FENACULT: Semiose de cânones e inovações

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A sessão de abertura da segunda edição do Festival Nacional de Cultura (FENACULT II)
moldou-se, na sua linguagem simbólica e patrimonial, como semiose de cânones e inovações
culturais, tendo como signo interpretativo o Carnaval angolano. Deu entrada no tartan do estádio 11 de Novembro, na noite do passado sábado, 30 de Agosto, o grupo União Kazukuta do Sambizanga, seguido pelo não menos folclórico Kabocomeu – sombrinhas a dialogar com a ausência de sol – e mais outros cinco que fizerem o escasso público presente vibrar ao som da iniludível corneta, enquanto o batuque, a dikanza e a puíta ruminavam a sua partitura nas passadas da kazukuta, da cabecinha e do semba e as mulheres a veicular as asas do corpo no
Cacimbo que se despede com a sua névoa romântica. A parte do espectáculo multimédia
fechou ao som do chingufo e dezenas de muquixes listados de amarelo, azul, rosa e verde,
com máscaras tshókwe, iniciaram-se na arte de encantar as raízes do silêncio. Música
de Entrudo refundida num novo Carnaval da Paz. De uma beleza enternecedora. O mais
belo ensaio do Carnaval de Angola.

FENACULT: Semiose de cânones e inovações
Fotografia: Dombele Bernardo

O Vice-Presidente da República, Manuel Domingos Vicente, declarou aberto o FENACULT II, tendo considerado o evento como “a maior mostra da Cultura angolana”, que envolve artistas e intelectuais dos diferentes domínios e representa o resultado dos benefícios da paz. Ao longo de 25 anos não foi possível a organização de um evento desta dimensão, dadas as dificuldades de circulação e as prioridades do Governo, esclareceu o dirigente. Tendo como lema “A Cultura como Factor de Paz e Desenvolvimento”, o FANACULT, disse Manuel Vicente, colocase, perante os desafios hegemónicos da Globalização, como um painel de valores culturais, com um papel importante na afirmação da soberania e da identidade. Foi o propósito de defender o “nosso rico e vasto património cultural e a nossa identidade” que levou o Executivo a prover este festival de quatro em quatro anos, e assim avaliar o estado da cultura no país, visando a definição de novas metas e estratégias, acrescentou o Vice-Presidente
da República.
A ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, ao discursar igualmente na sessão solene de abertura do festival afirmou que este “retomou às nossas vidas e permite avaliar os resultados da aplicação da política cultural do Estado angolano”, e representa o reconhecimento da necessidade do aprofundamento do carácter integrador da Cultura nacional.
Para Rosa Cruz e Silva, o FENACULT é o espaço da livre expressão das manifestações culturais e do intercâmbio entre os fazedores e promotores da cultura. A ministra destacou a excelência do método de trabalho e disse que o festival é uma das respostas ao MUNDIACULT (Conferência Mundial sobre Politicas Culturais), enquadrada na realização dos três simpósios sobre a Cultura Nacional.
Por essa razão, o evento é ainda um espaço nobre de promoção da unidade e da diversidade cultural de Angola, bem como de preservação e divulgação da identidade nacional.
Para além destes objectivos, o FENACULT vai render homenagem ao Presidente José Eduardo dos Santos, pelo seu papel na defesa da angolanidade, empenho e dedicação em prol da valorização e desenvolvimento das artes e da cultura angolana. Vai também assinalar o 90º aniversário do nascimento do primeiro presidente de Angola, António Agostinho Neto.
Através deste evento, o Executivo pretende desenvolver as premissas para a implementação da política cultural em interacção e articulação com o sector público e o privado e divulgar e valorizar as artes e manifestações culturais, populares e tradicionais, o consumo e a valorização dos bens culturais nacionais, mediante a criação de redes culturais a nível local, nacional e internacional.
Em Luanda, que será o palco central do Festival, serão albergados 28 sub-festivais e espectáculos, 25 palestras, 16 feiras, exposições e oficinas, 12 mesas redondas, sete concertos e três colóquios. A grande novidade é o Comboio Cultural que atravessará o pais de lés a lés, sobre os carris da linhas restauradas, como palco ambulante das artes e seus criadores.

Solenidade artística

Depois do hino nacional cantado  por um impressionante coro de 300 vozes, a História de Angola foi contada na sessão solene de abertura do FENACULT 2014 através de um espectáculo audiovisual original com animação tridimensional projectada sobre a tela que cobria o relvado do estádio 11 de Novembro, e no qual participaram 625 intérpretes, numa coreografia especialmente desenhada por Ana Clara Guerra Marques para ser articulada com as projecções de vídeo, músicaoriginal e show de luzes, tendo culminado com fogo-de-artifício.
Seguiu-se um concerto com renomados valores da música angolana, com destaques para Bangão, Carlos Burity, Gabriel Tchiema, Givago, Elias dia Kimuezu, Kiaku Kiadaff e a Banda Movimento.
No final de tudo, ficamos com a impressão de que se o FENACULT 2014 tivesse começado à luz do dia (lá para o meio da tarde) e tivesse sido realizado na mesma cidadela (ou no estádio dos Coqueiros) onde aconteceu o primeiro, teria tido mais testemunhas oculares, principalmente da juventude.

Boaventura Cardoso recorda 1989 “um momento inesquecível”

O escritor e deputado Boaventura Cardoso, ministro da Cultura no ano de 1989, quando nasceu o FENACULT, considerou a Unidade Nacional, como a grande motivação que levou o Executivo angolano a lançar a maior mostra nacional da Cultura. “A Cultura é uma mola impulsionadora da nossa Unidade”, complementou. “Conseguimos fazer convergir ou congregar os agentes culturais, os artistas, os intelectuais à volta de um grande movimento, que teve continuidade, e em todas as frentes, mesmo depois do FENACULT I. Baseámo-nos, na altura, no conceito de Massificação Cultural, que nos levou a interagir com todos os sectores e segmentos culturais integrados em outros órgãos do Estado e da sociedade civil. Por exemplo, trabalhámos com a direcção política das FAPLA.
Realizaram-se festivais e concursos pós-FENACULT.
O FENACULT I levou-nos três anos de preparação. Houve muita mobilização e as actividades começaram um ano antes. Programámos manifestações de âmbito nacional, por forma a que não ficasse tudo confinado em Luanda. O Teatro ficou concentrado em Benguela, as Artes Plásticas em Cabinda, e o Festival de Marimba em Malanje.”
O objectivo foi o de “aprofundar o carácter democrático, popular e revolucionário da Cultura angolana”, naquela época em que “havia um movimento cultural muito mais forte, apesar da situação de guerra”, pontualizou Boaventura Cardoso. O interregno de 25 anos deveu-se, disse o nosso interlocutor, à “degradação da situação político-militar.”
Sobre o regresso apoteótico de um dos ícones da música angolana, Teta Lando, cuja actuação com a música, REUNIR, jamais se apagará da memória dos que lá estiveram na Cidadela de Luanda, Boaventura Cardoso disse que “foi necessário negociar o regresso e a sua participação no FENACULT, até porque já estava em vigor a política de clemência.
Foi um momento inesquecível. Foi um grande desafio, e só não fomos aos municípios, devido à situação político-militar...”

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