Igreja da Missão de Kaconda Classificada como Património Histórico-cultural

Envie este artigo por email

Num lugar aparentemente inóspito, longe do centro urbano e fora da rota de estrada principal, (cerca de sete km da sede do Município de Kaconda a Norte da província da Huíla) ergue-se a Igreja dedicada ao Imaculado Coração de Maria, também conhecida como a Igreja da Missão de Kaconda.

Igreja da Missão de Kaconda Classificada como Património Histórico-cultural
Kaconda Classificada como Património Histórico-cultural

História:
Kaconda terá sido um dos pontos mais antigos e avançados da ocupação colonial portuguesa na região do planalto central. Reza a história que as primeiras tentativas de estabelecimento dos portugueses em Kaconda datam da segunda metade do século XVIII, tendo nessa altura sido construída, em taipa e adobe, uma fortaleza e uma igreja paroquial dedicada a Nossa Senhora da Conceição.
Keilling, no seu livro intitulado “40 anos de África” revela que nesse período Kaconda já era ocupada por uma população branca (colonos).
Keelling refere ainda que em virtude dos confrontos entre a população africana e os portugueses, havia na região uma coligação entre vários Sobas (Bondo, Kitata, Tchilombo, Galangue e outros) que desencadeavam investidas contra o presídio português ali estabelecido sob a designação de Hanha.
Segundo Manuel Nunes Gabriel em “Padrões de Fé, as Igrejas antigas de Angola”, essa coligação, acabaria derrotada e o soba Galangue acabaria obrigado a declarar-se vassalo de Portugal. Uma filha deste soba, chamada Tchilombo, teria sido educada em Benguela, onde viveu com um comerciante rico. Por sua vez, tiveram uma filha a quem deram o nome de Maria Kaconda. Anos volvidos, Tchilombo deixou Benguela e voltou para Kaconda com a sua filha.
Entretanto, a região de Kakonda, virá ainda a ser transformada num importante centro de tráfico e concentração de escravos que eram trazidos dos sertões. Eram ali agrupados para serem expedidos para o Benguela, de onde teriam vários destinos, mas particularmente para a América.
Ao mesmo tempo, florescia em Kaconda a cristandade!
Os Missionários do Espírito Santo (Espiritanos) chegaram a Kaconda em 1889, liderados pelo padre Ernesto Lecomte. Estes ficaram junto à fortaleza, na parte sul da povoação. Um ano depois, 1890, foi decidido afastar a Missão da primitiva vila para o novo local.
Nessa mesma altura (1890) e nesse mesmo local, o Padre Lecomte, fundaria a nova Missão de Kaconda num novo local, a qual, veio a desempenhar um importante papel no processo de evangelização de todo planalto, permitindo a formação dos núcleos que mais tarde vieram a florescer outros “projectos” de cristianização nos territórios vizinhos (Bié, Huambo,etc).
A criação do caminho-de-ferro levou a que os Espiritanos no planalto mudassem a sua sede para a Missão do Huambo, com parte do pessoal e uma tipografia. Consequentemente, a velha Missão de Kaconda acabará em decadência.
Em 1892 chagaram ali as primeiras religiosas da Congregação de São José de Cluny, que desde então exerceram uma importante missão junto das comunidades. A partir dessa altura é dado um certo incremento à actividade agrícola: campos irrigados, hortas e pomares; e foram sendo construídos outras estruturas essenciais ao seu “estabelecimento”, nomeadamente, residência para os missionários, dois internatos (masculino e feminino), oficinas de artes e ofícios, etc.
Afectada também pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial na Europa e pela fome que assolou o sul de Angola entre 1915 e 1916, somente a partir do final do ano 1920 a missão retomou o seu vigor, com moinhos, oficinas várias e uma cerâmica. Essas infra-estruturas virão dar vida novamente àquela missão.
O símbolo maior do estádio de recuperação foi a construção da nova igreja. Iniciada em 1927, sob a direcção do irmão Crisóstomo e inaugurada em 1932 e, considerada, na época e ainda nos dias de hoje, como uma das mais imponentes e belas construções da arquitectura religiosa novecentista de Angola.
Possui cerca de sessenta metros de comprimento na nave central, várias capelas e uma torre (num gosto medieval, neo-românico, usando o tijolo maciço). A obra foi projectada e dirigida pelo irmão Crisóstomo e inteiramente erguida com mão-de-obra e materiais locais (fabricados e/ou preparados na Missão), do granito à madeira aparelhada, ao tijolo e às telhas.
A rede de energia eléctrica era fornecida por uma turbina hidráulica que completou a nova fase na vida da Missão. A igreja sobreviveu à guerra civil relativamente ilesa.
Actualmente conserva, relativamente intacta a maioria dos corpos anexos embora quase na sua totalidade em estado de degradação.
Faz parte desse conjunto de construções, um velho cemitério, fundado em 1892, onde repousam os restos mortais de missionários, falecidos em diversas circunstâncias, destacando-se ali os túmulos de padres devorados pelos leões.

Classificação como Património Histórico-cultural Nacional

Considerada como uma das mais belas peças da arquitectura religiosa novecentista em toda Angola, entendeu o Ministério da Cultura, promover a Classificação da Igreja da Missão de Kaconda, através do Decreto Executivo nº 5/14 da ministra da Cultura, por ocasião do dia 18 de Abril, em que se assinala o Dia Mundial dos Monumentos e Sítios .
Trata-se, na realidade de um testemunho da implantação do cristianismo na zona planáltica de Angola que permitiu a disseminação da actividade de evangelização das populações dos territórios vizinhos entre os séculos XVIII, XIX e XX. Será justa a decisão da sua classificação no contexto do património histórico edificado do nosso País, chamando-se atenção para o seu estado de degradação bastante visível.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos