Cinema angolano, letargia e rebobinagem

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Se eu fosse uma andorinha, decerto não iria ao cemitério das aves chorar alguma amiga da minha espécie. Não compraria ramos de flores, não acenderia velas numa igreja para levar a sua alma até ao ninho doirado do Deus das Aves, nem mandava publicar uma notícia breve com os nomes de todos os familiares a avisar que a andorinha fulana de tal nos disse adeus, num voo mais que rasante a furar a terra com os seus olhos cegos.

Não sou uma andorinha, embora não pareça, porque na minha qualidade de homo sapiens sapiens tenho imitado as andorinhas, não só no voo pelas asas do sonho, mas também na filosofia de viver a vida sem excessos de manifestações de uma inutilidade inútil.

O meu colega Aguiar dos Santos entrou para o Memorial do Jornalismo angolano, com obra acabada e missão cumprida. Ninguém me viu nas exéquias do man'Aguiar. A minha honra devo-a aos vivos.

Quem me dera enquanto vivo ver chegarem todos os meus amigos e inimigos num cortejo com os carros todos em fila indiana e me levarem em triunfo pela cidade fora até à casa de algum deles e me festejarem com kizomba e flores e discursos alegres.

É quando uma pessoa está a respirar que se lhe pode e deve oferecer um beijo, uma palavra de conforto, uma possível cura para qualquer mal, um bom bouquet de flores a cheirar a lavanda, pegar na mão dela e caminhar juntos pela marginal afora.Depois de morta, uma pessoa já não cheira as rosas, não sente o calor da multidão à volta do caixão, nem ouve jamais uma só palavra do elogio fúnebre.

Este, o elogio fúnebre, é mazé para os vivos ouvirem e dele exaurirem uma lição qualquer, um aviso implícito, um caminho a seguir. Daí que ao meu colega Aguiar dos Santos, não sendo jornalista morto, mas ave rara a voar nas nossas bancas, não atribuí nem atribuirei nunca a ordem do cemitério do Alto das Cruzes.

Para mim, man'Aguiar, foste mazé contratado pelos anjos para fazer um filme que podia muito bem ser rodado pelo nosso irmão, o Zezé Gamboa, onde estarias ao leme de um dongo muito comprido chamado "Agora ­ mais do que um jornal, uma paixão" e nessa navegação então teríamos imagens surreais da paisagem à volta, as quedas de água contornadas com a equipa de remadores, as crónicas da história de um país escritas a cada semana.

E por falar de filmes e de anjos (anjos são todos os grandes artistas) e porque o Zé Guerreiro me trouxe uma mukanda para todos os leitores a contar a fábula de "O Grande Kilapy", a mais recente estreia do nosso cinema e nela nos fala como o Zezé Gamboa deu novos mundos ao mundo da Sétima Arte com "O Herói", prémio do júri para melhor filme dramático estrangeiro no "Festival de Sundance", em 2005, e como "O Grande Kilapy" vai participar no FITT ­ Festival Internacional de Filmes de Toronto, dizia eu que, por causa do Aguiar dos Santos que foi contratado pelos anjos dos filmes reais, lembrei de recordar que o nosso cinema ficou um bom tempo numa letargia de doer a alma!

Falar do cinema angolano não passava de sacudir a poeira dos arquivos e trazer à luz velhas películas épicas ou então as tentativas malogradas de uma filmografia recente apostada em por em ação assaltos à mão armada dirigidos contra a alma pacata do cidadão cansado de trinta anos de guerra, valha-nos Deus! Agora, ao lermos a mukanda do Zé Guerreiro, o futuro augura-se radioso para os sendeiros fílmicos de Angola.

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