História militar de Angola: Uma obra pioneira

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Mas não foram só lutas e guerras de resistência que se travaram no território angolano.

História militar de Angola: Uma obra pioneira
Fotografia: Paulino Damião

Publicou-se em Luanda, em Abril de 2015, uma obra colectiva intitulada "História Militar de Angola", coordenada pelo Tenente General Miguel Júnior e pelo Professor Manuel Maria Difuila, onde colaboram sete outros autores, todos Angolanos (Editora Kilombelombe).
É uma obra pioneira, a primeira sobre a história militar de Angola feita depois da independência e será uma referência incontornável para toda a historiografia futura.
Fazer a história militar de Angola é um desafio imenso, muito em particular quando falamos de uma obra que procura sintetizar 500 anos. É um desafio imenso porque, em primeiro lugar, o território angolano é muito diversificado e complexo, abarcando ao longo destes séculos sociedades muito variadas, com uma organização militar própria e adaptada às suas circunstâncias particulares. Tudo se complica porque houve, não uma, mas muitos tipos de guerra e cada sociedade particular teve uma forma original de resistir à colonização e procurar preservar as suas tradições, cultura e autonomia possível.
Houve de tudo um pouco, desde as sociedades que fizeram pactos com os europeus para melhor se afirmar e até para submeter as vizinhas, até outras que resistiram frontalmente, lançando mão de todos os seus recursos e tentando formas inovadoras para se manterem. Ao longo de cinco séculos, como é fácil de imaginar a situação mudou muito e as sociedades que hoje faziam entendimentos e procuravam a cooperação, amanhã optavam pela resistência militar frontal.
Mas não foram só lutas e guerras de resistência que se travaram no território angolano. Registaram-se igualmente confrontos entre os poderes europeus, desde a conquista de grande parte de Angola pelos Países Baixos, até à sua reconquista a partir do Brasil depois de 1640, às tensões com os Belgas e Alemães no século XIX, à pressão Bóer sobre o Sul no fim desse século, ou à guerra aberta com os alemães em Naulila (1914).
Para entender a complexidade deste projecto basta recordar a imensa riqueza e variedade da história militar de Angola no último meio século. Angola foi o Estado que conheceu mais anos de guerra em todo o continente africano, com mais de três décadas de conflitos permanentes a partir de 1961. Nessas décadas, para além dos Angolanos, lutaram em Angola muitas outras nacionalidades de três continentes: Portugueses, Cubanos, Sul-Africanos, para mencionar somente as nacionalidades mais representadas, a que se podiam somar pequenos grupos de dezenas de outras. Cada uma destas nacionalidades trazia a sua forma própria de fazer a guerra, a sua estratégia peculiar, meios muito diferentes e tácticas e orgânicas a eles adaptadas. Todas elas mudaram e se adaptaram com a experiência angolana que, durante décadas, foi a grande escola prática da arte militar em África, o laboratório onde as últimas novidades a todos os níveis eram experimentadas. Foram guerras de todos os tipos, desde massacres e tentativas de extermínio das populações, a guerras subversivas, contra-subversivas, insurrecionais ou regulares. Angola conheceu nomeadamente as maiores batalhas de blindados da África sub-sahariana, que no continente africano só foram excedidos pelos choques de blindados na Líbia e no Egipto, na 2ª Guerra Mundial, ou pelas guerras no Sinai entre árabes e israelitas. Estamos perante uma experiência riquíssima e única, que serviu de berço para a actual Angola.
Por incrível que pareça, até hoje, 40 anos depois da independência, não havia uma obra que procurasse fazer a síntese desta imensa experiência, abarcando uma das mais importantes vertentes da criação de Angola numa abordagem conjunta. Existiam, obviamente, muitas obras particulares sobre este ou aquele conflito e sobre esta ou aquela operação ou batalha; havia também algumas obras de síntese mais ou menos vastas, sobretudo para o período colonial, onde se destaca o estudo de René Pellisier. Mas faltava a tentativa de juntar tudo, de procurar oferecer uma perspectiva de conjunto e abrangente. É esse imenso vazio que agora fica preenchido e não posso deixar de dar os mais calorosos parabéns aos coordenadores e promotores da obra.
É uma obra final e perfeita? Nada disso! Nenhuma obra é final e fecha um assunto, por maior e mais completa que seja, enquanto a perfeição é um objectivo que não está ao alcance dos homens. Este livro é justamente o contrário: um primeiro passo, uma porta que se abre, uma afirmação da vontade e da maestria de uma primeira geração de historiadores militares angolanos, que se desenha a traços grossos, ainda somente esboçados.
Merece especial destaque o texto inicial, da autoria do Tenente General Miguel Júnior. Merece destaque, em primeiro lugar, porque é o maior, cobrindo cerca de um terço do livro; não é para admirar que assim seja, pois abarca quatro dos cinco séculos contemplados, desde o XVI ao XIX. Mas a principal razão porque merece destaque não é o seu tamanho, ou a vastidão da temática abrangida, mas a sua qualidade. O autor recorre amplamente a fontes primárias, o que, só por si, faz a fronteira entre os amadores e os experientes nesta arte que é a História. Muitos pensam que a História é uma descrição, um amontoado de eventos interligados que se expõem com uma ordenação cronológica. A verdade, porém, é que a História, a que merece esse nome e a maiúscula, não é nada disso, mas sim uma explicação, uma construção lógica que procura conduzir a um entendimento superior do seu objecto, normalmente através da aparência de uma mera discrição. A arte do historiador – e de uma arte se trata – é a de dar uma explicação através da aparente narração.
É justamente isso que Miguel Júnior faz, mostrando-se aqui como um historiador maduro e rigoroso, que vai às fontes primárias, que as cruza, que procura ligações e encadeamentos lógicos para chegar à sua explicação. Faz isto com a distanciação que caracteriza os historiadores de gabarito, procurando cobrir com isenção não só a história da resistência, mas também a da edificação do edifício militar do colonialismo, com ela intimamente ligada e mesmo os significado e os formatos dos choques entre europeus no território de Angola.
Não escondo que nem todos os textos do livro têm uma qualidade semelhante e que é visível que este leque de historiadores está em fases muito diferentes do seu percurso de vida. É normal que assim seja numa primeira obra, que ficará para as gerações futuras como um marco no começo de uma estrada, a primeira tentativa de síntese, vasta e abrangente, da História Militar de Angola depois da independência.

Lisboa, Abril de 2015

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