Histórias de vida na na vida de um país

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No ano em que Angola comemorará o 40º aniversário da sua Independência, vale a pena recordar que, em finais do século XIX.

História de vida na vida de um país
Mulheres de contratados na Lunda Fotografia: Arquivo

No ano em que Angola comemorará o 40º aniversário da sua Independência, vale a pena recordar que, em finais do século XIX, os escritores “angolenses”consideravam que a portugalização significava uma ameaça à sua identidade e ao seu desenvolvimento económico e sociocultural e manifestavam estas suas opiniões em jornais da época, tais como: “A Civilização da África Portuguesa”, “O Comércio de Loanda”, “O Cruzeiro do Sul”, “O Futuro de Angola”, “O Pharol do Povo”, “O Arauto Africano”, “O Muen’exi”, “O Desastre” e “O Polícia Africano”. No dizer de Mário Pinto de Andrade, demiurgo da sociologia angolana, foi “a génese do escrito protestatário” com “correntes de formação de uma consciência nativista – a dos “filhos do País”.
Luanda e Benguela transformaram-se em centros de tertúlia, onde publicamente eram defendidos os ideais da Revolução Francesa e manifestado o desejo de obtenção de uma autonomia política. Das principais personagens de intervenção nestes periódicos sobressaem nomes de jornalistas, escritores e homens públicos, como: José de Fontes Pereira, Cordeiro da Matta, Pedro Félix Machado, Francisco Ribeiro Castelbranco, Pedro da Paixão Franco, António de Assis Júnior; Apolinário Van-Dúnem e Alfredo Troni. Estes, entre outros, acabaram por ser considerados os pioneiros de um jornalismo e de uma literatura verdadeiramente comprometida com os interesses de Angola.
Num período de liberalismo constitucional monárquico e de imprensa livre em Portugal, que antecedeu a instauração da 1ª República, em 5 de Outubro de 1910,“o nativismo exprimia o sentimento colectivo de ser portador de valores próprios, o referente de identificação e confluência das suas aspirações a uma autonomia e futura independência.”Do escol dos intelectuais acima referenciados, optei por inicialmente me debruçar sobre a figura de Pedro Félix Machado, bem como dos seus mais relevantes descendentes, atendendoàs suas proeminentes histórias de vida, quer como operários de cultura, membros de movimentos associativos ou ainda como políticos activos, que, em épocas distintas, souberam sonhar a autonomização da colónia e a independência de Angola.
Da obra literária do intelectual Pedro Félix Machado conhece-se um livro de sonetos intitulado “Sorrisos e Desalentos”, dois monólogos com o nome de “Beijos” e “Uma Teima”, bem como ainda um romance íntimo, publicado em 1891, que dá pelo nome de “Cenas de África”. Neste livro, segundo o jornalista e escritor angolano Alberto Oliveira Pinto, o autor procura demonstrar “como é que o Brasil representou e representa uma referência permanente e persistente no percurso identitário dos angolanos e na sociedade angolana, desde o tempo do tráfico de escravos e da abolição da escravatura”.
Na realidade, até perto do final da primeira metade do século XIX, a economia de Angola dependia ainda de um intenso tráfico de escravos, que eram embarcados nos portos de Luanda e Benguela com destino, sobretudo, ao Brasil. “Angola era pura e simplesmente uma feitoria que, desde o século XVII, era governada pela colónia portuguesa do Brasil e não directamente pelo Reino de Portugal”.
Ainda de acordo com Pepetela, “estatísticas de 1799 revelam que existiam 110 postos de funcionários na colónia de Angola, dos quais 20por cento eram ocupados por mestiços (supomos que de Angola), 6 por cento por brancos nascidos em Angola, 3 por cento por negros e 12 por cento por brancos vindos da metrópole, o que significa que cerca de 60 por cento dos funcionários eram originários do Brasil. Uma outra estatística de 1818 indica que Angola importou do Brasil mercadorias que representavam 95,1 por cento do valor global, enquanto apenas 4,9 por cento vinham de Portugal. Quanto às exportações faziam-se exclusivamente para o Brasil, a saber: 98,6 por cento em escravos, o resto sendo representado por uma percentagem irrisória de cera e marfim. Estes dados revelam que Angola era, de facto, uma colónia do Brasil até à data da independência do gigante sul-americano (7 de Setembro de 1822), colónia especializada no comércio de escravos, o que se reflectiu evidentemente na sua composição social e no seu substrato social”.
Se considerarmos colono o indivíduo que sai da Europa com a intenção de viver permanentemente na colónia – não sendo, portanto, soldado, degredado ou membro do serviço colonial – podemos então dizer que a colonização portuguesa, em Angola, não começou antes de meados do século XIX (1849-1851), altura em que cerca de quinhentos “brasileiros” chegaram ao porto de Moçâmedes (actual Namibe).Tal facto ocorreu por se ter dado, entre 1847-1848, uma insurreição armada na cidade brasileira de Pernambuco.
Angola não era suficientemente atractiva para os portugueses vindos da Europa ou do Brasil. Logo, para que este primeiro processo de colonização pudesse resultar com alguma eficácia, teve o governo de usar métodos de intervenção directa, fornecendo passagens grátis para Angola. Uma vez chegados, era-lhes dada terra, habitação, animais, sementes e subsídios. A este processo chamou-se “colonização dirigida”.
Após a instauração do Estado Novo, em 1933, Américo Alves Machado, familiar de Pedro Félix Machado, foi, segundo Eugénia Rodrigues, “um dos mais dinâmicos e radicais elementos da Liga Nacional Africana” (LNA), cuja Comissão Administrativa integrou, entre Setembro e Dezembro de 1936, juntamente com Manuel Sebastião Pedreira, José Firmino Meireles, Apolinário Edmundo de Carvalho e Lucrécio Africano de Carvalho. Américo Machado dirigiu o Centro de Estudos da LNA e, entre 1936 e 1938, fez parte da comissão do “Angola”, boletim oficial daquela agremiação, assinando inúmeros textos e sendo provavelmente o autor dos artigos publicados sob o pseudónimo de Ludovico Mára.Foi, em 1938, para o Lubango e lá foi redactor de “O Direito”. Em 1944, foi para Lisboa estudar medicina.
Ilídio Alves Machado, nascido em Luanda, em 17 de Dezembro de 1914, funcionário dos Correios e Telégrafos de Angola, foi irmão de Américo Alves Machado e um outro descendente de Pedro Félix Machado. Fundador e presidente da Liga da Mocidade Angolana (LMA), membro de Centro de Estudos e,a partir de Outubro de 1947, redactor de o “Farolim”.A LMA surgiu em 1936,como consequência provável de uma das várias dissidências da LNA. Tinha o propósito de fazer emergir “uma mocidade angolana mais consciente, mais eficaz nos empreendimentos e positivamente mais valiosa dentro da própria terra natal”.
De existência efémera, teve a LMA como promotores: Carlos Alves do Nascimento, “filho de um velho combatente da causa africana” António Botelho do Nascimento; Francisco Octávio Neto (vice-presidente); Guilherme Lima Alves do Nascimento (1º secretário); Luís Maria Nascimento (2º secretário); Eurico de Santana (tesoureiro); Bernardo dos Santos Castelbranco (vogal) e Pedro Trindade Aleixo da Palma (vogal).
A partir de 1948, foi, segundo Edmundo Rocha, “um dos mais dinâmicos e consequentes promotores do nacionalismo angolano. Junta-se aos ‘Novos Intelectuais de Angola’ e, influenciado pelas correntes ideológicas marxistas provenientes do Brasil e Portugal, funda com Viriato da Cruz, em 1955, o Partido Comunista de Angola (PCA) e, depois, o Partido de Luta Unida dos Africanos de Angola (PLUAA), tendo sido um dos subscritores do MANIFESTO de 1956”. Após a saída de Viriato da Cruz de Luanda, viria, com André Franco de Sousa e Higino Aires a dirigir o clandestino Movimento para a Independência de Angola (MIA) e, mais tarde, veio a ser militante do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).
Atrás de uma fachada recreativa e cultural para encobrir toda uma actividade política, o Clube Marítimo Africano (CMA), juntamente com membros progressistas da Casa dos Estudantes do Império (CEI) e membros do Centro de Estudos Africanos (CEA), faziam circular ideias nacionalistas provenientes das ex-colónias portuguesas em África e dos estudantes e intelectuais exilados em Paris. O trabalho de consciencialização política junto dos marítimos, acabaria por ser determinante, já que estes estabelecem uma ligação regular entre a metrópole, as ex-colónias e outros países. Assim, a ligação estabelecida entre diferentes organizações nacionalistas afins, era feita através da troca de correspondência que, por razões de segurança, era transportada em mão pelos próprios marítimos.
O CMA foi, de acordo com Edmundo Rocha, “(…) o inédito ‘soviete’ africano incrustado em terras lusas.”Viu os seus estatutos aprovados em 13 de Dezembro de 1954, tendo sido signatários do pedido de autorização para a formação desta associação recreativa, desportiva e cultural, Raul Francisco Caterça e Humberto do Carmo Alves Machado, irmão de Américo e Ilídio Machado. Humberto Machado, militante da primeira hora do Movimento Anti-Colonial (MAC) e do MPLA, nasceu em 1927, em Luanda. Foi, depois da Independência de Angola, vice-ministro da Agricultura e vice-presidente da Liga Angolana e de Solidariedade com os Povos (LAASP). Faleceu a 23 de Março de 1992.
Estas e muitas outras pequenas e diferentes histórias de vida,passíveis de se constituírem em diferentes estudos de caso, representam pequenas ilhosesde uma grande corrente de ideias e cumplicidades, subordinadas a ideologias e estratégias políticas influenciadas pela Guerra-Fria, que iniciou com o fim da II Guerra Mundial (2 de Setembro de 1945) e terminou com a queda do Muro de Berlim (9 de Novembro de 1989). A lógica de exclusão que se sobrepôs à lógica da complementaridade, caracterizou a divisão do movimento independentista angolano, que, no pós-independência, encontra,com o fim da guerra civil, em 4 de Abril de 2002, o seu sentido mais amplo de identidade: o primado da paz e da angolanidade, em contexto de diversidade cultural e política.

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