Agostinho Neto: formação e ideário de um intelectual orgânico africano

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Em 1981, a revista Okike (An African Journal of New Writing), publicada em Nsukka, Anambra State, sudoeste da Nigéria, sob a direção editorial de Chinua Achebe, presta uma homenagem a Agostinho Neto, dedicando-lhe o seu número 18, em que se destaca o poema escrito pelo eminente escritor nigeriano.

Numa entrevista que concedeu a Augusta Conchiglia, Agostinho Neto observa:
«Também em Malanje vivi uma experiência magnífica. Fiz amizade com um grupo de pessoas que, em minha opinião, não se interessavam nada por política, enquanto para mim a situação de Angola impunha essa preocupação. Mas entre em contacto com os trabalhadores, com os contratados, e foi lá que eu senti verdadeiramente e com força a violência dos reacionários portugueses. Os anos que vivi em Malanje com toda a certeza influíram muito na minha formação política».

Atividade reflexiva e ideias recorrentes

Marcado pela formação cristã e evangélica, Agostinho Neto manifesta claramente os seus ideais, nos dois primeiros textos publicados em O Estandarte, nomeadamente A Nova Ordem Começa Em Nossa Casa e A Paz Que Queremos, entre 1944 e 1945. Lança aí o seu programa intelectual e define os contornos da sua personalidade.

É com Instrução ao Nativo, um outro artigo publicado em O Estandarte também em 1945, Uma causa psicológica: A marcha para o exterior" e Uma necessidade, estes publicados no jornal O Farolim, em 1946, que o nativismo da fase inicial se revela no pensamento deste autor. Se confrontarmos as ideias recorrentes dos dois textos anteriores, observa-se uma coerência no plano da articulação.

Uma das ideias nucleares em Instrução ao Nativo consiste na denúncia da injustiça, reivindicando para os nativos a qualidade de beneficiários, pois a instrução é necessária «ao povo de rodas as regiões de Portugal». Agostinho Neto levantava aqui «o problema do aumento do nível de instrução aos naturais». Em seu entender, é visível a discriminação cuja abolição defende.

Por essa razão, observa: «À parte o desenvolvimento escolar que se vem notando nos grandes aglomerados de população europeia e o interesse posto na educação da criança branca, nada, no sentido de se instruir o natural tem sido feito».

Como exemplo de iniciativas que contribuíam para a alteração desse estado de coisas, aponta o que faziam as «Missões Religiosas», particularmente as «Missões Evangélicas» de cujas escolas «têm saído muitos dos nativos que hoje exercem funções públicas, são professores, pastores de igreja e uma boa parte da massa do operariado nativo, bem como alguns europeus».

Diante dos exemplos das igrejas que entretanto se debatiam com problemas de ordem financeira e a indiferença das autoridades do chamado «Império colonial», Agostinho Neto entendia que mais poderiam estas fazer «desde que haja verdadeiro interesse em resolver-se, ou, pelo menos em aumentar o número de possibilidades de o nativo se instruir, contratar mais professores e abrir mais escolas».
Continuando a revelar a sua qualidade de membro da igreja evangélica, sublinha o papel que a sociedade metodista podia desempenhar com o fundo projetado para beneficiar os nativos. Mas não fora consentido pelo governo colonial.

Os textos publicados em O Estandarte, poderiam eventualmente ter sido escritos pelo autor tendo exclusivamente como destinatários a comunidade metodista e evangélica, apesar de o seu teor ser de alcance mais geral. Uma Causa Psicológica: A ‘Marcha’ para o Exterior marca a sua colaboração num jornal que, na década de 40, seguia ainda as tradições do século XIX. Trata-se de um artigo publicado no jornal O Farolim em 1946.

Lido e situado no seu contexto, é um texto revelador de elevada maturidade. Com ele Agostinho Neto dá consistência a ideias anteriores.

Mas evolui, na medida em que diagnostica a falta de unidade entre «os elementos da classe nativa» que têm tendência para se isolarem uns dos outros. Palpitando em si um certo tipo de ideal, Agostinho Neto constata o perigo que espreita: «É paradoxal a desunião entre nós, nativos, que, para não citar outros aspetos do interesse comum têm que lutar coesos pela sua economia e pelo aumento do seu nível cultural.»

Do seu ponto de vista, a fraqueza da classe nativa reside na «psicologia distorcida » que se manifesta no cego seguidismo das modas entre os jovens.

Mas tal facto não é fortuito, pois «a desunião entre os nativos não é posterior à fabricação em série do rapaz moderno». Por conseguinte, a desunião é simultânea. Ao mesmo tempo que «a mulher africana moderna assimilando a inobjetividade da vida, dissemelhando-se da avozinha pacatamente crocheteante, adotando a despreocupação, o bâton, a sola de cortiça e a saia ascendente; deixou-se apenas
arrastar pelo movimento geral que transformou o homem, que (digamo-lo de passagem) é difícil ser- se rebelde! ».

A distorção da psicologia coletiva e a desunião não ocorrem ao acaso. Tem a sua causa fundamental na estrutura do ensino ministrado.

«Os nativos são educados como se tivessem nascido e residissem na Europa. Antes de atingirem a idade em que são capazes de pensar sem esteio, não conhecem Angola.

Olham a sua terra de fora para dentro e não ao invés, como seria óbvio. Estudam na escola, minuciosamente, a História e Geografia de Portugal,  enquanto que, da Colónia, apenas folheiam em sinopses ou estudam levemente».

E qual é a consequência disso? Agostinho Neto responde: «Os indivíduos assim formados têm a cabeça sobre vértebras nativas, mas o seu conteúdo escora-se em vértebras estranhas, de modo que as ideias, as expirações do espírito são estranhas à terra. Daí o olhar-se esta, a sua gente e hábitos, o mundo que os rodeia, como estranhos a si – de fora (…)» «Produz-se no nativo uma distorção na sua personalidade que se reflete na vida social, desequilibrando-a.» Semelhante atitude acaba por estar em consonância com o reducionismo ocidental e eurocêntrico: Lá fora há o hábito de depreciar quanto é nativo; e os  moços nativos cujos espíritos derivaram para o exterior e em quem está atinente um quantum de vaidade (como em qualquer ser humano) têm vergonha em considerar-se incluídos naquela esfera depreciada e não somente não a auxiliam como procuram desprezar as iniciativas de carácter puramente nativo […]

É de igual modo em Uma causa psicológica: a marcha para o exterior que lemos o seguinte trecho: A minha pouca experiência impediria que a voz chegasse ao céu se eu desse conselhos. Acho, porém, que a mezinha apropriada para anular os efeitos perniciosos bastante do eurotropismo seria começar por ‘descobrir ’ Angola aos novos, mostrá-la por meio de uma propaganda bem dirigida, para que eles, conhecendo a sua terra, os homens que a habitam, as suas possibilidades e necessidades, saibam o que é necessário fazer-se, para depois querer».

Os textos escritos por Agostinho Neto na segunda metade da década de 50, designadamente, Rumo da Literatura Negra e Introdução ao Colóquio sobre poesia Angolana, representam o registo de um pensamento enriquecido pela largura de horizontes que, superando os discursos tipicamente nativistas, não são rigorosamente negritudinistas, como parece ser o entendimento de Pires Laranjeira,
numa equívoca generalização acerca da existência da «negritude africana de língua portuguesa».

Em Introdução ao Colóquio sobre Poesia Angolana, Agostinho Neto escreve: «Entre nós, digo, em Angola e na Metrópole, defendeu-se e combateu-se este conceito». Trata-se do conceito de negritude nos termos formulados por Leopold Senghor.

No discurso proferido na Universidade de Dar-Es- Salam,em 1974, retoma esse tópico, afirmando o seguinte: «O conceito literário de negritude, nascido das correntes filosófico-literárias que fizeram a sua época, com o existencialismo e o surrealismo, pôs com acerto o problema da consciencialização cultural do homem negro no mundo, independentemente da área geográfica em que ele se dispersou.

Conjuntamente com a ideia do panafricanismo, o conceito de negritude, começou a um certo momento, a falsear o problema negro».

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