Dia da Cultura Nacional

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Féti, Kandumbo, Kaninguili, Ombala Grande do Humbo e Praça A. Agostinho Neto Pedras vivas da Memórias Colectiva.

Dia da Cultura Nacional
Ministra discursando na Pedra de Candumbo Fotografia: Paulino Damião

"UM DIA CAIU DO CÉU UM HOMEM
QUE TEVE O NOME DE FÉTI"

Assim começa a lenda que nos fala da origem do homem no extremo meridional da província do Huambo, junto à confluência do rio Cunhungâmua com o Cunene. Féti, que significa Princípio, vivia triste e só. Para se distrair, foi o primeiro homem à caça do hipopótamo no Cunene. Enquanto esperava na margem do grande rio, vê sair das águas “uma forma humana, muito semelhante a si mesmo: era a primeira mulher, a quem denominou Tchoya” (do verbo okuoya = enfeite). Com Tchoya teve Féti um rapaz a quem chamou de Ngalangi. Mais tarde, nasce uma menina, Viyé (do verbo okuiya = vir). “Queriam os pais significar que aquela filha havia de chamar a si as populações e ser o tronco de uma grande família. E Viyé veio a ser a mãe das raças do norte, isto é, das terras do Bié, enquanto foi o pai das gentes do Sul. Assim contam os Ngalangi e terminam por afirmar que deles descendem todos os habitantes do Bié, Huambo, Sambo, Cuíma e Caconda".
Esta é a lenda contada e recontada ao longo dos séculos. No dia 7 de Janeiro de 2016, por ocasião das celebração do Dia da Cultura Nacional, esteve na estação arqueológica de Féti, datada do século VIII a.C., sobre a pedra solta da que foi, no passado, uma pirâmide com 15 metros de largura e oito de altura, a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, acompanhada pelo governador provincial do Huambo em exercício, Francisco Calunga Quissanga, e outras autoridades locais, para classificar o sítio como Património Histórico-Cultural. Assim, a lenda se molda hoje em Pedras Vivas da Memória Colectiva, cujo relevo patrimonial se corporiza no texto do Decreto executivo 01/16, de 7 de Janeiro, do Ministério da Cultura.
A estação arqueológica do Féti, a 95 quilómetros do centro da cidade do Huambo, preserva a pré-história do povo ovimbundo, pois diz a tradição que é o lugar mais antigo da região centro e sul de África. Féti é considerado um relevante testemunho do domínio da tecnologia e produção siderúrgica, constituindo por isso, também, um museu natural da História da Humanidade.
Dada a sua relevância histórico-cultural, a ministra revelou à imprensa presente no local que, a partir de agora, há que proceder a “um trabalho aturado que requer o apoio de Universidades, Instituições de estudos arqueológicos, quem sabe até do próprio Egipto que é uma referência na construção de pirâmides, para que possamos reconstituir esta pirâmide, protegê-la, proteger o monte das cinzas, proteger as galerias e ir buscar os materiais aqui encontrados e que estão em Portugal e no nosso Museu Regional do Planalto”, enfim, regressar materialmente ao passado, com a reconstituição física desse monumento.

LUGARES DA MEMÓRIA
E DE ESTUDO DA HISTÓRIA

E o mesmo se pode dizer da Ombala Grande do Huambo, em Samisasa, da Estação de Arte Rupestre de Kaninguiri, no município do Mungo, ou das Pedras do Kandumbo, no município da Tchicala-Tcholoanga, que integram agora a lista do património histórico e cultural do país, a par da Praça António Agostinho Neto, no centro da cidade do Huambo. A sua elevação à categoria de Património Histórico-Cultural Nacional consta de diplomas legais exarados pelo Ministério da Cultura que promovem o reconhecimento dos locais como importantes lugares da nossa memória colectiva e para o estudo da História de Angola. Com este acto oficial, e dada a sua importância universal, está dado o passo inicial para serem classificadas pela UNESCO como património mundial da humanidade.
Para a ministra da Cultura, “as preocupações com a inventariação, a classificação dos bens do património, visando a sua valorização e divulgação, tal como se registou ontem na estação arqueológica de Féti, no âmbito do Projecto de Mapeamento das estações arqueológicas do país, (Paleolítico, Neolítico, Arte Rupestre, Túmulos Funerários), é um exercício que repetiremos todos os anos, para o que necessitamos de mobilizar os estudantes para que se interessem mais por estas matérias, pois o país é vasto e estas estão repartidas por toda a extensão do território nacional.”
Kaninguiri, a quase 150 quilómetros a norte da capital da província, tem marcas criativas inscritas num penedo e as escavações arqueológicas, realizadas em 1970, datam as pinturas de entre sete a dez mil anos. Os motivos geométricos representam cenas de caça, animais e figuras humanas, com diferenças cromáticas que vão desde o branco ao amarelo e a várias tonalidades de vermelho.
O forte do Kandumbo, a 25 quilómetros da cidade do Huambo, foi palco da última batalha que culminou com a ocupação colonial do território do Huambo, em 1902, depois de vencida a resistência dos autóctones, sob comando do soberano Ndala Kandumbo. O Dia da Cultura Nacional, este ano, foi “tempo para recordar o Homem das Letras e Cultura, o Dr. António Agostinho Neto, cujo legado teórico sobre a Cultura nos obriga sempre a reflectir e a buscar os melhores caminhos para as soluções que se impõem na abordagem das problemáticas da Cultura Nacional”, disse a ministra Rosa Cruz e Silva. Efectivamente, a Praça Dr. António Agostinho Neto, no centro da cidade do Huambo, classificada como Património Histórico-Cultural de Angola, transformou o espaço que era um símbolo da ocupação colonial construída entre 1935 e 1945, e que antes da Independência Nacional, era a Praça Manuel de Arriaga, num local de honra ao primeiro presidente angolano.
O Executivo angolano vai dar, doravante, uma atenção particular à mobilização de efectivos para a investigação das temáticas da História e da Cultura de Angola, com a criação de parcerias com instituições académicas, com vista a desenvolver-se os estudos sobre todo o vasto universo da diversidade cultural angolana”, frisou a ministra.

AMPLIAÇÃO DA REDE
DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS

“A celebração do Dia da Cultura Nacional é sempre motivo para revisitar e evocar alguns aspectos de realce do nosso património cultural material, imaterial e da nossa história”, afirmou a titular do pelouro da Cultura, Rosa Cruz e Silva, no acto central do Dia da Cultura Nacional, festejado dia 8 de Janeiro no pavilhão Osvaldo Serra Van-Dúnem. Na manhã do mesmo dia, era inaugurada a Biblioteca Provincial do Huambo, no perímetro dos órgãos do Estado da capital do Planalto Central. A animar o acto, esteve no passeio fronteiriço uma festa de mulheres do grupo Katyavala do Bailundo, ao ritmo de tambores e canções.
A Biblioteca do Huambo tem capacidade para dispor de 25 mil livros. Na sua inauguração, o acervo iniciou com a doação, pelo Instituto Piaget, de 1.500 obras de várias áreas e diferentes níveis do ensino, de autores consagrados internacionalmente. Estas obras, segundo frisou no local o representante do Instituto, Domingos Petterson, vão contribuir para despertar e enriquecer os jovens, professores, investigadores e população em geral com vista a aprofundar os seus conhecimentos. A construção desta imponente biblioteca ancora na “visão do Chefe do Executivo, o Presidente José Eduardo dos Santos, que orientou a ampliação da Rede das Bibliotecas públicas, cujo diploma será brevemente aprovado e nos permitirá ter em cada província equipamentos com estas características, pois esta obra obedece aos mais altos padrões técnicos para o efeito, e assim garantir uma melhoria de serviços à nossa população”, realçou Rosa Cruz e Silva.
Em consonância com o escopo da nova biblioteca, o ministério da Cultura inseriu nas actividades alusivas à memória do Dia Nacional da Cultura o lançamento a público da obra Massamba, Prémio Literário Sagrada Esperança 2014, da autoria de Marigan, pseudónimo literário de Manuel Adriano Paulo.
No acto de apresentação da obra vencedora, António F. Costa, presidente do júri, disse que “o que destacou Massamba das restantes obras concorrentes foi substancialmente o seu pendor inventivo, a criatividade e o carácter imaginário que a marcou. Trata-se de uma obra em que a temática central gira à volta da felicidade humana, através da intervenção sagrada de seres mitológicos e mediante o combate aos males e comportamento negativos que arruínam as sociedades, como o ódio, a inveja e a condenação gratuita.”

PRESERVAR O PATRIMÓNIO
IMATERIAL

No discurso oficial alusivo ao Dia da Cultura Nacional, celebrado este ano na bela cidade do Huambo, a ministra Rosa Cruz e Silva destacou o lema “Pela preservação do nosso Património Imaterial defendamos o Cancioneiro Popular”. A ministra afirmou que as comunidades continuam a transmitir as tradições e a mantê-las e, por outro lado, a dar-lhes um cunho novo quando o assunto é a adaptação ao contexto actual da modernidade.
Na linha das recomendações da Unesco que apontam para a formação dos agentes que irão doravante proceder ao levantamento desse mesmo património, Rosa Cruz e Silva disse que “a abordagem do cancioneiro popular tradicional é um desafio que se impõe e cujo sucesso só dependerá do engajamento das comunidades e de todos nós. Cremos que a recuperação das canções, dos jogos e passatempos, consagrando-os na contemporaneidade, inserindo-os nos círculos escolares, fazendo bem ao corpo e à mente, reforçarão o sentido de identidade cultural e o sentido patriótico das nossas crianças.”
Em conversa que o jornal Cultura manteve com um especialista nesta matéria, António Fonseca, assessor da ministra da Cultura, este elucidou que “a celebração do Dia da Cultura Nacional trouxe à tona, de maneira vincada, a problemática do património cultural imaterial, aquele em que se expressam e vivem as tradições, no que ganham relevo os provérbios, os contos e as canções. O mote lançado na ocasião por Sua Excelência a Senhora Ministra da Cultura, Drª Rosa Cruz e Silva, quanto a existência de um cancioneiro nacional, é um desafio que se impõe.
Em nossa opinião, a elaboração, ou melhor, a consagração de um cancioneiro nacional, deve ter em conta vários aspectos como o são a história, os contextos de cada época, assim como a popularidade e notoriedade dos temas, bem como a diversidade cultural, por um lado, e a expansão territorial de tais temas, por outro. Por outro lado, cremos que se deverá ter em linha de conta que a tradição não é estática e que, portanto, ao lado de criações antigas, anónimas, que permanecem e se reproduzem, outros temas surgiram e se consagraram.uma primeira abordagem e como ponto de partida para “conversas” em torno do tema “ cancioneiro”, podemos encarar a sua estruturação, com base nos seguintes grandes grupos que, naturalmente, não deixariam de ter em conta a respectiva tipificação, com base no fim das mesmas:
- Canções Populares Tradicionais, em que tomam relevo o canto-fábula, as canções educativas, as canções festivas. Dão-se como exemplo os temas Mboio, Njila a Kongo, Venância, Tciungue…
- Canções Patrióticas ( ou correlactas). Dão-se como exemplo os temas Tata ku matadi, ula upe, kaputo mwa ngolê, muxima,…
- Canções recreativas. Dão-se como exemplo os temas, Eme Pemba, Kope Sanda Losa, Ku musambe mbiji a yolola, salalé três três, kalingindon, vinte cinco, garrafinha, mayé mayé, etc.
- Novas criações. Dão-se como exemplo os temas Meninos do Huambo, Mandaram-me uma cabaça, Canção do Jardim do Livro Infantil, Professor, Humbiumbi.”

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