De chuvas & cacimbos I

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As chuvas trazem um sentido virgem e puro, como se o Mundo acabasse de ser inventado.

De chuvas & cacimbo I
Chuva caindo sobre a natureza

1- (Para Midori, o perfume das chuvas.)
Quase no final das chuvas e eu choro os desbarulhos da saudade das chuvas futuras que hão-de vir, depois do comprido cacimbo.
Em África, as chuvas recriam a vida como se caissem no primeiro dia do Génesis. A cada ano, quando tamborilam as primeiras chuvas, há uma musicalidade mística que habita a alma das gentes. As chuvas trazem um sentido virgem e puro, como se o Mundo acabasse de ser inventado.
Aqui, na Europa, as chuvas são simplesmente chuvas, água sem alma, caindo morta e sem um sentido profético de renovação. Não há aquele odor vivo, incaracterístico das chuvas a beijarem o chão seco e quente no início de cada estação. A chuva não casa com a terra.
Em África, quando o sémen dos Deuses chove sobre a terra, liberta-se um perfume fresco e telúrico de fartura cozinhada que se come, que se bebe e se respira como se cada pessoa fosse moldada no barro húmido da terra.

2- Esta luz que grassa nos meus olhos, trouxe-a eu do Sul, embrulhada em conchas e miragens. Acalentada pela fronde das palmeiras, do cântico luminiscente dos pássaros e, à noite, no lume aceso dos pirilampos e no troar cardíaco dos ngomas.

3- Escuta o canto frenético das cigarras. Há bagas de luz, transpiração de perfumes e a calidez deste lume, tear onde se tecem dias iridiscentes e verdes.

4- Avô, quando partiste, havia pirilampos macerados no limiar do jardim da casa. As cigarras emudeceram violinos e tímbalos. Nessa altura, já não tínhamos craveiros no jardim, se os tivéssemos, haveriam de ter murchado também.

5- A organza não é um tecido. É silabário de palavras: o poema a ser escrito.

6- (Para Aline Frazão)
Aline, a tua voz melodia doce como águas frescas de moringue a lavar a minha sede de dias e de fome da sombra frondosa da mulemba no auge rupestre do tempo das chuvas. O vento a dedilhar kissanjes no pranto vivo dos dedos dos meus olhos. O mar a tamborilar calemas e tambores ao sabor de metáforas lavradas na melodia toda desfeita e construída de maresia. Maré azul, sol luzidio, rotas atlânticas do sal e do sul, disseminadas na quilha dos dongos de vela latina a navegar o Cruzeiro do Sul o Triângulo Austral.
Aline, a tua voz é uma fonte, um búzio em flor, uma ponte de unir as margens do grande mar, Atlântico oceano sal de melodias e maresialinafrosílias.

7- Tal como Antígona, também a welwitschia não cedeu aos infortúnios da vida.
Namibe, escuta:
– A welwitschia não cede à sede!

Namibiano Ferreira

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