Do grafito blasfemo de Alexamenos ao jornal satírico Charlie Hebdo

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O cartoon é tão velho quanto a religião.

Quando Jesus Cristo nasceu, o cartoon já pululava nas paredes de Roma. Ridicularizar atitudes, comportamentos e figuras é uma tendência própria do ser humano, reproduzida na própria vida de relação, como nas artes em geral, com primazia para o teatro. Com a consolidação, no seio das sociedades, das religiões, estas não ficaram indemnes a essa tendência inata no homem.
O grafito de Alexamenos (também conhecido como grafite blasfemo) é uma inscrição gravada em gesso sobre uma parede nas proximidades do Palatino, que representa uma figura crucificada de corpo humano e cabeça de burro. (...) À esquerda da figura crucificada, um homem levanta a mão em adoração. Abaixo da cruz há uma inscrição em grego: "Alexamenos adorando Deus".
O progresso humano, principalmente a expansão e o acesso às novas tecnologias de informação tornaram a arte cada vez mais acessível ao comum dos cidadãos e o cartoon ganhou o seu verdadeiro sentido ao entrar para os média. Nos anos 70, dava um certo gozo ver Richard Nixon ou o próprio Papa caricaturado na primeira página dos jornais mais influentes do Mundo.
O século XX, com as suas duas Grandes Guerras, nivelou por baixo as religiões e o culto a um Ser Supremo. O marxismo dizia que “a religião é o ópio do povo” e a revolução hippy e emancipalista da década de 60 na Europa – com destaque para a França – deu o golpe de misericórdia na crença no Além, provocando aquilo que se chama “a banalização” do cristianismo.
Surpreendentemente, o fim da Guerra Fria e a proliferação dos conflitos de baixa intensidade, mais as crises sociais nos países periféricos, tudo uma consequência da unipolarização neoliberal do planeta com as suas assimetrias, e o fenómeno migratório para as cidades, com destaque para as capitais das antigas potências coloniais, trouxe um retorno à Fé Religiosa. Na ausência de soluções materiais para a crise existencial, o Homem hoje volta, outra vez, e em massa, a religar a sua vida à entidade invisível que rege as diversas religiões.
E é neste ambiente global em que as diversas culturas e religiões estão muito próximas, em todo o lado, umas das outras, com os seus conflitos seculares latentes e/ou patentes nas opções extremistas, que o jornal satírico Charlie Hebdo – símbolo da liberdade de imprensa na idade contemporânea – satiriza tudo e todos, inclusive as religiões. Ora, é preciso que se compreenda e estude melhor a História da Humanidade e o papel dos média na sociedade cristã-ocidental. A imprensa ocidental cumpre e muito bem o seu papel de defensora dos ideais “civilizacionais” do mundo eurocêntrico. E na defesa desses ideais compreende-se a ignorância da África (que raramente é vista na TV francesa) e, desde o 11 de Setembro de 2001, a diabolização do povo árabe.
Mas há uma componente – a gesta militar da chamada guerra santa – que o Ocidente abandonou no século XIII (as Cruzadas que, apesar do espírito bélico, transferiram para a Europa decisivos factores de desenvolvimento técnico- científico), mas que o Islão preserva (a chamada Jihad, hoje remetida à sua versão deflagradora de explosões imprevisíveis). Embora com fundamentos, origens e designações diferentes e relacionadas com a cultura religiosa de cada povo, esta componente, a meu ver, não passava nos séculos XI, XII e XIII, e não passa hoje, no século XXI, de uma continuação da acção política pelo meio ideológico mais atraente para as massas: a fé religiosa. Toda a acção violenta e letal que põe a fé religiosa na sua bandeira não passa de um acto de guerra e este não é outra coisa senão a continuação da política por meios mais dissuasores. Portanto, há que se fazer uma separação das águas entre Religião e Política. E essa separação deve, depois dos atentados de Paris contra a redacção do Charlie Hebdo, fazer-se com base em fundamentos que concorram para a Paz e a Harmonia entre os cidadãos do Mundo.
No aspecto da Religião, um desses fundamentos é o respeito pela religião do outro. O Islão não tolera o desenho do seu profeta Maomé. Há que respeitar esse desígnio do Corão. Como contrapartida, há que consagrar o respeito pela liberdade religiosa, em qualquer parte do Planeta.
No que toca às águas da Política, a civilização do nosso tempo, baseada na Carta Universal dos Direitos do Homem, preconiza o respeito incondicional pela Vida e a Dignidade da Pessoa Humana. Hoje em dia, há instituições públicas e privadas e estão divulgados métodos para dirimir conflitos, pela via do diálogo e da negociação, das cedências e entregas recíprocas. Há que respeitar a Vida Humana. Não se apaga uma alma deste mundo por ter desenhado um simples cartoon.

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