Kwanzaa e Ncwala primeiros frutos e novo ano Afrikano

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A  ‘Celebração dos primeiros frutos’ e de um ‘Novo Ano Afrikano’ 

Kwanzaa e  Ncwala primeiros frutos e novo ano afrikano
Ncwala

Kwanzaa, ou “Nesse Mar tem Rio”

É interessante observar-se as várias manifestações culturais criadas pelos Afro-Americanos para se manterem tão próximos quanto possível das suas origens ancestrais. Na verdade, em várias áreas da sua vida, eles criaram mesmo uma espécie de ‘micro-cultura’ de inspiração Afrikana, embora nem sempre com uma clara ou directa correspondência nas práticas culturais observáveis no Continente – o que se deverá, por um lado, aos sincretismos culturais e religiosos de vária ordem e diferentes origens que os conformam e, por outro lado, às varias (per)mutações e con(sub)jugações culturais verificadas em Áfrika ao longo dos séculos.
É o caso do Kwanzaa (também grafado Kwaanza), que é actualmente celebrado por mais de 20 milhões de pessoas um pouco por toda a Diáspora Afrikana nesta esta altura do ano, durante sete dias – de 26 de Dezembro a 1 de Janeiro – coincidindo com o período do Natal Cristão (e também do Judaico Hanukkah) e do Ano Novo. O seu nome poderia ter sido inspirado no nosso, inteiramente angolano, Rio Kwanza, mas, das fontes que nos foi até agora possível consultar, tal inferência nao é explícita.
Kwanzaa deriva da expressão kiSwahili “matunda ya kwanza”, que significa “primeiros frutos”, ou “começo” – apelando ao acto da criação, tal como acontece no Natal Cristão. Porém, sendo o kiSwahili uma língua Bantu e Pan-Africana, torna-se de algum modo intuitivo que o nosso Kwanza possa ter nela o mesmo significado e, sendo o único rio afrikano com esse nome, somos facilmente levados a concebê-lo como o “começo” de um longo percurso que, do Oceano Atlântico em que desagua, fez com os navios negreiros a travessia para as Américas e lá fertilizou o chão do qual continuam a brotar todos os anos os “primeiros frutos” da “nossa colheita ancestral”… Ou, inspirando-nos no título da canção belamente interpretada pela brasileira Maria Bethânia, dito de outro modo: nesse Mar, que separa a Áfrika da sua Diáspora, tem Rio e esse rio tem um nome e é nosso: Kwanza!
A criação da celebração do Kwanzaa, em meados da década de 60 do século passado, ficou a dever-se ao então militante do Movimento Negro Americano, hoje Professor de Estudos Africanos nos EUA, Ron (Maulana) Karenga, que apresentou na altura o seu objectivo como sendoo de “proporcionar aos Negros uma alternativa às festividades natalícias existentes e dar-lhes uma oportunidade de se celebrarem a si próprios e à sua história, deixando assim de simplesmente imitar as práticas da sociedade dominante.”
Anos mais tarde, perante uma crescente aderência de pessoas de várias origens e crenças religiosas ao Kwanzaa, Karenga viria a reformular os seus postulados iniciais em ‘Kwanzaa: A Celebração da Família, da Comunidade e da Cultura Afrikana’ (1997), afirmando: “O Kwanzaa não foi criado para proporcionar às pessoas uma alternativa às suas próprias religiões ou festividades religiosas; o seu significado e mensagem central estão enraizados na elevação e propulsão do modelo ancestral Africano de produzir, colher e partilhar o bem no mundo. O Kwanzaa enfatiza a importância de plantarmos as sementes da bondade em todo o lado, de as cultivarmos com cuidado, amor e carinho, de colhermos os produtos dos nossos esforços com alegria e partilharmos o seu bem por toda a comunidade e pelo mundo. Daí que, de todas as formas ricas e caras em que podemos expressar o significado e a mensagem do Kwanzaa, nenhuma é mais importante do que vê-lo e abraçá-lo como uma época de celebração do trazer o bem para o mundo.”
Ou, de forma mais sucinta, como o narrou a poeta Maya Angelou, falecida em Maio deste ano, em ‘The Black Candle’ (A Vela Negra – a vela central da celebração do Kwanzaa): “É um período em que nos reunimos no espírito de família e comunidade para celebrarmos a vida, o amor, a unidade e a esperança.”
Durante os sete dias do Kwanzaa, praticam-se vários rituais, envolvendo libações, acender de velas, oferta de presentes e um banquete precedido de jejum e abstinência. Poder-se-ia então dizer que, nesse aspecto, não difere muito do Natal Cristão ou do Hanukkah. Mas, é o significado, em kiSwahili, de cada um dos sete dias do Kwanzaa, designados ‘Nguzo Saba’, ou ‘Os 7 Princípios da Herança Africana’, baseados no ‘Kawaida’ (expressão kiSwahili que combina ‘tradição’ e ‘razão’), que Karenga descreveu como “o melhor do pensamento e prática Afrikanos, em constante permuta com o mundo”, que estabelece a diferenciação:
Umoja (Unidade): Obter e manter a unidade na familia, comunidade e nação;
Kujichagulia (Auto-Determinacao): Definirmo-nos a nós próprios, nomearmo-nos a nos próprios, criar por nós proprios e falar por nós próprios;
Ujima (Trabalho e Responsabilidade Colectiva): Construir e manter a comunidade coesa e fazer nossos os problemas dos nossos irmãos e irmãs e resolvê-los em conjunto;
Ujamaa (Economia Cooperativa): Construir e manter as nossas próprias propriedades, lojas e negócios e partilhar em conjunto dos seus lucros;
Nia (Propósito): Fazer nossa vocação colectiva a construção e o desenvolvimento da nossa comunidade, com o objectivo de restaurar a grandeza tradicional do nosso povo;
Kuumba (Criatividade): Fazer sempre tudo o que pudermos, como pudermos, por forma a deixarmos a nossa comunidade mais bela e benéfica do que como a herdámos;
Imani (Fé): Acreditar com todo o nosso coração nos nossos semelhantes, pais, professores, dirigentes e na justeza e vitória da nossa luta.

Os Símbolos e Cerimoniais
do Kwanzaa

O ‘mkeka’ é uma esteira geralmente feita de palha que simboliza a história e a tradição ancestrais como a fundação sobre a qual todos os outros símbolos do Kwanzaa assentam. O ‘kinara’ é um candelabro de sete receptáculos, representando as origens do povo Africano. As ‘mishumaa saba’ (sete velas) representam os Sete Princípios (ou ‘Nguzo Saba’) acima descritos para cada dia da celebração: no centro, a vela preta representando ‘Umoja’, à sua esquerda três velas vermelhas representando ‘Kujichagulia’, ‘Ujamaa’ e ‘Kuumba’, à sua direita três velas verdes representando ‘Ujima’, ‘Nia’ e ‘Imani’. Os ‘muhindi’ são as espigas de milho que representam os brotos (crianças) dos galhos (os pais da casa). Os ‘Mazao’ são os frutos e vegetais representando as colheitas. Os ‘zawadi’ (presentes) representam a recompensa do trabalho dos pais e os frutos das sementes plantadas pelos filhos.
Embora o cerimonial do Kwanzaa não faça explicitamente referência ou apelo a um ‘Ser Supremo’, é frequente encontrarmos na base do ‘kinara’ o símbolo Adinkra ‘Gye Nyami’, ou Gyé Nyamé – com o mesmo significado nas línguas Akan/Ashanti da África Ocidental (Gana, Togo e Costa do Marfim) ou nas línguas Lingala e Kikongo da África Central (Zaïre, Congo e Angola): Sé Nzambé ou Sé na Nzambé – Só Deus/ A Supremacia de Deus, ou Tudo nas Mãos de Deus (cf. fontes orais Yako Tanga e Sadi Ulo).
A cerimónia do acender das velas, central à celebração do Kwanzaa, tem lugar quando todos os membros da família estão presentes, com destaque para as crianças. Inicia-se com o ‘Tambiko’ (libação), uma forma Afrikana de louvação com que se presta homenagem aos ancestrais pessoais e colectivos. A começar, o Mais Velho da família verte vinho, sumo ou uma bebida espirituosa do ‘Kikombe Cha Umoja’ (Copo da União) sobre a terra ou sobre um recipiente cheio de terra. Enquanto verte o líquido, o Mais Velho faz um discurso de homenagem aos membros da família falecidos pela inspiração e valores que deixaram aos descendentes.
Depois do ‘Tambiko’, como um gesto de união, o Mais Velho bebe do ‘Kikombe Cha Umoja’ e, em seguida, passa-o para todos os presentes o partilharem, posto o que lidera a chamada do ‘Harambee’ (Unamo-nos!) a que todos respondem repetindo-a sete vezes. Na noite de 31 de Dezembro (sexto dia) observa-se o ‘Karamu’, uma alegre celebração festiva com comida, bebida, dança e música para o colectivo da família e amigos. É uma ocasiao de júbilo, reavaliação e reengajamento. Os ‘Kawadi’, presentes para as crianças, brinquedos e artefactos, geralmente feitos à mão, ou livros, poderão ser abertos durante o ‘Karamu’, ou no dia final do Kwanzaa, quando se observa o ‘Imani’.
Mas, na tentativa de estabelecer uma relação mais firme, coerente e objectiva entre o nosso Kwanza e o Kwanzaa da Diáspora Afrikana, em consulta com o estudioso e divulgador cultural Angolano Yako Tanga, obtivemos dele as seguintes formulações: “Analisando o conteúdo de valores do Kwanzaa, os Ngúzo Sába (7 Princípios), os símbolos da prosperidade (rio, peixe e moeda), agricultura (rio), trabalho colectivo (peixe) ou cooperativa (pescarias), empreendedorismo (indústria ligada ao sector fluvial) e energia (barragens, etc) que o Kwanzaa leva quando bem entendido, a ajuda mútua (likelemba, créditos mais humanos e micro-créditos), o respeito à nossa Tradição africana (Kawaída / KiMúnTu / Ubúntu / Kemet / Adínkra, etc) casam-se bem. Enraizado no passado, firme no presente e rumo a um futuro nada menos vitorioso e harmonioso. Kwanzaa ajuda ao ReNascimento de um Povo Afrikano, em todos os lados que ele se encontra no Mundo, tornando-o mais forte, completo e no caminho mais certo. Kwanzaa é a ideia Panafricana da “diáspora” e, sobretudo, Kwanzaa-Sankofa do Adinkra. Ele vai ReColher todos os valores positivos do passado e, considerando o presente, projectando-se no futuro, ReOrganiza a nossa luta aos níveis múltiplos de forma coerente: Cultura, Economia, Espiritualidade, Indústria, Educação, Autonomização, Potenciamento de cada um como Povo, etc.”

Ncwala: Um Novo Ano Afrikano

Fazendo regressar a nossa memoria ancestral ao Continente Berço, encontramos um ‘parente próximo’ do Kwanzaa na nossa região: o Ncwala (tambem escrito Incwala) – o mais importante cerimonial tradicional anual em alguns países da África Austral, especialmente na Swazilândia, no Malawi e na Zâmbia.
Mas, é na sua celebração na Swazilândia, país que mantém de forma mais genuína as suas tradições, que nos iremos deter. O Ncwala sagrado ou, tal como o Kwanzaa, designado “Cerimónia dos Primeiros Frutos”, que está neste momento a decorrer naquele país, tem lugar em finais de Dezembro/princípio de Janeiro de cada ano e destina-se a renovar a força do Rei e da Nação Swazi para o ano seguinte.
Tendo visto o significado e os rituais do Kwanzaa, é-nos possível estabelecer paralelos significativos entre este e o Ncwala, nomeadamente no que diz respeito ao período do ano em que tem lugar, a sua duração, o lugar central dos “primeiros frutos”, a atribuição de significados específicos a cada um dos dias em que são celebrados, o regresso simbólico às terras ancestrais e à água (dos rios e do mar). Tais paralelos tornam-se perfeitamente evidentes à luz do facto de ambos terem as suas raízes nas “Celebrações dos Primeiros Frutos” relevando das Culturas de vários povos Afrikanos, que, sendo embora a eles anteriores, encontram referências históricas desde o Antigo Egipto e a Núbia.
Nao é feito qualquer anúncio da data oficial do dia principal do Ncwala. É o quarto dia depois da lua cheia mais próxima do dia mais longo, 21 de Dezembro. O Ncwala significa “cerimónia dos primeiros frutos”, mas a prova da nova colheita pelo Rei é apenas um aspecto entre muitos neste longo cerimonial, também chamado “Cerimónia do Reinado” – quando não ha’ Rei, não há Ncwala. Constitui alta traição a realização do Ncwala por qualquer outra pessoa. Todos os Swazis podem participar nos actos públicos do Ncwala, especialmente no seu clímax, o quarto dia do Grande Ncwala. As figuras centrais são o Rei, a Rainha Mae, as esposas reais e seus filhos, os governadores reais (indunas), os chefes, os regimentos guerreiros e os bemanti ou “gente da água”.
Na lua cheia de Novembro, os bemanti partem da casa da Rainha Mãe em dois grupos: um, maior, que se dirige a kaTembe (Catembe, sul de Maputo – considerada a terra ancestral da Nação Swazi), para recolher água do mar e outro, mais pequeno, que vai recolher água dos principais rios nacionais. Os bemanti regressam à capital real com a lua nova de Dezembro. Tem então lugar o Pequeno Ncwala, marcado por dois dias de danca, música e rituais que são taboo durante o resto do ano. Catorze dias depois começa o Grande Ncwala, que assim decorre:
Primeiro Dia: Apanha do Lusekwane – Rapazes solteiros convergem para a aldeia da Rainha Mãe, de onde o Rei lhes ordena que marchem cerca de 50 quilómetros até Egundvwini para cortar ramos de lusekwane (um arbusto local) sob a luz da lua cheia.
Segundo Dia: Deposição do Lusekwane – Os rapazes regressam por volta da meia noite e depositam os seus ramos de lusekwane num enclausuramento especial no curral real. Enquanto os rapazes descansam da sua jornada, os mais velhos entrançam os ramos entre os postes do inhlambelo – o santuário privado do Rei.
Terceiro Dia: Dia do Touro – Manhã: jovens rapazes cortam ramos do imbondo negro (outro arbusto local) que são adicionados ao inhlambelo. Tarde: enquanto o Rei recebe os remédios tradicionais no seu santuário, um touro negro é atiçado para fora do curral. Os rapazes do lusekwane agarram e dominam o touro e retornam-no ao santuário. Aí é sacrificado e dele são retirados ingredientes rituais para o tratamento do Rei.
Quarto Dia: O Comer dos Primeiros Frutos e o Lançamento da Cabaça – O dia principal: todos os principais participantes realizam um cerimonial espectacular dentro do enclausuramento, onde o Rei e regimentos guerreiros aparecem vestidos em indumentária feita de peles de boi e leopardo e envergando os seus adereços de guerra. O Rei trinca e cospe certas plantas da primeira colheita no seu inhlambelo. Em seguida, come parte do interior de uma cabaça (abóbora) sagrada, luselwa, e lança-a para fora do inhlambelo, onde é apanhada com um escudo negro por um dos rapazes do lusekwane. Só depois deste ritual é permitido ao resto dos Swazis consumirem as novas colheitas.
Quinto Dia: Dia de Abstinência, Descanso e Meditação – O Rei permanece em reclusão na “grande cubata”. Os bemanti circulam pela capital real fazendo cumprir as regras deste dia: nenhum contacto sexual, tocar em água, uso de adornos, sentar em cadeiras ou esteiras, apertar de mãos, coçar-se, cantar, dancar ou galhofar.
Sexto Dia: Dia do Tronco – Os regimentos guerreiros marcham para uma floresta e regressam com troncos de lenha. Os mais velhos preparam uma fogueira no centro do enclausuramento. Nele são queimados certos objectos rituais, marcando o fim do ano velho, enquanto os participantes principais dançam e cantam canções que são tabu durante o resto do ano. O Rei mantém-se em reclusão até a lua cheia seguinte quando, para significar o início do novo ano, os ramos do lusekwane são removidos e queimados numa monumental fogueira, sendo então os espíritos dos ancestrais invocados para a apagar com água da chuva. O Ncwala termina com um grande banquete.
E assim nasce um Novo Ano Afrikano, no Continente Berço e na sua Diáspora...
Ana Koluki

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