Agostinho Neto: poeta-político e a literatura de língua portuguesa (III)

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Longe da sua terra, Agostinho Neto não está sozinho. A poesia está ao seu lado. Francisco José Tenreiro e Alda do Espírito Santo estavam com ele, mesmo no desterro, em São Tomé.

Agostinho Neto

Eunésimo da Silveira era o companheiro da poesia de Cabo-Verde. Mas, o exílio interroga-nos sobre a nossa própria ação. Ele interroga a nossa inação.

Como Manuel Alegre, Agostinho Neto também "pergunta ao vento que passa, notícias do seu país. E o vento cala a desgraça. O vento nada lhe diz.
" Ele vai voltar! E quando regressa a Angola, a sua constatação é amarga:

"Quando voltei,
as casuarinas tinham desaparecido da cidade.
E também tu amigo Liceu,
voz consoladora dos ritmos quentes da farra,
nas noites dos sábados infalíveis,
Também tu tinhas desaparecido.
E contigo,
os Intelectuais,
a Liga,
o Farolim,
as reuniões das Ingombotas,
" a consciência dos que traíram sem amor.

" Era o fruto da política de Salazar, de que Manuel Alegre também descreve a mesma visão:
"Quando desembarcamos no Rossio
canção
vão dizer-te que a vida não é um rio.
Vão vestir-te com grades,
que é a roupa para todas as idades,
na Pátria dos poetas,
em Rossio triste."

Desde logo, Agostinho Neto vai forjar um novo imperativo, que não é já o imperativo categórico de Kant. Esse imperativo, que é uma injunção gramatical, é sobretudo uma obrigação politica.

"Criar, criar,
Criar no espírito, criar no músculo, criar no nervo
Criar no homem, criar na massa,
Criar,
Criar com olhos secos.

Criar,
Criar, sobre a profanação da floresta
Sobre a fortaleza impudica do chicote.

Criar sobre o perfume dos troncos serrados
Criar,
Criar com olhos secos.

Criar, criar,
Criar liberdade nas estradas escravas,
Algemas de amor nos caminhos paganizados do amor,
Sons festivos sobre o balanceio dos corpos,
Em forças simuladas.

Criar,
Criar amor com os olhos secos."A palavra de ordem de Agostinho Neto espalhou-se então por todo o mundo, numa recolha de poemas intitulada "Com olhos secos", "Con occhi asciuti", como se diz em italiano.
Alguém dissera que "O poeta é um fingidor/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente". Em Agostinho Neto, talvez seja melhor buscar no samba, a explicação do seu pudor:
"Quero chorar, não tenho lágrimas."

O Ngola Ritmos desapareceu, o Samba não pode substituir o Semba. Mas pode inspirar um poema. "
Apetece-me escrever um poema.
Um poema traçado sobre aço.
Escrito com as flores da terra,
Esculpido no amor.

Não escreverei o poema.
Escreverei cartas à minha amada.
Preencherei os espaços claros dos impressos
Com letra impecável.
E, nos intervalos,
Cantarei canções afro-brasileiras."

Como os "Capitãs da Areia" de Jorge Amado, Agostinho Neto vai trilhar novos rumos. O projecto é construído nas prisões de Salazar. Como António Gramsci, Agostinho Neto também escreveu os seus Cadernos do Cárcere :
"Aqui no cárcere,
a raiva contida no peito
Espero pacientemente
O acumular das nuvens.
Ao sopro da história,
ninguém
impedira a chuva."

E quando o projecto se torna realidade, agora que a prisão já não tem grades, Agostinho Neto trilha novos caminhos:
"Caminho do mato
Caminho da gente
Gente cansada

Caminho do soba
Soba grande
Caminho do amor
Amor do soba

Caminho do mato
Caminho do amor
Do amor de Lemba."

Fernando Pessoa dissera, referindo-se ao Padrão que Diogo Cão deixara nas praias de Angola:
"A alma é divina
E a obra é imperfeita.

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