Dia Internacional dos Monumentos e Sítios

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Conservação dos bens que compreendem o Património Cultural é bastante exigente

Dia Internacional dos  Monumentos e Sítios
Acto de descerramento da Placa de Clasificação do Sítio

A abordagem em torno da protecção e valorização do Património Cultural tem ocupado, cada vez mais, espaço junto da sociedade, justamente, por ser uma das principais formas de preservação da Cultura como factor de Identidade e, até mesmo, como vector do desenvolvimento socioeconómico.
Simplesmente, a conservação dos bens que compreendem o Património Cultural é bastante exigente do ponto de vista técnico e de investimento muito dispendioso. As actuais dificuldades dos países em desenvolvimento não permitem acções de fundo na recuperação do património, decorrendo daí o grande perigo de se verificar a perda de muitos testemunhos do nosso passado histórico.
As rápidas transformações que se operam nas cidades antigas do nosso País, acentuam a necessidade de uma reflexão em torno da protecção do nosso património e de uma acção imediata e global para a sua recuperação e valorização, tendo em conta que os valores desse mesmo património intervêm na comunicação entre os indivíduos ou regiões, promovendo os valores da Unidade Nacional.
Este ano, a comemoração do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, no nosso País, teve como destaque o reconhecimento merecido de um local de extrema importância para a nossa Memória Colectiva. Referimo-nos ao Sítio Histórico da Batalha de Mbwila (Ambuila), situado na localidade de Zonda, no município de Dange-Kitexe (Uige).
Por ocasião da efeméride, a ministra da Cultura, procedeu ao descerramento da Placa e a entrega oficial do Diploma de Classificação ao governo provincial do Uige, reconhecendo o reconhecimento (Clasificação Nacional) ao sítio como sendo um símbolo da resistência à ocupação colonial dos reinos em Angola. A Batalha de Mbwila ocorreu em 29 de Outubro de 1665. O exército do Reino do Kongo acabou derrotado pelas tropas coloniais portuguesas e o Rei do Kongo Vita-a-Nkanga (António I) que reinou entre 1661 - 1665 e comandava o exército foi decapitado .

MONUMENTOS E SÍTIOS

Os termos “Monumento” e “Sítio” têm diversos conteúdos da linguagem popular à linguagem erudita, o que por vezes dá lugar a ambiguidades ou mesmo “conversa de surdos”…
Correntemente, “monumento”, entende-se como obra rara, central, estruturante de um espaço circundante, impondo respeito, às vezes amor, outras medo. Normalmente, trata-se de estátuas invocativas de certas personalidades ou acontecimentos, sempre relacionadas com uma sociedade no seu todo ou ao nível de uma região, zona ou cidade.
Embora, por exemplo, num dos documentos da autoria de Fernão de Sousa (de uma importantíssima família portuguesa, senhores de Gouveia, depois Condes de Redondo, membros da Casa de Bragança, etc) existentes na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, esteja escrito sobre o Rei do Ndongo, no tempo em que o autor era Capitão General e Governador de Angola (1624 – 1630): “… Ainda que é negro tem nome de rei e está confirmado por sua Majestade e deve-se-lhe cortesia e respeito”. Isso nunca deu origem a que em relação a qualquer rei de Angola, tivessem as autoridades coloniais portuguesas construído qualquer monumento, quer sobre reis angolanos ou outras personalidades importantes da história da “Sociedade Angolana”, nem mesmo sobre os africanos, mestiços ou brancos naturais do País que, diligente e destacadamente tenham servido os interesses portugueses na centenária conquista e ocupação da território de Angola; mas, construíram os monumentos que se podem ver no pátio da Fortaleza de São Miguel (Museu de História Militar) em Luanda e noutros museus do País (Huambo, Huíla, Namibe, etc)… No entanto respeitaram-se esses símbolos da antiga potência colonizadora, recolhendo-os aos museus, bem como se considera que esses e muitos outros legados da História (e do processo da colonização portuguesa), são Património Comum de dois Povos e Países e, por esse motivo quer com o antigo país colonizador, bem como outros, temos Monumentos e Sítios que devemos identificar, proteger e conservar.
Na sequência do que vínhamos a expor, ao Monumento corresponde ainda uma racionalidade construtiva que lhe permite ser duradouro de uma eficácia afectiva, relacionada com os objectivos da sua construção, motivo que se pretende perpetuar, na sociedade em questão. Em geral, a sua importância dimensional, não é paralela ao seu valor simbólico e, por vezes, é o conjunto em que se insere que lhe da sentido de grandeza.
Na Linguagem Latina de que provem a palavra, o seu significado etimológico é “ tudo o que perpétua a recordação” – alargando-se assim o seu sentido, não só às “estátuas” comuns, mas também, aos edifícios ou melhor mesmo, construção em geral, assim como objectos escritos ou sinais – enfim, os próprios materiais da História ou da Memória.
É curioso assinalar que na língua germânica se utiliza o termo “denkal” proveniente de “denken”, isto é, “pensar” e, portanto, será – “tudo o que faz pensar”.
Quanto ao termo “Sítio”, é uma palavra que tem originalmente a neutralidade de ser apenas a noção simples de “posição localizada no âmbito de um espaço”, de uma paisagem, posição relacionada em certos momentos com termos militares mas também, com termo artísticos – o artista, o apreciador, considera-o um ponto da natureza, um ponto de vista (paisagem) privilegiado de onde se pode dominar uma certa visão importante da natureza que ele pretende dominar, utilizar, captar, reproduzir picturalmente, pelo menos “um local digno de ser admirado ou de ser pintado”: assim confisca-se à natureza o conceito de “sítio” para proveito da cultura, do homem...
Pretendemos, portanto, sublinhar que é no âmbito dessa vocação de capacidade geral da natureza humana de dar à própria natureza em geral um sentido dela mesma e conferir-lhe um projecto cultural, o que vimos aqui abordando.
Não há dúvida que as ciências naturais, fundadas sobre a análise racional, puseram em evidência uma correspondência entre as capacidades de organização das informações no cérebro humano e, as estruturas do Universo que lhe são perceptíveis.
Mas, antes mesmo dessas conclusões, quando os homens não tinham ainda entendido essas “revelações” modernas da razão que fundam o empirismo, o antropomorfismo e mesmo as suas relações com o “ministério da criação” manifestavam-se a correspondência entre o homem e a natureza, entre a sociedade e o lugar em que se vive.
Assim, para lá da sua percepção dos ritmos da natureza, o homem reconhece-lhe uma finalidade própria da qual ele impregna as suas obras, tentando assim de conjurar ou de afastar os elementos da natureza que lhe seja pareçam perniciosos, Por isso temos uma “herança de sítios” que no conceito moderno corresponde a uma porção de território cuja conservação é definida por legislação, mas que baseia de facto a sua legitimidade no conceito de “monumento”, já que se trata de um “local que (ele, local) afecta o homem e que é amado pelo homem”…
Assim, embora de substância e amplitude diferentes, “monumento” e “sítio” (no qual, por vezes o próprio monumento está integrado) apresentam analogias evidentes – ambos podem ser analisados e, ambos são portadores de afectividade.
Neste sentido, encontramos ainda uma importante relação dos monumentos e sítios – antes mesmo que o historiador ou o sábio definam um sítio ou um monumento (ou a legislação…) ele é muitas vezes definido obscuramente como um sentimento poético de algumas pessoas e, muitas vezes, expresso efectivamente por um poeta, um escritor, um pintor, um fotógrafo, em critico de arte, um realizador de cinema ou televisão – raros são os seres humanos, que por qualquer razão, não “sentem” um determinado “sítio” ou um determinado “monumento” no seu universo pessoal de emoções.
Alguns desses monumentos e sítios tornam-se objecto de sentimentos colectivos e, são os que nos corresponde tratar também ao nível da sociedade local, regional, nacional, continental ou mundial – são PATRIMÓNIO CULTURAL.
Nesse âmbito e de uma forma muito importante, deve-se ter em conta que no conteúdo de “sítio” entra também o de carácter histórico em sentido amplo, em relação aos sentimentos de uma qualquer comunidade.
Assim, os profissionais, do arqueológico ao arquitecto, passando pelo ecologista, o urbanista, o paisagista, o etnólogo, o engenheiro, o sociólogo, o psicólogo, o conservador, o restaurador, o historiador generalista ou o filósofo, o político e ainda o gestor ou administrador de bens culturais e naturais, as instituições, empresas e associações de todo o tipo, devem ter em conta que eles gerem, por delegação, UM BEM COMUM A TODOS OS HOMENS, tanto os presentes, como os passados e, os futuros.
Pelo que, concluindo, na Humanidade actual, não há de facto cabimento, a um Património Cultural “chauvinista” ou individualizado – independentemente do aspecto formal de propriedade ou territorialidade, o Património Cultural só se entende como BEM COLECTIVO!

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