casa e A Paz Que Queremos, entre 1944 e 1945.

Uma necessidade, publicados no jornal O Farolim, em 1946, que o discurso nacionalista revela as marcas do nativismo angolano das primeiras décadas do século XX. Justifica-se, por isso, o desenvolvimento de uma abordagem que privilegie a genealogia do pensamento, no quadro mais amplo da história intelectual de Angola.

Angola nas primeiras décadas do século XX: o contexto político e social

Durante a primeira década do século XX registam-se factos políticos de relevo que produzem fortes impactos na sociedade colonial angolana. A implantação da República em Portugal, em 1910, e a aprovação do Ato Colonial, em 1930, no contexto político do Estado Novo em Portugal, darão lugar a um conjunto de reformas políticas e administrativas nos territórios coloniais, incidindo particularmente sobre o estatuto das colónias, a imprensa e a educação.

A institucionalização do ensino secundário oficial ocorreu apenas em1919 com a criação do Liceu Salvador Correia, em Luanda. Tal facto deve ser assinalado. Representa um momento de viragem na formação das elites angolanas, no âmbito de um processo que corresponderia às necessidades de uma administração moderna, ao abrigo dos valores republicanos de que decorrem o exercício efetivo de direitos e liberdades.

O surgimento de uma camada social de angolanos que se pretende afirmar como uma elite que toma consciência da situação de dominação colonial estará na origem do desenvolvimento do jornalismo e da literatura nesse período.

Portanto, o emprego e a ocupação de cargos no funcionalismo público, o associativismo, a propriedade de jornais e a escrita (literária e jornalística) constituíam quatro dos mais importantes instrumentos da defesa dos interesses angolenses que revelam bem a receção do republicanismo e das correntes estéticas e ideológicas que dominam os panoramas literários brasileiros, portugueses e europeus em geral. Estes são os vetores em que se analisa o nativismo literário angolano.

Em 1922, Catete, a sede da circunscrição civil de Icolo e Bengo, tinha acabado de ser abalada por uma Revolta Nativista Camponesa que eclodira em Fevereiro.

O pastor e professor Agostinho Pedro Neto, seu pai e um catequista Manuel André, ambos da Igreja Metodista, apoiando a revolta, eram subscritores de um abaixo-assinado, datado de 10 de Fevereiro.

O encarregado na Missão Americana em Mazozo, Sebastião Gaspar Domingos, envolvido na coleta de dinheiro destinado ao advogado, fora alertado para que se afastasse do turbilhão da revolta por ordem do bispo Robert Shields, bispo da Igreja Metodista e Diretor das Missões Americanas.

O mentor intelectual da Revolta Catete era um advogado provisionário, jornalista, escritor e dirigente de associações nativistas. Por essa razão, foi indiciado como principal arguido de um dos mais célebres processos de investigações policiais que tiveram lugar nas primeiras décadas do século XX.

Trata-se de António de Assis Júnior. Por ocasião da vaga de prisões, buscas e apreensões, motivadas pelos Acontecimentos de Catete, António de Assis Júnior, com 44 anos de idade, era director do conhecido jornal O Angolense.

Preso em Fevereiro de 1922, como arguido do processo de averiguações administrativas nº 293, é mantido em prisão durante três meses, sem culpa formada.

Quatro dias depois eram detidos os trabalhadores «indígenas» de Catete que se tinham deslocado a Luanda para apresentar reclamações ao Alto-comissário da República, assessorados por esse tribuno conhecido como «advogado dos nativos».

Negando qualquer papel de instigador e autoria de preleções de propaganda contra o governo, António de Assis Júnior reconhecia que tinha sido contactado para redigir uma exposição, através da qual os operários agrícolas «pretendiam que fossem ouvidos sobre os castigos corporais que em Catete lhes são aplicados, prisões arbitrárias que sofrem, trabalho obrigatório que executam por cinquenta e dois dias em casas particulares, retribuição de vinte centavos diários que recebem no Posto Algodoeiro, abolição do pagamento de Imposto Indígena a crianças de dez e doze anos, etc.».

Antes da deslocação dos referidos camponeses a Luanda, António de Assis Júnior, na qualidade de diretor do jornal O Angolense, tinha redigido e publicado um artigo acerca desses acontecimentos.

Sobre ele pesava então a acusação da prática de um crime de tentativa de «revolta indígena». Para que não lhe fosse imputada qualquer responsabilidade enquanto estivesse preso, apresentou dois requerimentos ao Alto-comissário de Portugal em Angola em que constrói argumentos de uma retórica de ilibação.

As atividades desenvolvidas por António de Assis Júnior, entre 1920 e 1922, permitem concluir que era o líder de um grupo numeroso. As buscas e apreensões de que tinha sido alvo, tinham permitido recolher documentos diversos, arrumados em oito volumes. As autoridades coloniais identificavam aí a existência de uma causa remota. Na verdade, a causa era bem mais antiga do que parecia.

A conclusão das averiguações instauradas em 1922, apontavam para a iminência de uma rebelião fundada numa doutrina e propaganda nativistas cujos focos de agitação se espalhavam pelas cidades e regiões mais importantes do território, tais como Benguela, Cabinda, Luanda, Malanje, Mossamedes, Ndala Tando.

Com uma rede impressionante de contactos que culminava com a publicação de jornais, entre os quais A Lunda, Angolense e A Verdade. Entre as figuras implicadas destacam-se: António de Assis Júnior (diretor de O Angolense), António Joaquim de Miranda (que se encontrava desterrado em Cabinda, antigo colaborador de A Lunda e Era Nova de Malanje), A. Figueiredo, Custódio Bento de Azevedo (Sassa, Alto Dande), Gervásio Ferreira Viana ( Ndala Tando), João Pedro de Sousa (Benguela), José Carlos Oliveira ( Mossamedes, ex-presidente da Liga Angolana), Narciso Espírito Santo (santomense, director de A Verdade), padre Manuel (Paço Episcopal em Luanda).Durante os anos 20, registam-se restrições e inibições ao exercício das liberdades como resultado da implantação da ditadura com o Estado

Novo em Portugal. É sobre este fundo marcado por um «longo silêncio» que António de Assis Júnior (1878-1960), após a publicação de Relato dos Acontecimentos de Dala Tando e Lucala (1917), uma narrativa e ao mesmo tempo um testemunho sobre a repressão de ações de reivindicação, a que se denominou revolta dos nativos, cujos atores constituíam um grupo da elite local de que ele próprio fazia parte, dá à estampa em 1934 O Segredo da Morta, o romance inaugural angolano.

Observados os traços estruturantes do pensamento e das ideias produzidas em Angola nesse período, da geração de Assis Júnior não se transita diretamente para a geração de Agostinho Neto. De resto, bastará notar a distância cronológica que separa as datas de nascimento de ambos os autores. Há pelo menos uma geração intermédia representada pelo ensaísta Lourenço Mendes da Conceição.

Natural da vila da Muxima (Kakungu), nasceu em 29 de Dezembro de 1896, tendo falecido em Luanda em 29 de Junho de 1970. Publicou: Três Mestres da Minha Predileção (Lisboa, 1948); Porque se Escreve Luanda com "U", (Luanda, O Apostolado, 1943).
1922-1930. De Kaxicane a Luanda

Agostinho Neto nasceu às cinco horas do dia 17 de Setembro de 1922 em Kaxicane, localidade da circunscrição civil de Icolo e Bengo cuja sede se encontrava situada em Catete. Nessa data o pai era pastor da chamada «Missão Americana de Luanda», tendo sido ordenado presbítero em 1925. Em 1930 a família fixa residência no Bairro Operário, em Luanda, onde seu pai assumiria a responsabilidade de chefiar o coletivo local de pastores da Igreja Metodista.

Crónica da formação e morte do pai

Os estudos primários e liceais decorrem entre 1931 e 1944. Com o jornal O Estandarte podemos elaborar uma crónica da sua formação em Angola. Na edição de 3 de Fevereiro de 1934, refere-se que tinham concluído «com brilho os seus estudos primários nos exames efetuados na Escola Primária nº7 de Sousa Coutinho, os alunos da Escola Primária Evangélica desta cidade, com as classificações seguintes: Américo de Souza, 18 valores (distinto); António Agostinho Neto, 18 valores (distinto).

Já em Janeiro de 1935, o mesmo jornal, dava conta de um outro facto. A transição para a 2ª classe do Liceu desta cidade dos «meninos Alberto Marques e António Agostinho Neto.

A estes meninos que foram felizes nos seus estudos as nossas felicitações». Os referidos alunos a que se juntava o nome de Simão Toco, no ano letivo de 1936, como testemunha O Estandarte de Março de 1936 estavam matriculados na 2ª classe do Liceu. A década de 30 chegava ao fim, quando em Fevereiro de 1939 se anuncia a realização com sucesso do exame do 1º ciclo (3º ano) do Liceu do menino António Agostinho Neto com os pais e irmãos (último em pé do lado direito) a classificação de 13 valores.

Conclui com 15 valores o Curso de Ciências do 7º ano do Liceu nos exames realizados em 1944, anuncia com orgulho O Estandarte de Fevereiro de 1944, nº 95: «Nos exames do 3º ciclo realizados em Janeiro do corrente ano, concluiu o 7º ano de Ciências com 15 valores, o nosso prezado irmão na fé, Sr. António Agostinho Neto [...]». A redação de O Estandarte de Novembro e Dezembro de 1943 (nº92/93) destaca o nome de Agostinho Neto na galeria de colaboradores permanentes: «Desde a sua fundação-1933 até 1943 teve os seguintes colaboradores: [...] colaboradores permanentes [...] António Victor de Carvalho, António Agostinho Neto [...] Domingos F. da Silva, Gaspar de Almeida». Setes meses antes da sua integração nos quadros do funcionalismo público dos serviços de saúde, o seu estado de doença fora noticiada por O Estandarte de Junho/Julho, 1944, (nº99/100): «Já se encontra felizmente melhor dos seus padecimentos o nosso prezado irmão e colaborador, sr. António Agostinho Neto».

Durante o ano de 1946, O Estandarte relata igualmente a doença, a agonia e a morte do pai de Agostinho Neto, o Reverendo Agostinho Pedro Neto. O Estandarte de Maio, 1946, nº121 escreve: «Há dois meses que o nosso prezado irmão Rev. Agostinho Pedro Neto, pastor do circuito dos Dembos, jaz no leito gravemente doente.

Os clínicos têm-no rodeado com os seus cuidados, dispondo-lhe todos os recursos do seu saber; os crentes que estão ao facto do estado desse nosso querido irmão estão orando [...]». Na edição nº 121  de Maio de 1946, lê-se: «Tivemos o prazer de abraçar a este nosso prezado irmão e apreciado colaborador, vindo de Malange, a fim de visitar o seu querido Pai, que se encontra bastante doente». Por fim a notícia da morte.

O Estandarte de Junho, 1946, nº122, escreve: «Faleceu o Rev. Agostinho Pedro Neto. Depois de um sofrimento de cerca de três meses, dormiu no Senhor, em 21 do corrente mês, na sua residência, Bairro Operário, o nosso querido irmão Rev. Agostinho Pedro Neto, Pastor do Circuito dos Dembos». O reverendo Agostinho Pedro Neto era natural de Kalomboloca. Foi pastor evangélico e professor primário em Kaxicane onde foi colocado em 1918. Em 1925 foi ordenado Presbítero.

Do funcionalismo público à atividade tribunícia

Em 1944, O Estandarte, na sua edição de Novembro/Dezembro, 1944, nº105, anunciava que Agostinho Neto iria ocupar o seu cargo no funcionalismo púbico para o qual tinha sido nomeado. E, no comboio do dia 3 de Novembro, seguira para Malange, «o nosso benquisto irmão, Sr. António A. Neto, cuja ausência sentimos, pois que além de possuir elevados dotes, foi também um assíduo colaborador do nosso jornal.

Esperamos que de Malange, continue a honrar «O Estandarte», com a mesma colaboração». No ano seguinte, na sua edição nº118 de Dezembro de 1945, O Estandarte, dava uma outra notícia: «Estando de licença disciplinar, veio passar o Natal ao seio da família, vindo de Malange, o nosso prezado irmão e amigo, António Agostinho Neto, ilustre funcionário do Quadro de Saúde, a quem tivemos o prazer de abraçar».

Meses antes seu irmão, Pedro Agostinho Neto tinha sido colocado como amanuense nos Serviços de Saúde e Higiene do Bié, como se lê em O Estandarte, Setembro/ Outubro de 1944, na edição nº104. Por sua vez Agostinho Neto seria igualmente transferido para o Bié, logo depois.
Portanto, Agostinho Neto, pertencendo à primeira geração pós-nativista angolana, inscreve-se por direito próprio na lista de legatários da tradição nativista em que perfilam ilustres tribunos e publicistas angolanos.

Contava então 23 anos de idade, quando escreveu o seu primeiro texto de pendor pós-nativista. Nas décadas de 30 e 40, frequenta os meios socializadores protestantes existentes em Luanda, designadamente, a escola da Igreja Metodista e o jornal O Estandarte.

O seu percurso escolar é narrado no referido jornal, como vimos, através de notícias a respeito dos seus êxitos escolares e outros factos como a doença e a morte do pai, entre 1934 e 1946.

Na primeira metade da década de 40, Agostinho Neto publica alguns poemas e artigos de inspiração religiosa no jornal O Estandarte. Neste mesmo jornal pontificava seu pai, publicando textos como O Segredo da Paz em 1936 e É preciso divertir a Juventude Evangélica em 1944.

Em 1940, publica O Segredo de Viver e em 1943 publica As multidões esperam em O Estandarte. De 1944 a 1959, escreve e publica artigos marcantes no âmbito da história intelectual angolana, a saber: A Nova Ordem Começa Em Casa (1944); A Paz que Esperamos (1945); Instrução ao Nativo (O Estandarte, 1945); Uma Causa Psicológica: a "Marcha para o Exterior" (1946); Uma Necessidade (1946); Da Vida Espiritual em Angola (1949, Meridiano) O Rumo da Literatura Negra (Centro de Estudos Africanos, 1951); A propósito de Keita Fodeba (Angola, Revista da Liga Africana, 1953); Introdução ao Colóquio sobre Poesia Angolana (1959).

O lugar de Malanje na consolidação dos ideais

Das gerações de nativistas já referidas, Agostinho Neto recebe o testemunho pela mão de vários dos seus protagonistas, entre os quais merece referência José Manuel da Silva Lameira. Foi em Malanje que o jovem intelectual travou conhecimento com essa lendária figura do movimento nativista angolano, sucessivamente preso e desterrado para a Guiné-Bissau, Moçambique, Macau e Timor-leste, durante mais de uma década, de 1917 a 1938.

No seu livro de memórias, Recordações Minhas, José Diogo Ventura conta que o «velho Lameira recebia na sua residência da «Kapopa», junto à Rua 15 de Agosto, muitas pessoas importantes que gostavam de o ouvir [...] Lembro-me também de uma outra pessoa porque, mais tarde, veio a ser o primeiro Presidente da República Popular de Angola. Trata-se do Dr. António Agostinho Neto, na sua passagem por Malanje, ainda como aspirante dos Serviços de Saúde e Higiene». Os textos escritos provavelmente em Malanje e enviados para publicação em 1946 no jornal O Farolim ecoam ideais tributárias de conversas com José Manuel da Silva Lameira.

É significativo o testemunho de Domingos Van-Dunem, então secretário de redação desse jornal, a respeito das circunstâncias em que recebe a visita de Agostinho Neto. Tal gesto exprimia uma reação ao comentário sarcástico relativamente às atitudes preconceituosas dos funcionários públicos formados no Liceu. Agostinho Neto que falava igualmente em nome de um amigo seu, Joffre Van-Dúnem, pretendiam «pedir explicações ao atrevido escriba».Numa entrevista que concedeu a Augusta Conchiglia, Agostinho Neto observa:
«Também em Malanje vivi uma experiência magnífica. Fiz amizade com um grupo de pessoas que, em minha opinião, não se interessavam nada por política, enquanto para mim a situação de Angola impunha essa preocupação. Mas entre em contacto com os trabalhadores, com os contratados, e foi lá que eu senti verdadeiramente e com força a violência dos reacionários portugueses. Os anos que vivi em Malanje com toda a certeza influíram muito na minha formação política».

Atividade reflexiva e ideias recorrentes

Marcado pela formação cristã e evangélica, Agostinho Neto manifesta claramente os seus ideais, nos dois primeiros textos publicados em O Estandarte, nomeadamente A Nova Ordem Começa Em Nossa Casa e A Paz Que Queremos, entre 1944 e 1945. Lança aí o seu programa intelectual e define os contornos da sua personalidade.

É com Instrução ao Nativo, um outro artigo publicado em O Estandarte também em 1945, Uma causa psicológica: A marcha para o exterior" e Uma necessidade, estes publicados no jornal O Farolim, em 1946, que o nativismo da fase inicial se revela no pensamento deste autor. Se confrontarmos as ideias recorrentes dos dois textos anteriores, observa-se uma coerência no plano da articulação.

Uma das ideias nucleares em Instrução ao Nativo consiste na denúncia da injustiça, reivindicando para os nativos a qualidade de beneficiários, pois a instrução é necessária «ao povo de rodas as regiões de Portugal». Agostinho Neto levantava aqui «o problema do aumento do nível de instrução aos naturais». Em seu entender, é visível a discriminação cuja abolição defende.

Por essa razão, observa: «À parte o desenvolvimento escolar que se vem notando nos grandes aglomerados de população europeia e o interesse posto na educação da criança branca, nada, no sentido de se instruir o natural tem sido feito».

Como exemplo de iniciativas que contribuíam para a alteração desse estado de coisas, aponta o que faziam as «Missões Religiosas», particularmente as «Missões Evangélicas» de cujas escolas «têm saído muitos dos nativos que hoje exercem funções públicas, são professores, pastores de igreja e uma boa parte da massa do operariado nativo, bem como alguns europeus».

Diante dos exemplos das igrejas que entretanto se debatiam com problemas de ordem financeira e a indiferença das autoridades do chamado «Império colonial», Agostinho Neto entendia que mais poderiam estas fazer «desde que haja verdadeiro interesse em resolver-se, ou, pelo menos em aumentar o número de possibilidades de o nativo se instruir, contratar mais professores e abrir mais escolas».
Continuando a revelar a sua qualidade de membro da igreja evangélica, sublinha o papel que a sociedade metodista podia desempenhar com o fundo projetado para beneficiar os nativos. Mas não fora consentido pelo governo colonial.

Os textos publicados em O Estandarte, poderiam eventualmente ter sido escritos pelo autor tendo exclusivamente como destinatários a comunidade metodista e evangélica, apesar de o seu teor ser de alcance mais geral. Uma Causa Psicológica: A ‘Marcha’ para o Exterior marca a sua colaboração num jornal que, na década de 40, seguia ainda as tradições do século XIX. Trata-se de um artigo publicado no jornal O Farolim em 1946.

Lido e situado no seu contexto, é um texto revelador de elevada maturidade. Com ele Agostinho Neto dá consistência a ideias anteriores.

Mas evolui, na medida em que diagnostica a falta de unidade entre «os elementos da classe nativa» que têm tendência para se isolarem uns dos outros. Palpitando em si um certo tipo de ideal, Agostinho Neto constata o perigo que espreita: «É paradoxal a desunião entre nós, nativos, que, para não citar outros aspetos do interesse comum têm que lutar coesos pela sua economia e pelo aumento do seu nível cultural.»

Do seu ponto de vista, a fraqueza da classe nativa reside na «psicologia distorcida » que se manifesta no cego seguidismo das modas entre os jovens.

Mas tal facto não é fortuito, pois «a desunião entre os nativos não é posterior à fabricação em série do rapaz moderno». Por conseguinte, a desunião é simultânea. Ao mesmo tempo que «a mulher africana moderna assimilando a inobjetividade da vida, dissemelhando-se da avozinha pacatamente crocheteante, adotando a despreocupação, o bâton, a sola de cortiça e a saia ascendente; deixou-se apenas
arrastar pelo movimento geral que transformou o homem, que (digamo-lo de passagem) é difícil ser- se rebelde! ».

A distorção da psicologia coletiva e a desunião não ocorrem ao acaso. Tem a sua causa fundamental na estrutura do ensino ministrado.

«Os nativos são educados como se tivessem nascido e residissem na Europa. Antes de atingirem a idade em que são capazes de pensar sem esteio, não conhecem Angola.

Olham a sua terra de fora para dentro e não ao invés, como seria óbvio. Estudam na escola, minuciosamente, a História e Geografia de Portugal,  enquanto que, da Colónia, apenas folheiam em sinopses ou estudam levemente».

E qual é a consequência disso? Agostinho Neto responde: «Os indivíduos assim formados têm a cabeça sobre vértebras nativas, mas o seu conteúdo escora-se em vértebras estranhas, de modo que as ideias, as expirações do espírito são estranhas à terra. Daí o olhar-se esta, a sua gente e hábitos, o mundo que os rodeia, como estranhos a si – de fora (…)» «Produz-se no nativo uma distorção na sua personalidade que se reflete na vida social, desequilibrando-a.» Semelhante atitude acaba por estar em consonância com o reducionismo ocidental e eurocêntrico: Lá fora há o hábito de depreciar quanto é nativo; e os  moços nativos cujos espíritos derivaram para o exterior e em quem está atinente um quantum de vaidade (como em qualquer ser humano) têm vergonha em considerar-se incluídos naquela esfera depreciada e não somente não a auxiliam como procuram desprezar as iniciativas de carácter puramente nativo […]

É de igual modo em Uma causa psicológica: a marcha para o exterior que lemos o seguinte trecho: A minha pouca experiência impediria que a voz chegasse ao céu se eu desse conselhos. Acho, porém, que a mezinha apropriada para anular os efeitos perniciosos bastante do eurotropismo seria começar por ‘descobrir ’ Angola aos novos, mostrá-la por meio de uma propaganda bem dirigida, para que eles, conhecendo a sua terra, os homens que a habitam, as suas possibilidades e necessidades, saibam o que é necessário fazer-se, para depois querer».

Os textos escritos por Agostinho Neto na segunda metade da década de 50, designadamente, Rumo da Literatura Negra e Introdução ao Colóquio sobre poesia Angolana, representam o registo de um pensamento enriquecido pela largura de horizontes que, superando os discursos tipicamente nativistas, não são rigorosamente negritudinistas, como parece ser o entendimento de Pires Laranjeira,
numa equívoca generalização acerca da existência da «negritude africana de língua portuguesa».

Em Introdução ao Colóquio sobre Poesia Angolana, Agostinho Neto escreve: «Entre nós, digo, em Angola e na Metrópole, defendeu-se e combateu-se este conceito». Trata-se do conceito de negritude nos termos formulados por Leopold Senghor.

No discurso proferido na Universidade de Dar-Es- Salam,em 1974, retoma esse tópico, afirmando o seguinte: «O conceito literário de negritude, nascido das correntes filosófico-literárias que fizeram a sua época, com o existencialismo e o surrealismo, pôs com acerto o problema da consciencialização cultural do homem negro no mundo, independentemente da área geográfica em que ele se dispersou.

Conjuntamente com a ideia do panafricanismo, o conceito de negritude, começou a um certo momento, a falsear o problema negro».Inscrição social de um intelectual Orgânico

No mês de Setembro de 1947, Agostinho Neto embarca para Lisboa. E no ano letivo 1947-48, era estudante de Medicina, matriculado na Universidade de Coimbra. Após a conclusão do 3º ano do Curso, em 1950, vai prosseguir os estudos em Lisboa.

É nesta cidade que sofre em 1952 a primeira das sucessivas prisões por razões de ordem política. Aos vinte e oito anos de idade, revelava uma personalidade audaz e combativa, uma forte consciência cívica e profunda fidelidade aos valores africanos, inequivocamente comprometidos com as lutas contra o fascismo e o colonialismo português.

A maturidade política alcançada vem coroar um longo processo de formação iniciado em Angola que pode ser ilustrado por vários testemunhos. Um deles é o de Mário António. Recorrendo à memória, reporta-se a uma manifestação estudantil de 1945, na ressaca da II Guerra Mundial,que percorrera a zona da cidade alta em Luanda, contando com a presençadois «ex-alunos» do Liceu Salvador Correia, «vestidos à adulta, com fatos azuis: um homem magro, já trabalhando em repartição pública». EraAgostinho Neto. O outro «atlético e sorridente». Era Américo Boavida.

Em 1951, é criado o Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola. Segundo Mário António, «o que se fazia em Luanda naturalmente ganhava corpo intelectual com a participação de ausentes, entre eles, como se verá Mário Pinto de Andrade.» Confirma-o a carta de António Jacinto a Agostinho Neto.

No mesmo ano os estudantes africanos residentes em Lisboa constituem um grupo de reflexão a que designaram Centro de Estudos Africanos de que fazem parte, entre outros, Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Mário Pinto de Andrade, o grupo de pensamento mais politizado. A última sessão do Centro realizou-se em 11 de Abril de 1954.

Referindo-se à atividade de Agostinho Neto, na sessão de 23 de Dezembro de 1951, diz Mário Pinto de Andrade: «[…] Agostinho Neto, em associação com Humberto Machado, tinha tratado as Migrações dos negros africanos, compulsivas e não compulsivas, aculturação dos negros africanos». Mário Pinto de Andrade faz igualmente alusão a outros textos de Agostinho Neto, tais como Rumo da Literatura Negra, uma crítica consagrada ao romance Uanga de Óscar Ribas, em que se debruça sobre a noção de ambaquista, além de traduções de poemas de Senghor.

Quanto às influências desse grupo, Mário Pinto de Andrade destaca os escritores negros americanos (Countee Cullen, Langston Hughes, Richard Wright), poetas Antilhanos, Aimé Césaire, o cubano Nicolás Guillén, Batouala de René Maran . Entre as leituras de referência há que reter o nome de Keita Fodéba cuja peça «Mestre-Escola» foi encenada pelo Centro de Estudos. E dele fala Agostinho Neto num artigo de 1953, publicado na revista Angola da Liga Nacional Africana.

No dizer de Mário Pinto de Andrade, é «no Centro de Estudos Africanos que nasce a primeira ideia de criação de um grupo político baseado naqueles que estavam mais empenhados». Mais adiante, acrescenta: «[…] Éramos portanto Amílcar, Neto, Noémia de Sousa e Alda do Espírito Santo. Mas esta organização tinha um nome particular». Entretanto o Centro começa a desintegrar-se em 1953. Nesse ano participa no Festival Mundial da Juventude Democrática e no III Congresso Mundial dos Estudantes, realizados em Bucareste e Varsóvia, respetivamente.

A criação do Clube Marítimo Africano, em 1954, é uma iniciativa de estudantes e trabalhadores embarcadiços africanos, entre os quais se destaca Agostinho Neto que abandonara Coimbra, passando a residir em Lisboa como estudante da Faculdade de Medicina. As relações de sociabilidade com as classes trabalhadoras estão no centro das suas preocupações, tendo fixado residência no bairro da Graça, onde habitavam os operários marítimos africanos.

Até ao fim da década de 50, a trajetória biográfica de Agostinho Neto permitia já identificá-lo como um homem de letras, irremediavelmente comprometido com a luta anticolonial e afirmação da cultura africana. A categorização sociológica como intelectual orgânico decorre desse perfil dominado pelas ideias, vinculando-o a atividades que desafiam diretamente o poder colonial, tais como a participação em redes de organizações políticas portuguesas como o MUD-Juvenil.

O prestígio intelectual de Agostinho Neto aumenta progressivamente. Noémia de Sousa, relata que após a sua primeira prisão realizaram-se muitas reuniões, «uma série de gente» queria vê-lo, exceto o Francisco José Tenreiro.

O seu ativismo político e as deias que o suportam permitem reconhecer que foi o primeiro intelectual orgânico e público da sua geração, tendo sido alvo de sucessivas prisões da política portuguesa, desde 1951. Em 1955, viria a ser condenado a dezoito meses de prisão pelo tribunal do Porto. Cumprida a pena, em 1957, já em liberdade, retoma os estudos. Obtém o grau de licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1958. Regressa a Angola no ano seguinte, após especialização em Medicina Tropical.

Abre o consultório médico em Luanda e envolve-se na atividade política clandestina. Após a sua eleição, em 1960, como líder do MPLA, no interior de Angola, volta a ser preso e deportado para Cabo-Verde, em trânsito por Bissau e Lisboa. Desencadeia-se uma campanha internacional para a sua libertação na qual participam intelectuais europeus como Jean-Paul Sartre. Transferido para a cadeia do Aljube em 1962, passa depois ao regime de residência fixa. Em 30 de Junho de 1962, concretiza-se a sua fuga de Portugal. Um ano depois, é eleito Presidente do MPLA em Kinshasa.

O ideário da libertação nacional: entre o cultural e o político

Para lá das dissensões políticas que abalaram o MPLA, na década de 60 e 70, dando origem ao afastamento de Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade, à Revolta Ativa e à Revolta do Leste, Agostinho Neto não deixou de cultivar a sua paixão pelas ideias, atribuindo importantes tarefas aos intelectuais.

Em concomitância com o exercício da liderança política e enquanto chefe de Estado, desenvolve uma importante atividade reflexiva que deve suscitar o interesse de qualquer investigador da história contemporânea de Angola.

Os discursos proferidos nas Universidades de Dar-Es-Salam (Tanzânia), em 1974 e Lagos (Nigéria), em 1977, a que se juntam outros proferidos na União dos Escritores Angolanos constituem as principais referências do discurso teórico sobre a libertação, o nacionalismo e a cultura. Longe de qualquer ambiguidade, Agostinho Neto, na sua veste de Chefe de Estado, continuava a defender os ideais e liberdade e dignidade do Homem Africano, não perdendo de vista o lugar dos intelectuais nos processos de mudança social. É por isso que o professor nigeriano Biodun Jeyifo considerava que os textos doutrinários de Agostinho Neto sobre a cultura nacional e a literatura podiam pertencer à categoria do «discurso literário nacionalista».

Lamentavelmente, quando se procede ao estudo do pensamento sobre a libertação nacional em África, é raro ver o nome de Agostinho Neto inscrito no elenco de autores. Semelhante situação configura um caso de injustiça intelectual que importa reparar.

Tal pretensão é manifestada pelo professor nigeriano Olúfémi Táiwò no texto dedicado à Filosofia Política Africana no Período Pós-Independência, publicado em A Companion to African Philosophy, editado pelo professor ganense Kwasi Wiredu. Olúfémi Táiwò inclui Agostinho Neto no elenco dos marxistas africanos que se afirmam pós 1966.

Com efeito, nas suas reflexões sobre a libertação nacional, Agostinho Neto introduz uma variante na abordagem do fenómeno. Em 1974, tomando como referência o ponto de vista de Amílcar Cabral , escreve: No fundo e como vários pensadores têm afirmado, a luta de libertação nacional é uma luta pela cultura. Mas eu creio que os laços culturais não evitam de modo algum a compartimentação política». E acrescenta, mais adiante: «Este tem sido um ponto equívoco em muitas manifestações ditas de libertação nacional.

Ao pretender estabelecer claramente as fronteiras entre o cultural e o político, Agostinho Neto reafirma a sua identidade política com «a luta dos povos negros da América, lá onde se encontrem» e, ao mesmo tempo, considera que tal solidariedade deve conduzir à rejeição da «ideia de libertação negra». Por isso, conclui: «sem confundir origens com compartimentos políticos, a América é América, a África é África». Operando no quadro do pensamento panafricanista e no estrito respeito pelas experiências vividas pelos africanos e diásporas africanas, Agostinho Neto evita a generalização. Sublinha a transversalidade da cultura, mas considera que a sua dimensão política valoriza a diferença dos contextos em que tais experiências emergem.

Apologia do debate e das ideias

A apologia do debate e das ideias é uma eloquente expressão do modo como Agostinho Neto interiorizava as tarefas do intelectual, num país que acabava de alcançar a independência política. Por essa razão, entendia que «o escritor se deve situar na sua época e exercer a sua função de formador de consciência, que seja agente ativo de um aperfeiçoamento da humanidade». Em 1979, sucessivamente, por ocasião da tomada de posse dos corpos gerentes da União dos Escritores Angolanos, realizada em Janeiro, e na sessão de encerramento da 6ª Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos, realizada em Julho, defendia o debate de ideias.

E sustentava-o nos seguintes termos: Penso que é necessário o mais alargado possível debate de ideias, o mais amplo possível movimento de investigação, dinamização e apresentação pública de todas as formas culturais existentes no País, sem quaisquer preconceitos de carácter artístico ou linguístico.

Reitera esse pensamento, quando falava aos escritores africanos e asiáticos reunidos em Luanda, afirmando: Persistir na ideia do debate é sempre acertado, porquanto os homens têm necessidade de se exprimir, para não assumir a mentalidade burocrática que rapidamente se torna caduca e não é capaz de acompanhar o desenvolvimento da sociedade humana.

Para Agostinho Neto o debate e as ideias são absolutamente  essenciais à vitalidade das dinâmicas sociais e às exigências do conhecimento mais profundo do mundo que nos circunda. Semelhante necessidade pode ser sentida apenas por aqueles que atribuem valor à incessante indagação sobre a existência humana, rompendo os condicionalismos do lugar onde se situa o homem enquanto indivíduo.

Sob os auspícios do «mais alargado possível debate de ideias» emergiu a geração das incertezas, a geração literária de 80. Num ambiente pouco fecundo do ponto de vista intelectual, a Brigada Jovem de Literatura de Luanda e outras Brigadas que lhe seguiram as pegadas em algumas províncias do país, nomeadamente, Huíla e Huambo, bem como grupos literários que se constituem nessa década, procuravam dinamizar as suas atividades literárias e reflexivas em torno dessa ideia seminal.

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