Cónego Manuel das Neves, um dos paladinos do moderno nacionalismo angolano

Envie este artigo por email

Prevê-se erguer estátua do nacionalista

Cónego Manuel das Neves, um dos paladinos do moderno nacionalismo angolano
Cónego Manuel das Neves Fotografia: Arquivo

Prevê-se erguer estátua do nacionalista

O cónego Manuel das Neves foi um dos maiores protagonistas das acções que culminaram, a 4 de Fevereiro de 1961, no início da luta armada de libertação de Angola, conforme as palavras de Jaime Araújo, antigo presidente da Liga Africana, na palestra que proferiu dia 4 de Fevereiro passado, no Golungo Alto, província do Cuanza Norte. Em declarações à Angop, à margem da palestra, o nacionalista Lopo do Nascimento salientou que esforços estão a ser envidados para que seja erguida uma estátua do nacionalista Manuel das Neves na Liga Nacional Africana, do qual foi um dos precursores, e na sede municipal do Golungo Alto, sua terra natal.
A palestra sobre a vida e a obra de cónego Manuel das Neves decorreu na paróquia de Santo Hilarião e foi testemunhada por membros do Governo provincial do Cuanza Norte, da administração municipal, autoridades tradicionais e por cerca de 500 fiéis.
Jaime Araújo recordou que o cónego Manuel das Neves teve o condão de estar constantemente próximo dos pobres, por isso, viveu o sofrimento do seu povo e ficou revoltado, dedicando-se à vida política.
Edmundo Rocha, na sua Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano, considera que o modelo de conduta cívica do cónego Manuel das Neves inscreve-se na perspectiva progressista-cristã do núcleo católico angolano, polarizando com Joaquim Pinto de Andrade as duas tendências de ruptura com a ordem colonial.
Considerado um dos paladinos do Nacionalismo moderno angolano e intransigente lutador, o cónego Manuel Joaquim das Neves nasceu a 25 de Janeiro de 1896, no Golungo Alto. Trabalhou durante 13 anos como sacerdote em Luanda e em 1961 foi preso pela Pide (polícia política portuguesa) e deportado para Portugal, onde veio a falecer em 11 de Dezembro de 1964, com 70 anos de idade.
Após a insurreição armada no norte de Angola, em 15 de Março de 1961, Monsenhor Manuel das Neves foi detido pela PIDE e deportado para Portugal, juntamente com outros cinco sacerdotes africanos, acusado de ser um dos principais “dirigentes terroristas”. Após alguns meses de prisão na cadeia do Aljube e no Forte de Caxias, a Igreja Católica e o governo de Salazar acordaram em manter Monsenhor Manuel das Neves e os outros sacerdotes africanos afastados de Angola, pelo que lhes foi fixada residência em casas religiosas em Portugal. Mesmo nessas circunstâncias adversas, não deixou de manter contactos clandestinos com os nacionalistas, e de os incentivar à luta pela Independência de Angola.

OS HERÓIS DO 4 DE FEVEREIRO

A figura do cónego Manuel das Neves está indelevelmente ligada às figuras dos seus companheiros de luta, como Neves Bendinha, que fazia a conexão com o cónego e dele recebia instruções, auxiliado por Domingos Manuel Mateus (pintor da construção civil) e por Paiva Domingos da Silva (carpinteiro). Foram estes que organizaram os grupos de ataque, e definiram os locais estratégicos da cidade a serem acometidos.
Segundo os relatos que o jornal Cultura recolheu de várias fontes electrónicas, “a mobilização geral principiou em Novembro de 1960, sob a batuta dos chefes que se reuniam sucessivamente em casa de uns e de outros. Os cabecilhas eram Neves Bendinha, Domingos Manuel, Paiva Domingos da Silva, Raul Deão e Virgílio Francisco (este último comandante do grupo que atacou a estação dos Correios, Telégrafos e Telefones). Eles davam conhecimento de tudo ao cónego Neves. O tecido para as fardas envergadas pelos revoltosos foi comprado na Mabílio de Albuquerque e as catanas na casa de ferragens Castro Freire. A fim de não levantar suspeitas, o cónego pediu a um fazendeiro amigo que as comprasse, alegando querer distribui-las por camponeses nativos.” Francisco Pedro Miguel, integrante do grupo de ataque à estação dos Correios, foi pessoalmente buscar duas caixas com catanas àquela empresa levando-as para a Sé Catedral onde as guardou num dos campanários. Mais tarde, ele e Neves Bendinha retiraram-nas de lá cautelosamente para serem limadas.
Os ataques em Luanda estavam previstos acontecer somente a 13 de Março, de modo a coincidirem com o levantamento no Norte e com o debate de Angola nas Nações Unidas. Contudo, a presença de jornalistas estrangeiros em Luanda, por causa da captura do navio Santa Maria, era crucial, para provocar o maior estrondo internacional. O cónego autorizou o levantamento que ele designou de “prematuro”, para o dia 4 de Fevereiro. No rescaldo deste assalto, que mobilizou cerca de 220 homens e deixou no terreno quinze mortos e um número indeterminado de feridos, o novo chefe-geral dos sublevados, Agostinho Cristóvão, reorganizou com Paiva Domingos os efectivos que restavam e no dia 10, pela madrugada, ambos à testa de 124 indivíduos, atacaram as dependências da Administração Civil de São Paulo, mais o Pavilhão Prisional da referida administração e a Companhia Indígena. Raros sobreviveram em liberdade. Presos, torturados e interrogados, centenas encontraram a morte no Forte de São Pedro da Barra. Mas estava lançada a semente da revolta armada.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos