Em nome dos meus irmãos

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No octogésimo aniversário de Alda Espírito Santo

Fotografia: Conceição Lima

Hoje cantarei o futuro na dor da nossa mãe, chamarei
[musgo e rocha a tua mão,
Pois do fundo dos dias mantenho na página aberta,
[o perfil do archote.

Alguém um dia entrançou os dedos para agasalhar no
[quintal a chama; alguém ao rio fundiu a própria
[veia para alimentar a sede do solo, o património.

Na água e no fogo, alguém trabalhou a primordial
[circunferência e gravou no centro os nomes dos
[meus irmãos. Será a chácara, toda a cidade,
[o lugar da ceia?

Quem, no silencio, ciciou a senha? Quem, sob os céus da
[praça, içou a inquietude na asa do poema, verso a verso
[amarrando a alça do alforge aos nossos ombros?

Quem, um por um, revelou os troncos e a voz dos pássaros
[e os pés das palayês, nomeou as lavadeiras do Água Grande,
[as trepadeiras, ressuscitou no hino os companheiros
[de Cravid, os mortos em 53 matados?

Quem, altura e testemunha, vela no sopé do Futa Jalon
[a pestana de Amílcar, o riso de Amílcar, as botas
[de Amílcar?

Quem decifrou o testamento de Kwame?
Quem nos mostrou as torrentes do Kwanza?
Que canto confortou a solidão de Pauline? Pauline e
[sua carta de saudade, sua fome de futuro, Pauline
[e Patrice seu amor assassinado, esse amor do Congo?

Não, não falarei do profeta em teu peito: seus sonhos,
[nossas teimas, o limite da sua clarividência, a inexorável
[estrela em nossa testa.

Entre os ramos das goiabeiras e a pele dos livros, respiro.
[Toco o mapa da lua, louça antigas, o vulto de Maria
[de Jesus, os longos brincos de Maria Amélia, Vasco
[e Egídio, os espectros amados. Teus cotovelos fincados
[na borda da mesma austera mesa.

Sirvo-te o chá. Sento-me diante dos teus olhos. Estamos em casa.

In “O Pais de Akendengué”

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