Agostinho Neto: poeta-político e a literatura de língua portuguesa (II)

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O tom faz-se cada vez mais veemente, exprimindo aquilo que o poeta sente.

Agostinho Neto

Ao chegar a Portugal, Agostinho Neto compreende a necessidade da passagem do local ao universal, na contestação da opressão colonial.

Da literatura brasileira, Agostinho Neto estudara a GEO-POLÍTICA DA FOME e a GEOGRAFIA DA FOME de Josué de Castro. Também trilhara os caminhos dos CAPITÃES DA AREIA, de Jorge Amado, como do mesmo autor conhecera as alegrias tristes de GABRIELA, CRAVO e CANELA, ou o sofrimento insofismável de TERESA BAPTISTA CANSADA DE GUERRA.

Mas, foi sobretudo no Nordeste, de Graciliano Ramos, que compreendera que a sorte dos contratados de Angola não era diferente da dos homens dos outros continentes.

Porém, Agostinho Neto não adere à visão do LUSO-TROPICALISMO, tal como a expõe Gilberto Freyre. Para Agostinho Neto, o ato de colonização não se pode resumir na coabitação da Casa Grande e Sanzala. Eis, porque a poesia de Agostinho NETO, toma um cariz social.

"A quitandeira,
Que vende fruta, vende-se.
Minha Senhora,
Laranja, laranjinha boa !
Compra laranjas doces,
Compra-me também, o amargo
desta tortura,
da vida, sem vida.
compra-me a infância
de espírito este botão de rosa
que não abriu.

princípio impelido ainda para um início.
Tudo tenho dado,
até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-a aos poetas.
Agora, vendo-me eu própria.
Compra laranjas,
minha senhora.
Leva-me para as quitandas da vida.

O mesmo tema se repete em PARTIDA PARA O CONTRATO ou em CONTRATADOS.

"Longa fila de carregadores
domina a estrada.
Com os passos rápidos vão.
Olhares longínquos,
corações medrosos,
braços fortes.
Sorrisos profundos como águas profundas,
cheios de injustiças
caladas no imo das suas almas.
E cantam !"

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