Akokoto Tabernáculos tradicionais na cultura Umbundu

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Fomos sempre inquietados pelos alunos, estudantes académicos e até por humildes cidadãos sobre a temática de Akokoto.

Akokoto Tabernáculos tradicionais na cultura Umbundu
Venceslau kassese historiador. Fotografia: Francisco Lopes

 E porque a questão se ventila pertinente achamos por bem nos arrojar neste mar de realidade e misticismo.
É neste âmbito que a nossa abordagem mais do que um trabalho acabado, vai ser sim uma forma de despertarmos a nossa atenção para um trabalho de pesquisa mais aturada para todos nós.
A nossa reflexão sobre o tema terá como base as informações recolhidas junto dos anciões e também corroboradas por algumas fontes escritas.

Akokoto

“Akokoto é termo que designa a geada que aparece sobretudo no tempo de cacimbo junto às encostas das montanhas”. Quando faz muito frio nas encostas das montanhas é comum encontrar-se geada que em umbundu se designa ekoko. O termo Akokoto, sociologicamente, sugere-nos a existência de dois vocábulos: akokoto, plural de ekokoto, que significa geada mais o sufixo predicativo, ou atributivo, com valor de adverbio de quantidade “to”, que vem a significar abundância de gelo ou geada. Daí o termo Akoko - ou ainda local cheio de geada, ou akokoto.
Tradicionalmente, e na maioria dos casos é junto das encostas das montanhas onde vamos encontrar pequenas, medias ou grandes furnas, ou grutas onde se conservam os crânios ou caveiras dos (akõlõkõlõ) dos antepassados.
E por ser o local onde se guardam os crânios dos antepassados para melhor conservação devido o ambiente de extremo frio que evita a deterioração dos crânios, recorrendo a metonímia podemos dizer que o conteúdo (crânios) passou a tomar o nome do continente, espaço cheio de geada (akoko).
“É esta a origem etimológica do termo Akokoto”. Não sendo repetitivos, dizemos que Akokoto vem a designar os crânios bem como o local que os alberga.

Enquadramento dos Akokoto
na cultura umbundu

A cultura é o encontro vivo do homem com todos os aspectos que tornam pertença da comunidade onde se encontra inserido. Este conjunto inclui crenças, valores, mitos, ritos, rituais, filosofias, sabedorias, princípios, tradições em fim.
Akokoto dentro da cultura umbundu enquadra-se precisamente no aspecto da crença. O homem por natureza é um ser religioso, o termo religião vem do verbo latino “Religare”- que significa ligar-se. Este ligar-se, não é qualquer ligar-se, mas sim ligar-se a um ente supostamente superior em quem o homem deposita todas as suas aspirações, inquietações, sucessos, insucessos, frustrações, incapacidades debilidades e até esperanças.
É dentro deste prisma que vamos encontrar a existência real e mística dos Akokoto, como tabernáculos dos nossos antepassados. Os Akokoto, segundo as fontes orais existem há bastante tempo na cultura dos Ovimbundu.
Dizíamos nós que o homem é por natureza religioso. Queira ou não, tem sempre alguém em quem se realiza, como ser carnal e acima de tudo como ser espiritual. É aí onde está a “mística” dos Akokoto.
Na filosofia dos Ovimbundu, os dignitários do poder, como é o caso dos soberanos ou reis, aqueles que têm sob sua responsabilidade a vida dos membros da comunidade, isto é aqueles que devem dirigir os demais como se diz em umbundu, “ kavikwete ungovi k'ocisimo kavipitila” traduzindo: ovelhas sem pastor, não chegam à fonte; e, se chegam, podem não voltar completas; o que pressupõe a existência sempre de alguém para dirigir a comunidade. Os Ovimbundu acreditam que, quem dirige a comunidade e a dirige bem, este merece respeito, veneração, e acima de tudo a preservação do seu nome no tempo e no espaço. É como o homem que dirige ou dirigiu bem a comunidade, o seu exemplo deve ser preservado, transmitido e seguido.
Dizia Julius Nyerere, grande estadista e académico africano que: “só é antepassado, aquele cujo exemplo de vida os vivos devem ou podem imitar e seguir”. Também é crença e isto a psicolinguística o comprova de que o centro do pensamento e sabedoria é a cabeça que incorpora o cérebro, que nas suas diversas componentes realiza as funções intelectivas.
E como o cérebro fonte de toda a actividade cognoscitiva, afectiva, volitiva e liberal encontra-se no crânio, então quando um homem que se celebrizou pelas suas qualidades desaparece, pode-se enterrar o corpo mas nunca se deve enterrar a cabeça. Segundo depoimentos prestados pelo adjunto do rei do Huambo, (I) enterrar a cabeça de um rei que se notabilizou, seria enterrar todo o seu juízo e conhecimento.
É aí onde reside a essência dos Akokoto. Akokoto são as grandes bibliotecas simbolizadas nos crânios ou caveiras dos grandes sábios que enterrados (os crânios) teriam enterrado toda a enciclopédia, quiçá a biblioteca que o este crânio carrega consigo.
Dizíamos nós que a cultura é o conjunto de aspectos que tornam o homem participe da comunidade onde se insere. Esses aspectos são vários e variados. Curioso é que, acreditam os Ovimbundu que aqueles que morrem e que deixaram nome sobre a terra continuam vivos e a propiciarem vida boa para os vivos. Razão pela qual sempre ouvimos dizer, quando alguém está inquietado com situações não abonatórios que: “ gostaria de ir juntos dos meus antepassados”, “ou será que os antepassados (vapakulu) não estão lá?”.
Tudo isso revela o apreço e a ligação entre o mundo dos vivos e o mundo dos que já partiram, mas que continuam vivos sob uma outra forma, que chamaríamos de “mística”.
Os Akokoto, como exemplo tangíveis do contacto do vivo com o seu antepassado através de algo visível que é o crânio (ekõlõkõlõ) constituem-se em espaços religiosos sagrados- os tabernáculos.
Sagrados porque no momento de gloria o ocimbundu vai agradecer ao seu antepassado. No momento de tristeza, angustia, calamidade, insucesso, morte, frustração, no momento de entronização de um soberano, de celebração de grandes eventos, o ocimbundu acredita que deve contar com o beneplácito dos seus antepassados.
É esta grande dimensão sociocultural e religiosa que desempenha os Akokoto (tabernáculos tradicionais) dentro da cultura umbundu. O ocimbundu recorre com as suas preces aos seus antepassados em todos os momentos. É a razão pela qual no passado e até mesmo no presente sempre que haja qualquer evento, antes da sua realização os anciãos e anciãs juntamente com o povo, vão aos Akokoto rogar a bênção das suas mãos, ou ir pedir perdão por aquilo que não se tem cumprido para o bom andamento da comunidade.
De certeza está tudo concentrado nos Akokoto, e surge a pergunta, onde colocar a pessoa de Deus? “ Suku odjali oyendula ñgo kapesela”, significado “ Deus é pai, faz- nos inclinar e nunca nos despeja”.
O ocimbundu na sua forma original acha que Deus é um ser Bom, “inacessível”. E para com Ele, só nos casos extremos. O maior contacto permanente é com os antepassados que jogam o papel de quase de intermediários entre Deus e os homens.
Mas também na visão cristã sobretudo católica a figura dos Santos não foge muito do paralelismo dos Ovimbundu para com os seus antepassados.
Aliás só é antepassado quem foi boa pessoa. Mesmo entre os Ovimbundu, não é qualquer crânio, ainda que seja de um soberano, que pode merecer as honras devidas, mas sim de um antepassado cuja vida é exemplar.
Cremos que, o que não faz mal faz bem. Se de facto esta dimensão de Akokoto não atenta contra a dignidade da pessoa humana, então deve ser preservada, conservado e transmitida de geração em geração, como património sócio-cultural e religioso. Acreditamos que a nossa abordagem pode ter insuficiência fundamentação teórica que se apoie em fontes orais e escritas. Mas acreditamos também que ela pode servir de incentivo para futuras investigações.

VENCESLAU CASESE *

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