Irene Neto na Academia Galega da Língua portuguesa

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“A língua é claramente uma corrente de circulação que nos aproxima, de forma surpreendente, criando cumplicidades e pertenças históricas, culturais, apesar dos dialectos e subdialectos, falares e subfalares diferentes”, disse Irene Neto, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Dr. António Agostinho Neto no acto de tomada de posse como Académica Correspondente da Academia Galega da Língua Portuguesa, em Santiago de Compostela, Galiza, a 14 de Janeiro de 2017.A VII Edição da Feira do Dondo abriu as portas no dia 9 Dezembro de 2016, na presença do Secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, que a conotou com
“a reconstituição de uma viagem histórica ao encontro do entreposto comercial do séc. XVII, a que se junta um roteiro turístico e cultural, que tinha como ponto de partida e conuência o Dondo”.

Irene Neto na Academia Galega da Língua portuguesa
Irene Neto, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Dr. António Agostinho Fotografia: Jornal Cultura

“A tomada de posse como Académica Correspondente da Academia Galega da Língua Portuguesa de Irene Alexandra Neto, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Dr. António Agostinho Neto e Deputada da Assembleia Nacional de Angola, representa mais um passo no fortalecimento das relações culturais da Galiza com a Angola, iniciadas há mais de um quarto de século pelo Movimento Lusófono Galego, e que nesse ínterim produziram insuspeitados desenvolvimentos”, disse o Académico JoámEvansPim no acto de recebimento da Académica Correspondente Irene Alexandra Neto, na Casa da Língua Comum, em Santiago de Compostela, Galiza, a 14 de Janeiro de 2017. O acto foi ilustrado com a edição comemorativa da antologia Poesia de Amor dos Anos 80 (breve antologia de poemas de José Luis Mendonça, Rui Augusto, J. A. S. LopitoFeijóo K., Paula Tavares, JoãoMaimona e JoãoMelo).
Na cerimónia de tomada de posse, na qual GilvanMüller de Oliveira, presidente do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística do Brasil, foi também empossado como Académico Correspondente, Irene Neto proferiu um discurso de aceitação no qual afirmou que “Venho da África Austral, onde no Sul de Angola, as províncias do Cunene e do CuandoCubango lembravam aos exploradores portugueses as terras do fim do mundo. Chegando eu ao Reino de Espanha, na Península Ibérica, na Comunidade Autónoma da Galícia, passando ao lado do Cabo Finisterra, onde outros descobridores, romanos, pensavam ter chegado ao final do mundo conhecido, vislumbrei alguns paralelismos neste eixo atlântico, de Norte a Sul, não apenas geográficos mas certamente culturais. A língua é claramente uma corrente de circulação que nos aproxima, de forma surpreendente, criando cumplicidades e pertenças históricas, culturais, apesar dos dialectos e subdialectos, falares e subfalares diferentes. Alguns a baptizaram com o fraternal conceito de “irmandades da fala”, juízo que não impede dissidências ortográficas ou mesmo políticas, fonéticas ou etimológicas, no espaço crescente da língua portuguesa para uns e da lusofonia para outros.”
Afirmou ainda que “O quesito das línguas reveste-se de força identitária e é de uma delicadeza, não apenas cultural, como política e económica. Este veículo comum de afirmação, de símbolos e sons, numa musicalidade própria de afectos e histórias, de comércio e de cultura, de preservação e de resistência legítima e até gloriosa, faz com que sociedades tão díspares e distantes, de pé quando o universo se ajoelha perante mundos de maior preponderância, se procurem e se agrupem em academias de letras e comunidades de países, tal como esta Academia Galega de Língua Portuguesa e a Comunidade de Países de Língua Portuguesa.
Tendo Angola adoptado, aquando da sua independência em 1975, o português como língua oficial, esta afirmou-se rapidamente como uma língua nacional, dentro do nosso variado mosaico etnolinguístico. À semelhança do que ocorreu noutros países que foram colonizados por potências estrangeiras, paradoxal e ironicamente, a língua do colonizador acabou por ser o cimento unificador do território nacional, povoado de comunidades com línguas diferentes e um elemento da mesma identidade nacional.
A história da aculturação e assimilação durante séculos travou e atrasou a modernização das línguas nacionais maternas. Assim, para acompanhar os avanços tecnológicos, económicos e culturais, a língua portuguesa, híbrida pelos matizes locais próprios, desde o sotaque à inclusão de vocábulos de outras línguas nacionais, tornou-se no traço de união territorial, de Cabinda ao Cunene e do mar ao leste.
Desde os Descobrimentos portugueses do século XV, a língua portuguesa convive com múltiplas línguas e perdeu a pureza original indo-europeia, itálica, românica, galaico-portuguesa. Podemos dizer que os habitantes dos territórios por onde aportaram as caravelas de Vasco da Gama, Diogo Cão e outros, aprenderam a língua conquistadora mas esta, por sua vez, foi polinizada pelas línguas e costumes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Macau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e persiste ainda no Japão, Malásia, Indonésia, Singapura, Senegal, Togo, Índia, Sri Lanka e até na língua suaíli.
A língua portuguesa tem hoje cerca de 280 milhões de falantes, sendo o português a 4ª língua mais falada do mundo depois do mandarim, do espanhol e do inglês, a 3ª mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul da Terra. Com a eleição por aclamação do Eng.º António Guterres para Secretário-geral das Nações Unidas, o primeiro português para tal cargo, a língua portuguesa poderá ganhar uma nova projecção e visibilidade política, e tornar-se uma das línguas oficiais desse importante organismo internacional.”
Estiveram presentes na cerimónia Rudesindo Souto, presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa e demais Académicos, Alexandre Banhos, presidente da Fundação Meendinho; José LuisFontenla, presidente das Irmandades da Fala da Galiza (que assinaram em 1991 o primeiro convénio com a União dos Escritores Angolanos) e académico de honra da AGLP; Antia Cortiças, presidente da Associação dos Docentes de Português na Galiza e ainda as Deputadas do Parlamento Europeu Lídia Senra, da Alternativa Galega de Esquerda (integrada no grupo parlamentar europeu GUE/NGL - EuropeanUnitedLeft – NordicGreenLeft), a ex-Deputada do Parlamento Europeu (e que será novamente deputada em 2018 pelo acordo de rotação que estabeleceu a sua coligação) Ana Miranda, do Bloque Nacionalista Galego (integrada no grupo parlamentar europeu Greens–EuropeanFreeAlliance).

RETROSPECTIVA
Em 2010 a Academia Galega da Língua Portuguesa, herdeira do trabalho de dinamização das relações da Galiza com o resto do mundo de expressão portuguesa, promoveu um novo Convénio de Cooperação e Apoio Recíproco entre a instituição galega e a Fundação Dr. António Agostinho Neto, em termos muito similares ao formalizado em 1992 entre as Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, representada por José Luís Fontenla e Maria Rosa da Rocha Valente, e a União dos Escritores Angolanos, representada por João André da Silva Feijóo, que lavraram o primeiro convénio de colaboração entre entidades culturais galegas e angolanas.
O protocolo, assinado em 13 de Abril por Maria Eugénia da Silva Neto, Presidente do Conselho de Fundadores da FAAN, Irene Alexandra Neto, Presidente do Conselho de Administração da FAAN, José-MartinhoMonteroSantalha, Presidente da AGLP, e Ângelo Cristóvão, Secretário da AGLP, facilitou, entre outras acções, o apoio do Governo da República de Angola à candidatura da AGLP ao estatuto de observador consultivo da CPLP, processo ainda em andamento, que, sem dúvida, tem ainda muitos frutos por oferecer.

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