Artistas e Escritores para o Prémio Nacional de Cultura e Artes (II)

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Nesta sua décima terceira edição, o Prémio Nacional de Cultura e Artes, contemplou os seguintes artistas e escritores.

Da esquerda para a direita: Óscar Gil (vencedor da edição 2003), Arlindo Barbeitos, Alberto Botelho, Kiluanji Kia Henda, José Fernandes (Henrique Artes), Eduardo Paim, Tchicusso Pedro (Ombembwa) e José Mena Abrantes. Fotografia: Fotos de Santos Pedro

LITERATURA

José Mena Abrantes.

Dedicou parte da vida a produzir textos dramáticos, modalidade literária raramente cultivada em Angola e pouco conhecida enquanto tal. Destinando-se o texto literário dramático à representação, é inegável a importância desta vertente estética da obra de José Mena Abrantes, numa altura em que o teatro anima cada vez mais o público e floresce em palco.

Além de escrever peças de teatro e de se dedicar à direção do grupo Elinga-Teatro, desde 1988, o autor produziu romances, poesia e ensaios. O conjunto da obra de José Mena Abrantes é consubstanciado por uma profunda carga existencial.

Trata-se, pois, de uma produção literária que preserva factos históricos ocorridos no período colonial, no espaço que hoje chamamos Angola, e que se afirma como crítica e reflexão sobre a realidade social e moral da época.

Natural de Malange (1945). Licenciado em Filosofia Germânica em Lisboa (1969). Co-fundador em 1975 da Agencia Angola-Press (ANGOP), da qual foi Diretor-Geral (1981-83).

Trabalhou igualmente na Cinemateca Nacional (1985-87). Foi assistente de informação  o (1987-93) e exerceu as funções de assessor de imprensa do Presidente da Republica desde Fevereiro de 1993.

Jornalista, escritor, dramaturgo, produtor e encenador de teatro. Dirige, desde a sua criac ao  em 1988, o grupo Elinga-Teatro.

Publicou 12 pecas de teatro, três livros de ficção em prosa, dois livros de poesia e vários estudos sobre o cinema e o teatro em Angola.

Vencedor do premio Sonangol de Literatura de 1986, 1990 e 1994.

Vencedor do 1.° Premio "ex-aequo" de poesia dos jogos florais do Caxinde (1997) e do 2.° lugar do Premio PALOP 99 do Livro em Língua Portuguesa (2000).

Recebeu em 2006 o Diploma de Me rito do Ministério da Cultura de Angola pela sua "significativa contribuição o ao desenvolvimento da dramaturgia em Angola".INVESTIGAÇÃO CIENTIFICA EM CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

Arlindo do Carmo Pires Barbeitos,

pela sua obra Angola-Portugal, Representações de si e de outrem ou jogo equívoco das identidades, considerando a relevância, a pertinência, a cientificidade e o interesse deste trabalho.

Este facto demonstra que a compartimentação dos angolanos e de outrem em categorias identitárias rígidas e hierarquizadas, com base nos conceitos modernos como raça, etnia ou nação que viriam a estabelecer as noções de eu e de outro, constitui um pressuposto das guerras civis em Angola.

Este estudo, fruto de um trabalho aturado de investigação, vai enriquecer a bibliografia angolana com mais um documento que retrata um fragmento da história de Angola e contribui, por um lado, para a apreensão dos motivos íntimos e conhecidos no final da época histórica em análise e, por outro, para a compreensão dos equívocos do fenómeno de assimilação.

A metodologia aplicada pode constituir um incentivo e um modelo para o alargamento da reflexão e estudo da temática.

Nasceu a 24 de Dezembro de 1940, em Ikolo e Bengo. Seguiu, em 1958, para Portugal para ingressar na Universidade. Cedo se converteu em membro da antiga Casa dos Estudantes do Império (C.E.I.) e ali se tornou militante do Movimento Anticolonialista (M.A.C.).

Em 1961, escapou para Paris, de onde, ainda em Setembro de 1961, partiu para Frankfurt/Main, na Rep. Federal da Alemanha. De 1961 a 1963, trabalhou como operário braçal naquele grande centro económico e financeiro alemão, europeu e mundial.

Em 1964, na J. Wolfgang Goethe Universitaet, iniciou o estudo de Sociologia, onde permaneceu até o Vordiplom (bachelerato) - 1968. Então, nesse mesmo ano, encetou uma formação em Antropologia.

Em 1971, regressou ao país e foi colocado como quadro do C.I.R (Centro de Instrução Revolucionária) nas zonas libertadas do Moxico. No princípio de 1973, volta à Alemanha, agora em Berlim Ocidental, para o tratamento de uma tuberculose e de outras sequelas de ferimentos adquiridos em combate em que participou na luta contra o colonialismo português. Interrompeu, em Setembro de 1975, a formação e a atividade docente em Berlim e veio para Luanda; integrado no Protocolo da Presidência da República Popular de Angola, trabalhou, por dois anos, como intérprete de alemão do Dr. Agostinho Neto;

A 10 de Dezembro de 1975, tornou-se um dos escritores-fundadores da União dos Escritores Angolanos (U.E.A.). De imediato, publicou-se em Luanda, o livro de poemas Angola, Angolê, Angolema.

Em 1979, veio a público N'Zoji, 1991, chegou a vez de Fiapos de Sonho, por fim em 1998, em Lisboa foi editado Na Leveza do Luar Crescente. Em 1985, divulga, através do U.E.A., as estórias curtas de, O Rio - Estórias do Regresso.

Em 2005, 2007, respetivamente em Lisboa e em Luanda, aparece o ensaio de filosofia política, A Sociedade Civil, Estado, Cidadão, Identidade em Angola. Numerosos poemas seus surgiram em diversas antologias, angolanas, portuguesas, brasileiras espanholas, italianas, francesas, alemãs, etc.

A sua dissertação doutural veio à luz, em versão original, em francês, em 2008 em Paris. Esta tese resultou de uma longa e complexa investigação, que demorou mais de 6 anos, principiada em Luanda e prosseguida em arquivos portugueses.

A tradução para o português foi publicada em Luanda, 2012, pela Editora Kilombe-Lombe, sob o título "ANGOLA­PORTUGAL, Representações de si e de outrem ou o jogo equívoco das identidades"

MUSICA

Eduardo Paim, de nome artístico General Kambuengo. Com 33 anos de carreira artística, constitui um representante ativo da música e consta dos alicerces da história contemporânea angolana, ao ser considerado precursor do estilo/género musical Kizomba.

Com a utilização de meios técnicos eletrónicos e a criação de uma linguagem rítmica, influenciou as carreiras de muitos artistas, incluindo os da nova geração.

Eduardo Paím nasceu no Congo Brazzaville, há 47 anos, onde os pais se tinham exilado. Ganhou o gosto pela música ainda pequeno, principalmente, depois de receber, da mãe, uma viola de brinquedo. Tinha, então, sete anos. Viveu o auge da carreira em Portugal, onde conseguiu o seu primeiro "Disco de Ouro", por vendas superiores a 50 mil cópias, na obra "Do Kayaya". Kambuengo, diz o cantor "é o primeiro nome com o qual me reconheço. Deu-mo a minha avó, mal me pegou no colo".

Eduardo Paím começou a cantar em 1979, com o grupo "Os Puros", que constituiu com Bruno Lara e Levi Marcelino. Os três eram estudantes da Escola Njinga Mbandi: "na altura, apresentámo-nos no programa Tempo Jovem, da TPA. As pessoas gostaram e incentivaram-nos a seguir.

Começou um compromisso que não esperávamos", lembrou. O grupo tinha, igualmente, vozes femininas, de colegas da escola. A inclinação para a música começou ainda no exílio: "era capaz de parar o que estivesse a fazer, para me dedicar à música". No disco, "Kambuengo", com a música "Rosa Baila", chegou ao quarto lugar do top: "estava nas rádios e na televisão.

Parei o trânsito em Portugal". Em mais de 30 anos de carreira, Eduardo Paím Fernando da Silva editou "Luanda, Minha Banda", 1991, "Novembro" (1991), "Do Kayaya" (1992), "Kambuengo" (1993), "Kanela" (1994), "Ainda a Tempo" (1995), "Mujimbos" (1998) e "Maruvo na Taça" (2006).CINEMA E AUDIOVISUAIS
   
Alberto Botelho,  pelo conjunto das suas obras: "Encurralada", "O Amor de Mariana", "Os Emplastros", sendo esta última uma comédia social de redenção, amor e conflitos familiares que se transformam, de forma natural, em momentos hilariantes, protagonizados por cinco velhos tranquinos, amigos e viúvos.

Alberto Botelho, jovem realizador dinâmico e dedicado, a pensar Angola sempre com uma visão sociopolítica, ou sociocultural, perseverança, contribuindo para a nossa identidade cultural. Tem demonstrando criatividade, qualidade fotográfica nos seus filmes e prestado grande contributo para a valorização da nossa memória coletiva.

Alberto Botelho nasceu em 12 de Maio de 1979, em Cacuso. É técnico superior de jornalismo, pela DAM College de Joanesburgo, com qualificação de Pitman de Londres. Tem, ainda, o curso superior de Ciências da Comunicação, na especialidade de audiovisuais, pela Rands Afrikans University e pela University of South Africa, com estágios na Berlim Talent Campus e Durban Talent Campus.

Participou em vários festivais internacionais, como os de Berlim, Durbam e Cineport (Brasil). Trabalha na TPA. Realizou as seguintes curtas-metragens: "Quando Falta o Amor", "Malditas Flores", "Gota de Água", "Cicatriz", "Esvaziado de Poder", todas elas realizadas em 2008. Co-realizou a telenovela "Doce Pitanga".

Está a preparar a mini série de dez capítulos "Kahito" e a longa-metragem "Filhos do Musseque".A primeira longa-metragem, no género comédia, do realizador angolano Alberto Botelho ­ Os Emplastros ­ está, desde 5 de Fevereiro, em exibição numa das salas do Cine Place, no Belas Shopping. "'Os Emplastros'" constitui um caso atípico como género cinematográfico, por ser o primeiro filme do género produzido profissionalmente em Angola.TEATRO

Grupo Henrique Artes, pelo conjunto da obra. O Grupo Henrique Artes tornou-se uma marca de incontornável referência do teatro angolano com uma competente regularidade cénica, exibindo uma produção com padrões internacionais. Os seus textos lançam um sério desafio à urgente necessidade da edição de textos dramáticos, assim como constantes lições à arte de bem-fazer teatro aos estreantes, constatado no rigor investigativo e pertinência das abordagens, bem como na personificação de níveis altos. O Grupo Henrique Artes tornou-se uma referência da última década do teatro angolano de regular presença nos palcos convencionais do País. Dignifica a classe pelo excessivo cuidado com a ceno-técnica nas suas marcantes e regulares estreias, desde a sua fundação.

O Grupo Teatral Henrique Artes foi fundado em 2000, na sede do colégio Henriques técnico pré-universitário de Luanda por Flávio Ferrão, com o objetivo de dar suporte a jovens que apresentavam um futuro artístico brilhante. A partir daí, começaram trabalhar arduamente e a investir seriamente nos seus atores, fazendo a apresentação de sucessivos espetáculos em Luanda.

Obras já realizadas: Amor Fatal (1ª Obra do Grupo). A sombra. Côncavo e Convexo. Conspiração. Controvérsias Sociais. Contra o Tempo. Dançando com o Lobo. Dossier Leviano. É minha gente, temos o mesmo cheiro. Elvira. Eu vi e vivi, eles não eram loucos. História Que Marcou o Sul. Hotel Komarka. Luanda Meu Enigma. Momentos. Mortes Prematuras. O Karateka. Passageira 640. Renascer. Roubaram a Mim e a Minha Alma. Santo Luandino. Tolos? Nem Por Isso. Uma Paixão Do Caraças. Fragrância de Amor. Corvos ao Imbondeiro. Órfã do Rei

Premiações e Reconhecimentos: 2004 - Vencedor do Prémio de teatro CIDADE DE LUANDA com a peça "Luanda meu enigma" premiado como a melhor encenação. 2005 - 2ª Classificado e melhor encenação, melhor atriz, com a peça " Eu vivi, eles não eram loucos". 2008 - Vencedor do Prémio de Teatro Cidade de Luanda a peça "Côncavo e Convexo". 2010 - 2º Classificado no Prémio de Teatro Cidade de Luanda com a peça "É minha gente, temos o mesmo cheiro"... 2011 - Grupo revelação do Festlip (festival da língua portuguesa), Rio de Janeiro, Brasil. 2012 ­ Certificado de Mérito pela divulgação da cultura Angolana dentro e fora do país.

ARTES PLASTICAS

Kiluanji Kia Henda, pelo conjunto da sua obra e, dada a sua internacionalização, pelas exposições fotográficas no contexto da arte contemporânea. A sua obra tem sido destacada em importantes iniciativas e espaços de diferentes países, nos continentes africano, europeu, americano e asiático.

Kiluanji Kia Henda é um dos artistas angolanos com maior reconhecimento internacional, no panorama artístico da actualidade. Kiluanji Kia Henda (1979), autodidata, pertencente à nova geração de artistas angolanos que já possuem uma representativa carreira internacional.

Para além de projetos em artes visuais, também trabalhou em áreas como o teatro e música. Em 2005 participou no programa de residência artística da I Trienal de Luanda viajando por várias províncias de Angola, de onde resultou o projeto Ngola Bar, apresentado em 2007 na I Trienal de Luanda, SD Observátorio no Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), e na 52ª Bienal de Veneza, para a mostra Check List_Luanda Pop.

Em Lisboa, participou no programa de residência artística da ZDB, onde realizou o projecto Blood Business Corporation, uma invasão do Iraque simulada na zona de oleodutos em Sines. Em 2008 criou, na Cidade do Cabo, p projecto Expired Trading Produts relacionado com a crise de xenofobia que se vivia e sobre a única estação nuclear em África.

Participa na 3ª Trienal de Guangzhou intitulada Farewell to Post-Colonialism, onde ficou por dois meses, a convite da Fundação Sindika Dokolo para produção de Icarus13, um projeto utópico que retrata a estória da primeira missão espacial em África em direção ao Sol. Em 2009 apresentou a sua primeira exposição individual em Luanda, intitulada Estórias e Diligências, depois nas mostras coletivas em São Paulo, na Galeria SOSO e na exposição, Luanda: Smooth and Rave I, Museu Solar do Ferrão, Bahia, Brasil.

No mesmo ano realiza o projeto Trans It que foi apresentado numa exposição individual em São Paulo e em várias mostras coletivas em cidades como Lisboa, Bordéus, Bahia, Luanda e Lumumbashi. Em 2010 em Veneza realizou o projeto Self Portrait As A White Man, que aborda a diáspora, imigração e identidade, apresentado também na galeria Fonti, Nápoles e na II Trienal de Luanda. Em 2011 é finalista do BES PHOTO.

 Em "O sonho de Niemeyer e o Universo Paralelo", Kiluanji escreve "Os candogueiros (táxis informais) como se fossem o youtube, disseminam a música e a atitude oriunda dos musseques por cidades e aldeias, de todo o território nacional. O musseque por fim criou uma identidade nacional."DANÇA

Grupo de dança tradicional Ombembwa, da província do Cunene, pelo conjunto da sua obra: - por ser um fiel depositário das tradições da escola de iniciação masculina (Mukoka) entre os povos Nhaneka Humbi, onde a dança Jando se apresenta como a principal arte identitária da instituição Mukoka que, por sua vez, também dançada pelos Vahanya;

- por exaltar a mulher como ser igual ao homem, ao atribuir-lhe o papel de timoneira rítmica na execução da dança em que os instrumentos (batuques) são por ela tocados;
- pelo esforço contínuo em preservar o património imaterial da dança nacional;
- por ser, na atualidade, uma referência pedagógica no domínio das danças "Jando", "lisungu" e "Nkakula", enquanto danças e estilos musicais para iniciados e estudiosos interessados na cultura nacional;
- por a sua arte ser erudita e as instituições educadoras desta arte estarem sem realizações massivas, no contexto atual do País.

Ombembwa (Liberdade, Paz) surgiu no Cunene há 20 anos e participou em vários espetáculos em Angola e no estrangeiro, como foi o caso da atuação em 2009 no Orange Mundo, República da Namíbia e no ano seguinte no encontro nacional do Dia da África.

O grupo, constituído por 30 elementos, apresenta, entre outros números, a dança "Ondjando" - realizada na a ida à cerimónia da circuncisão
- e "Ovissunngo" - característica da festa de puberdade "efico"
-, que faz parte da tradição dos nnhaneka numbi.


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