Homem de letras e defensor da causa africana

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 Registámos recentemente o passamento físico de Almerindo Jaka Jamba, homem de Letras, filósofo, politólogo, embaixador, político e insigne defensor da Causa Angolana e da Causa Africana. Nascido no Huambo, num dia de Março do ano de 1949, fez a sua formação no Huambo, Lisboa, Genebra, Uppsala e Paris. As suas áreas de formação são a Filosofia, a Linguística, a Diplomacia e as Relações Internacionais.
Vou dividir esta minha breve apresentação, em duas partes. A primeira parte é uma homenagem da Academia Angolana de Letras, que aqui tenho a honra de representar. A segunda parte é um testemunho pessoal, que resulta da convivência com o Mais Velho Jaka Jamba.

Almerindo Jaka Jamba dedicou a sua vida à Causa Africana, tendo contribuído para a difusão do pensamento de autores como Achille Mbembe, Vumbi Yoka Mudimbe, Paulin Hountondji, Jean-Marc Ela ou Cheikh Anta Diop.
As questões ligadas à identidade cultural, identidade nacional, diversidade cultural e línguas africanas estiveram no centro das suas preocupações, tendo inclusivamente apresentado conferências sobre estas matérias. A sua dissertação de Mestrado, intitulada “Construção da Nação em sociedades plurais. O caso angolano” ilustra bem esta sua preocupação com o pulsar africano e o sentir angolano.
Registamos também a tradução para umbundu do livro “Quem me dera ser onda”, de Manuel Rui Monteiro, que Jaka Jamba transportou para as comunidades do Planalto Central, na sua língua materna. A preocupação com as línguas nacionais esteve sempre presente nas suas intervenções, em diferentes momentos da sua acção académica ou política.
Mas as suas preocupações intelectuais superaram em larga medida as questões africanas e angolanas. No seu legado, Jaka Jamba deixa-nos também uma dimensão humanista e filosófica mais ampla, que tem a ver (por um lado) com o contributo que a Ciência pode prestar para execução de políticas públicas que estejam de acordo com o anseio das pessoas e (por outro lado) com o contributo da Filosofia e das Ciências Sociais para uma governação inclusiva.
Todas estas preocupações, Jaka Jamba foi transmitindo às novas gerações. A partir do momento em que foi admitido como docente na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, encontrou espaço privilegiado para a transmissão de valores aos mais jovens, no âmbito da sua formação como seres humanos e como futuros profissionais das Ciências Sociais.
Como embaixador de Angola junto da UNESCO, manifestou grande preocupação com a preservação do património material e imaterial angolano, bem como com a ampla difusão das línguas e dos valores positivos da cultura marcadamente angolana. Recordo-me que chegámos a abordar a séria questão relacionada com o acesso à instrução na língua materna de cada um, que é assunto muitas vezes olvidado pelas autoridades do nosso país ligadas ao sector da educação.
Como político, sempre esteve ligado à UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola, cuja Comissão Política integrou. Foi em representação do seu partido político que Almerindo Jaka Jamba integrou em 1975 (com 26 anos) o Governo de Transição de Angola, como Secretário de Estado da Informação. Foi depois deputado à Assembleia Nacional, onde chegou a exercer as funções de Vice-Presidente do parlamento, de Presidente da 8ª Comissão e de Vice-Presidente da Comissão de Relações Exteriores.
O legado que Almerindo Jaka Jamba nos deixa tem a ver com o facto de a sua formação ter estado alicerçada no Pan-Africanismo, na dimensão ecuménica do diálogo entre culturas e no sentir, no pulsar e nas vivências das suas gentes – o povo do Planalto, os povos de Angola, os povos de África.

TESTEMUNHO
Se me permitem, quero terminar a minha apresentação com um testemunho na primeira pessoa, que resulta da convivência com oMais Velho Jaka Jamba, como eu o tratava. A diferença de idades entre nós é de 11 anos, o que faz dele um irmão mais velho.
Ouvi, pela primeira vez, o seu nome quando da constituição do Governo de Transição de Angola. Vim a conhecê-lo apenas no parlamento angolano, depois do processo de democratização e das eleições de 1992.
Sempre tive admiração por Jaka Jamba, devido a haver grande sintonia entre nós, a respeito de questões de natureza cultural. Muita gente não sabe, mas o meu primeiro local de trabalho foi o Ministério da Cultura, tendo depois seguido para o Ministério da Informação. Só depois vim para a universidade, onde me mantenho até hoje. Portanto, a minha preocupação com as questões ligadas à tradição, aos valores e ao pensar genuíno vem não apenas do processo de socialização, mas também da opção laboral que fiz em 1979. Não admira, pois, que Jaka Jamba e eu (seu mais novo) partilhássemos muitos pontos de vista comuns.
Desde cedo me apercebi que, apesar de termos diferentes origens políticas, utilizávamos o mesmo linguajar para tratar das questões de natureza (digamos assim) cultural.
Mas o mais importante foi dar conta de outro procedimento que tínhamos em comum: o Mais Velho Jaka Jamba sabia “separar as águas” –à política o que é da política, à ciência o que é da ciência. Não é fácil abstrairmo-nos das cartilhas políticas para, trabalhando numa universidade, entendermos que o discurso académico se deve fazer de forma autónoma e sem preconceitos. De facto, tenho de reconhecer que poucos conseguimos fazê-lo. Quão gratificante não foi para mim, aperceber-me desta opção em Jaka Jamba…
É com este testemunho que termino a minha homenagem ao meu colega de faculdade e ao meu confrade na Academia Angolana de Letras, o Imortal Almerindo Jaka Jamba. Saibamos, pois, honrar a sua memória.

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