Agostinho Neto: poeta-político e a literatura de língua portuguesa (IV)

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Agostinho Neto, muito cedo, compreendeu a dimensão imperfeita da obra colonial e entendeu que era preciso refazê-la.

Agostinho Neto

Contrariamente à visão de Pessoa, que concluía o seu poema dizendo: "E o por fazer é só com Deus", Agostinho Neto pensa que compete aos homens realizar o seu próprio destino. O poeta, aqui, é politico: "Eu não espero. Eu sou aquele por quem se espera." Agostinho Neto di-lo no seu poema MUSSUNDA AMIGO, mas sobretudo no IÇAR DA BANDEIRA.

Ao convocar os personagens da História de Angola, o poeta social faz-se épico:

"Quando eu voltei,
os braços dos homens
a coragem dos soldados
os suspiros dos poetas,
tudo, todos tentavam erguer bem
alto
acima da lembrança dos heróis
Ngola Kiluanji
Rainha Ginga
todos tentavam erguer bem alto
a bandeira da independência."

Mas Agostinho Neto, poeta social, poeta épico, também sabe ser bucólico ou lírico. Camões disse um dia:
"Verdes são os campos
da cor do limão
assim são os olhos do meu coração."

Agostinho Neto, tratando do mesmo tema, escreveu:

"Os campos verdes, longas serras, termos largos
estendem-se harmoniosos na terra tranquila
onde os olhos adormecem temores vagos
acesos mornamente sob a dura argila."

Mas, Agostinho Neto não pode esquecer a dimensão social e política, mesmo quando ele quer ser lírico. É assim que ele conclui, pois, o seu poema dizendo:

"São as vozes, em coro na impaciência
buscando paz, a vida em cansaços seculares
nos lábios, soprando uma palavra: independência."

Talvez seja preferível concluir aqui, receando que Agostinho Neto nos venha interrogar, qual Mostrengo:

"Quem vem poder
o que só eu posso,
que moro onde ninguém me visse ?"

Agostinho Neto morreu em 1979, deixando como obra política: O Estado Independente de Angola e, como obra poética, uma recolha com o título `Sagrada Esperança'.

Se ele pudesse, talvez não dissesse como Camões : "Não mais, Musa, não mais." Agostinho Neto teria dito certamente: "

Perguntem ao povo, quem fala assim,
Perguntem ao povo, quem fala em mim.
Perguntem ao povo,
Se se diz tudo o que se sente,
Se tudo o que se cala, se consente."

No que me respeita, cumpre-me somente dizer como Fernando Pessoa:
"Da obra ousada, é minha parte feita."

Ou, talvez como o poeta angolano Mário António de Oliveira:
"Aconteceu poesia. "

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