Agostinho Neto: formação e ideário de um intelectual orgânico africano

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Em 1981, a revista Okike (An African Journal of New Writing), publicada em Nsukka, Anambra State, sudoeste da Nigéria, sob a direção editorial de Chinua Achebe, presta uma homenagem a Agostinho Neto, dedicando-lhe o seu número 18, em que se destaca o poema escrito pelo eminente escritor nigeriano.

Durante os anos 20, registam-se restrições e inibições ao exercício das liberdades como resultado da implantação da ditadura com o Estado

Novo em Portugal. É sobre este fundo marcado por um «longo silêncio» que António de Assis Júnior (1878-1960), após a publicação de Relato dos Acontecimentos de Dala Tando e Lucala (1917), uma narrativa e ao mesmo tempo um testemunho sobre a repressão de ações de reivindicação, a que se denominou revolta dos nativos, cujos atores constituíam um grupo da elite local de que ele próprio fazia parte, dá à estampa em 1934 O Segredo da Morta, o romance inaugural angolano.

Observados os traços estruturantes do pensamento e das ideias produzidas em Angola nesse período, da geração de Assis Júnior não se transita diretamente para a geração de Agostinho Neto. De resto, bastará notar a distância cronológica que separa as datas de nascimento de ambos os autores. Há pelo menos uma geração intermédia representada pelo ensaísta Lourenço Mendes da Conceição.

Natural da vila da Muxima (Kakungu), nasceu em 29 de Dezembro de 1896, tendo falecido em Luanda em 29 de Junho de 1970. Publicou: Três Mestres da Minha Predileção (Lisboa, 1948); Porque se Escreve Luanda com "U", (Luanda, O Apostolado, 1943).
1922-1930. De Kaxicane a Luanda

Agostinho Neto nasceu às cinco horas do dia 17 de Setembro de 1922 em Kaxicane, localidade da circunscrição civil de Icolo e Bengo cuja sede se encontrava situada em Catete. Nessa data o pai era pastor da chamada «Missão Americana de Luanda», tendo sido ordenado presbítero em 1925. Em 1930 a família fixa residência no Bairro Operário, em Luanda, onde seu pai assumiria a responsabilidade de chefiar o coletivo local de pastores da Igreja Metodista.

Crónica da formação e morte do pai

Os estudos primários e liceais decorrem entre 1931 e 1944. Com o jornal O Estandarte podemos elaborar uma crónica da sua formação em Angola. Na edição de 3 de Fevereiro de 1934, refere-se que tinham concluído «com brilho os seus estudos primários nos exames efetuados na Escola Primária nº7 de Sousa Coutinho, os alunos da Escola Primária Evangélica desta cidade, com as classificações seguintes: Américo de Souza, 18 valores (distinto); António Agostinho Neto, 18 valores (distinto).

Já em Janeiro de 1935, o mesmo jornal, dava conta de um outro facto. A transição para a 2ª classe do Liceu desta cidade dos «meninos Alberto Marques e António Agostinho Neto.

A estes meninos que foram felizes nos seus estudos as nossas felicitações». Os referidos alunos a que se juntava o nome de Simão Toco, no ano letivo de 1936, como testemunha O Estandarte de Março de 1936 estavam matriculados na 2ª classe do Liceu. A década de 30 chegava ao fim, quando em Fevereiro de 1939 se anuncia a realização com sucesso do exame do 1º ciclo (3º ano) do Liceu do menino António Agostinho Neto com os pais e irmãos (último em pé do lado direito) a classificação de 13 valores.

Conclui com 15 valores o Curso de Ciências do 7º ano do Liceu nos exames realizados em 1944, anuncia com orgulho O Estandarte de Fevereiro de 1944, nº 95: «Nos exames do 3º ciclo realizados em Janeiro do corrente ano, concluiu o 7º ano de Ciências com 15 valores, o nosso prezado irmão na fé, Sr. António Agostinho Neto [...]». A redação de O Estandarte de Novembro e Dezembro de 1943 (nº92/93) destaca o nome de Agostinho Neto na galeria de colaboradores permanentes: «Desde a sua fundação-1933 até 1943 teve os seguintes colaboradores: [...] colaboradores permanentes [...] António Victor de Carvalho, António Agostinho Neto [...] Domingos F. da Silva, Gaspar de Almeida». Setes meses antes da sua integração nos quadros do funcionalismo público dos serviços de saúde, o seu estado de doença fora noticiada por O Estandarte de Junho/Julho, 1944, (nº99/100): «Já se encontra felizmente melhor dos seus padecimentos o nosso prezado irmão e colaborador, sr. António Agostinho Neto».

Durante o ano de 1946, O Estandarte relata igualmente a doença, a agonia e a morte do pai de Agostinho Neto, o Reverendo Agostinho Pedro Neto. O Estandarte de Maio, 1946, nº121 escreve: «Há dois meses que o nosso prezado irmão Rev. Agostinho Pedro Neto, pastor do circuito dos Dembos, jaz no leito gravemente doente.

Os clínicos têm-no rodeado com os seus cuidados, dispondo-lhe todos os recursos do seu saber; os crentes que estão ao facto do estado desse nosso querido irmão estão orando [...]». Na edição nº 121  de Maio de 1946, lê-se: «Tivemos o prazer de abraçar a este nosso prezado irmão e apreciado colaborador, vindo de Malange, a fim de visitar o seu querido Pai, que se encontra bastante doente». Por fim a notícia da morte.

O Estandarte de Junho, 1946, nº122, escreve: «Faleceu o Rev. Agostinho Pedro Neto. Depois de um sofrimento de cerca de três meses, dormiu no Senhor, em 21 do corrente mês, na sua residência, Bairro Operário, o nosso querido irmão Rev. Agostinho Pedro Neto, Pastor do Circuito dos Dembos». O reverendo Agostinho Pedro Neto era natural de Kalomboloca. Foi pastor evangélico e professor primário em Kaxicane onde foi colocado em 1918. Em 1925 foi ordenado Presbítero.

Do funcionalismo público à atividade tribunícia

Em 1944, O Estandarte, na sua edição de Novembro/Dezembro, 1944, nº105, anunciava que Agostinho Neto iria ocupar o seu cargo no funcionalismo púbico para o qual tinha sido nomeado. E, no comboio do dia 3 de Novembro, seguira para Malange, «o nosso benquisto irmão, Sr. António A. Neto, cuja ausência sentimos, pois que além de possuir elevados dotes, foi também um assíduo colaborador do nosso jornal.

Esperamos que de Malange, continue a honrar «O Estandarte», com a mesma colaboração». No ano seguinte, na sua edição nº118 de Dezembro de 1945, O Estandarte, dava uma outra notícia: «Estando de licença disciplinar, veio passar o Natal ao seio da família, vindo de Malange, o nosso prezado irmão e amigo, António Agostinho Neto, ilustre funcionário do Quadro de Saúde, a quem tivemos o prazer de abraçar».

Meses antes seu irmão, Pedro Agostinho Neto tinha sido colocado como amanuense nos Serviços de Saúde e Higiene do Bié, como se lê em O Estandarte, Setembro/ Outubro de 1944, na edição nº104. Por sua vez Agostinho Neto seria igualmente transferido para o Bié, logo depois.
Portanto, Agostinho Neto, pertencendo à primeira geração pós-nativista angolana, inscreve-se por direito próprio na lista de legatários da tradição nativista em que perfilam ilustres tribunos e publicistas angolanos.

Contava então 23 anos de idade, quando escreveu o seu primeiro texto de pendor pós-nativista. Nas décadas de 30 e 40, frequenta os meios socializadores protestantes existentes em Luanda, designadamente, a escola da Igreja Metodista e o jornal O Estandarte.

O seu percurso escolar é narrado no referido jornal, como vimos, através de notícias a respeito dos seus êxitos escolares e outros factos como a doença e a morte do pai, entre 1934 e 1946.

Na primeira metade da década de 40, Agostinho Neto publica alguns poemas e artigos de inspiração religiosa no jornal O Estandarte. Neste mesmo jornal pontificava seu pai, publicando textos como O Segredo da Paz em 1936 e É preciso divertir a Juventude Evangélica em 1944.

Em 1940, publica O Segredo de Viver e em 1943 publica As multidões esperam em O Estandarte. De 1944 a 1959, escreve e publica artigos marcantes no âmbito da história intelectual angolana, a saber: A Nova Ordem Começa Em Casa (1944); A Paz que Esperamos (1945); Instrução ao Nativo (O Estandarte, 1945); Uma Causa Psicológica: a "Marcha para o Exterior" (1946); Uma Necessidade (1946); Da Vida Espiritual em Angola (1949, Meridiano) O Rumo da Literatura Negra (Centro de Estudos Africanos, 1951); A propósito de Keita Fodeba (Angola, Revista da Liga Africana, 1953); Introdução ao Colóquio sobre Poesia Angolana (1959).

O lugar de Malanje na consolidação dos ideais

Das gerações de nativistas já referidas, Agostinho Neto recebe o testemunho pela mão de vários dos seus protagonistas, entre os quais merece referência José Manuel da Silva Lameira. Foi em Malanje que o jovem intelectual travou conhecimento com essa lendária figura do movimento nativista angolano, sucessivamente preso e desterrado para a Guiné-Bissau, Moçambique, Macau e Timor-leste, durante mais de uma década, de 1917 a 1938.

No seu livro de memórias, Recordações Minhas, José Diogo Ventura conta que o «velho Lameira recebia na sua residência da «Kapopa», junto à Rua 15 de Agosto, muitas pessoas importantes que gostavam de o ouvir [...] Lembro-me também de uma outra pessoa porque, mais tarde, veio a ser o primeiro Presidente da República Popular de Angola. Trata-se do Dr. António Agostinho Neto, na sua passagem por Malanje, ainda como aspirante dos Serviços de Saúde e Higiene». Os textos escritos provavelmente em Malanje e enviados para publicação em 1946 no jornal O Farolim ecoam ideais tributárias de conversas com José Manuel da Silva Lameira.

É significativo o testemunho de Domingos Van-Dunem, então secretário de redação desse jornal, a respeito das circunstâncias em que recebe a visita de Agostinho Neto. Tal gesto exprimia uma reação ao comentário sarcástico relativamente às atitudes preconceituosas dos funcionários públicos formados no Liceu. Agostinho Neto que falava igualmente em nome de um amigo seu, Joffre Van-Dúnem, pretendiam «pedir explicações ao atrevido escriba».

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