Agostinho Neto: poeta-político e a literatura de língua portuguesa (I)

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António Agostinho Neto nasceu em 17 de Setembro de 1922. Quer isto dizer que a sua adolescência se formou quando o Professor Oliveira Salazar, ao criar o Estado Novo em Portugal, estava a realizar as premonições do Velho do Restelo, que Camões descreve nestes termos...

Agostinho Neto

"Ó gloria de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos fama
O fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama
Chamam-te ilustre, chamam-te subida
Chamam-te fama e glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana."

Essa constatação da adolescência, Agostinho Neto vai exprimi-la mais tarde, quando, em 1947, deixa Angola, para ir cursar Medicina em Portugal. Então, Agostinho Neto deixa uma carta, ou como diriam os Angolanos da sua época: uma "mukanda". Uma carta, para a sua mãe-genitora, mas também carta, para a sua mãe-pátria. ADEUS À HORA DA LARGADA

"Minha Mãe, (todas as mães negras cujos filhos partiram).
Tu me ensinaste a esperar,
Como esperaste nas horas difíceis.
Mas a vida
Matou em mim essa mística esperança.
Eu já não espero,
Sou aquele por quem se espera.
Amanhã,
Entoaremos hinos à liberdade,
Quando comemorarmos,
A data da abolição desta escravatura.

"De repente, o poeta se faz político. E não se trata, aqui, de uma visão messiânica do seu papel político. Mas, da SAGRADA ESPERANÇA dos filhos de Angola, que Agostinho Neto vai enaltecer. A passagem do singular ao plural, mostra que o projeto não é individual. Ele é coletivo. E o tema da mãe é corrente, na literatura de língua portuguesa. Escutemos, por exemplo, Fernando Pessoa:

Por te cruzarmos,
Quantas mães choraram.
Quantos filhos, em vão rezaram,
Quantas noivas ficaram por casar,
Para que fosses nosso, ó mar.

" É esse mar comum, que também é um fosso de incompreensão,
que Agostinho Neto sublinha nestes termos :
"O oceano separou-me de mim,
Enquanto me fui esquecendo nos séculos,
E, eis-me presente,
Reunindo em mim o espaço,
Condensando o tempo.
As minhas mãos colocaram pedras,
Nos alicerces do mundo.
Mereço o meu pedaço de pão."

É pois, armado com essa SAGRADA ESPERANÇA, que Agostinho Neto chega a Portugal.
Entre Lisboa e Coimbra, ele forjou o seu fado. O seu destino estava traçado. Na Casa dos Estudantes do império, o poeta faz-se cada vez mais político:

"Havemos de voltar,
às casas às nossas lavras,

Às praias
aos nossos campos,
Havemos de voltar.

À marimba e ao kissange,
ao nosso carnaval,
havemos de voltar.

Havemos de voltar,
a Angola libertada,
Angola independente."

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