Angola consulta artefactos culturais em todo mundo

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Angola deve preparar uma estratégia para que a questão de retorno de bens culturais seja vista de maneira sistematizada, já que há artefactos culturais angolanos em várias partes do mundo, defende o director da Direcção Nacional dos Museus, Ziva Domingos, em Luanda. "Não podemos apontar só um país, pois há objectos angolanos em várias partes do mundo. 

Angola deve preparar uma estratégia para que a questão de retorno de bens culturais seja vista de maneira sistematizada, já que há artefactos culturais angolanos em várias partes do mundo, defende o director da Direcção Nacional dos Museus, Ziva Domingos, em Luanda. "Não podemos apontar só um país, pois há objectos angolanos em várias partes do mundo. Ao nível do Ministério da Cultura precisamos de uma estratégia clara e especifica sobre como o país vai tratar a questão da restituição das peças que estão nestes países", frisa o museólogo, que falava durante a assinatura de um memorando com a Fundação do Património Cultural Prussiano.
Em declarações ao semanário Expresso, a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, admitiu mesmo que o país tenciona dar início a “consultas multilaterais com vista a regularizar a questão da propriedade e da posse, por um lado, e, por outro lado, da exploração dos bens culturais angolanos no estrangeiro”. Só em Portugal, por exemplo, há máscaras, artefactos, bonecas, objectos do uso quotidiano que poderão ser reclamados por Angola ao Estado Português. O Museu Nacional de Arqueologia e o Museu de História Natural e da Ciência são detentores de alguns destes bens que, depois de um levantamento, Angola pretende ver restituídos aqueles que saíram do país até 1974.
No mês passado foi tornado público o relatório sobre a restituição de colecções de arte africana em França, pedido pelo Presidente Emmanuel Macron. O relatório solicitado à historiadora de arte francesa Bénédicte Savoy e ao economista senegalês Felwine Sar, defende a devolução de todos os objectos detidos pelos museus nacionais franceses, dos quais não exista um justificativo de compra consentida.

Alemanha vai restituir
artefactos culturais
Alemanha pretende restituir artefactos culturais a Angola e a outros países do mundo que tenham sido adquiridos de forma ilegal, roubados ou adquiridos com violência, de acordo com o presidente da Fundação do Património Cultural Prussiano, Hermann Parzinger, que falava durante a assinatura de um memorando a Direcção Nacional dos Museus de Angola, em Luanda.
"É claro que nós vamos restituir objectos a Angola, depois de avaliados se foram ou não obtidos de forma ilegal e com violência", disse o arqueólogo, que dirige a maior fundação cultural alemã, composta pelos dezasseis museus estatais de Berlim, a Biblioteca do Estado, o Arquivo Secreto do Estado, o Instituto Ibero-Americano e o Instituto Estatal de Musicologia. Já o director da Direcção Nacional dos Museus de Angola, Ziva Domingos, prefere esclarecer que o memorando agora assinado não é para a recuperação dos objectos, mas sim um intercâmbio entre as instituições dos dois países, nomeadamente, Museu Nacional de Antropologia de Angola e o Museu Etnológico de Berlim. Contudo, avança que se trata de um passo para tal. "O memorando estabelece as bases para o diálogo para uma futura recuperação das peças", diz o museólogo. "Mas é preciso um trabalho para identificação e depois daí passar para os canais diplomáticos e científicos para a restituição". Antes de Ziva Domingos, a secretária de Estado da Cultura, Maria da Piedade de Jesus Maria de Jesus, já tinha avançado na sua intervenção que os museus de Berlim possuem importantes colecções etnográficas provenientes de Angola, principalmente das regiões culturais leste e sudoeste, razão pela qual houve a necessidade de se aprofundar os estudos e o intercâmbio entre os dois povos.
Mas o responsável dos Museus de Angola avança dados, ainda que vagamente: "Em termos estatísticos, não definitivos, o museu de Berlim tem cerca de 1.200 objectos angolanos na sua colecção. Pode haver outros objectos noutros museus da Alemanha, já que não há dados concretos".
Entretanto, o memorando de entendimento assinado prevê a cooperação nas áreas da pesquisa, restauração e conservação, promoção, mediação cultural e formação. "O nosso objectivo é tornar acessível o património cultural da humanidade e isso inclui também intercâmbio dos objectos através de exposições comuns em Angola e na Alemanha", diz Hermann Parzinger, referindo-se ao memorando que tem duração de três anos renováveis, e cujos primeiros resultados foram a realização de dois workshops em Luanda e em Berlim, sendo que resultados mais palpáveis só serão alcançados no final de 2019.
Entretanto, a Fundação do Património Cultural Prussiano, que Hermann Parzinger dirige, é a mesma responsável pelo Fórum Humboldt, o ambicioso projecto concebido para reunir todas as colecções etnológicas dos museus de Berlim, numa altura em que a Alemanha lida na esfera política, na praça pública e nos tribunais com o seu passado colonial violentíssimo, sobretudo devido ao genocídio dos herero no começo do século XX. Entre 1904 e 1908, as tropas alemãs mataram 100 mil herero e nama. Depois de, em 2016, e pela primeira vez, Berlim referir-se a esses crimes como genocídio, ainda está distante de aceitar as consequências legais. Hartmut Dorgerloh, director-geral do polémico Fórum Humboldt, tido já como o mais ambicioso e expansivo projecto de museu da Europa, garantiu recentemente à publicação especializada The Art Newspaper que nos últimos anos o seu país tem intensificado os esforços para conhecer melhor a proveniência das obras que estão nas colecções públicas, mesmo tendo consciência de que nem sempre vai ser possível apurar as circunstâncias em que ali chegaram.
“A restituição pode ser uma consequência desta investigação e, de facto, em certos casos, é um imperativo. A arte saqueada tem de ser sempre devolvida”, diz Dorgerloh, garantindo que vai estudar o relatório encomendado por Macron com a sua equipa para que juntos possam identificar as lições a tirar do caso francês. “Estamos também muito interessados em perceber como é que este relatório vai ser recebido pelas comunidades nos países de origem.”






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