LAÚCA: Reveladas evidências de ocupação humana muito antigas

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Orio Kwanza reivindica para si a fama de ser dos mais importantes de Angola.

LAÚCA: Reveladas evidências de ocupação humana muito antigas
LAÚCA: Reveladas evidências de ocupação humana muito antigas

Não somente pela sua extensão mas, principalmente, porque nos vários espaços à sua borda, desencadearam-se muitas das mais importantes cenas da história do país.
Fazendo recurso à história, tais espaços eram, antes do período de ocupação colonial lusitana, habitados por núcleos da população africana organizados política e economicamente, sendo que um desses corresponde ao antigo Reino do Ndongo, ou seja, o Estado dos Mbundu. Não estranha, por isso, a existência de um rico acervo espelhando valores e testemunhos históricos e culturais, materiais e imateriais, que os investigadores e as instituições, lenta e pacientemente, vêm descobrindo e revelando.
Até recentemente, ninguém imaginava que, na região de Nhanga ya Pepe, adstrita à comuna de São Pedro da Kilemba (Kambambe, Kwanza-Norte), na Pedra Laúca e à sua envolvente (zona periférica do projecto de Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca) pudesse existir um rico espólio histórico e cultural, ou seja, um vasto capital de informação e conhecimento.
O espaço é caracterizado por uma diversificada rede de sítios arqueológicos da pré-história recente, composto por estruturas amuralhadas ou fortificadas, túmulos megalíticos e grutas com espólio diverso, estabelecendo, a partida, uma perfeita simbiose com a paisagem natural.
Tudo indica que aquela região terá sido ocupada pelas comunidades desde épocas muito recuadas, ou melhor, um território ancestral. O conhecimento sobre estas ocupações é escasso e, por isso, foi durante muito tempo, considerado, simplesmente ilusório, sobretudo pela aparente ausência de testemunhos físicos.
Porém, o que acontece, muitas vezes é que, as comunidades mantêm oculta a localização de muitos desses sítios e testemunhos físicos  reservando-os, geralmente, para seus fins rituais especiais, como forma de manter o seu valor ou carácter simbólico e sagrado!
E Laúca é um bom exemplo daquilo que acabamos de aqui referir. A existência de troços de antigas muralhas, estruturas com aparência de torres de vigia, uma extraordinária quantidade de túmulos de antigos soberanos e ainda uma gruta (um alongado corredor escavado na pedra com galerias) onde se pode achar artefactos do quotidiano bastante antigos, ao que parece, foi mantida oculta pelas populações durante muito tempo.
Há, evidências muito claras da existência de muitos outros túmulos dessa natureza naquela região! A deslocação e desintegração progressivas de pedras, resultante da acção natural são tão evidentes que alguns túmulos já danificados (parcialmente) permitem observar, no seu interior, ossadas humanas muito antigas.
Os cuidados estéticos atribuídos aos túmulos parecem corresponder a uma espécie de estratificação social. As autoridades tradicionais daquela região explicam que muitos desses túmulos não serviam ao eterno pouso, como tal, dos mortos, mas sim como um depósito de ossos, ou seja, ossários.
Essas construções megalíticas funerárias, de acabamentos refinados ou não despertam, efectivamente, o misterioso culto à morte e a crença de uma possível vida após morte pela população que habitava o espaço. A própria orientação para o horizonte onde despontam os principais astros (o sol, a lua e as estrelas) são disso prova.
Quanto às muralhas, estas evidenciam o cuidado ou a preocupação que as antigas comunidades tinham com relação à defesa do seu território. Recordamos que a região em questão, no que concerne à sua rede hidrográfica, é afectada pelo rio Kwanza com presença de uma ocupação de regime florestal e agrícola. Logo, se pode entender porque razão já em épocas recuadas as comunidades terão ali fixado.
Já na parte escavada da Pedra Laúca onde se desenvolve um longo corredor “escavado”, encontram-se artefactos importantes (sobretudo objectos do quotidiano). Do variado conjunto destacam-se alguns vasos esféricos, uns lisos e outros com incisões, diferentes fragmentos, materiais manufacturado como a cestaria, com indícios de serem muitos antigos mas, ainda assim, relativamente bem conservados.
Na verdade, não será possível para nós determinar aqui a relação entre os túmulos e os objectos depositados na gruta (Pedra Laúca). Os elementos depositados podem sim determinar o domínio das antigas comunidades quanto à produção cerâmica e cestaria, o qual se encontra evidenciado pela presença abundante no local.
Contudo, podemos assegurar que a população daquela região terá escolhido a gruta (Pedra Laúca) como local para actos sagrados. A forma como os objectos estão depostos evidenciam alguma sacralidade e simbolismo.
A existência desses objectos etnográficos/ arqueológicos no local, deve ser objecto de reflexão e de estudos adequados, pois não há qualquer informação relativamente a importância arqueológica do sítio. Aquela região foi pouco explorada sob o ponto de vista da arqueologia.
Os especialistas em antropologia, história, etnografia, arqueologia e outros deverão desenvolver estudos que possibilitem a percepção tanto dos aspectos socio-culturais como espaciais das comunidades que ocuparam o espaço no passado.
Em nosso entender é também conveniente dar-se um tratamento de prospecção prévia à zona, acautelar medidas protecionistas (classificação do sítio ou dos bens) sob pena de alguns desses locais e bens serem prejudicados no âmbito do desenvolvimento do Projecto de Aproveitamento Hidroeléctrico, em curso naquela região.
Com estas medidas e acções estaríamos sim, em condições de garantir a subsistência desse espólio como elementos de informação e de preservação da nossa Memória Colectiva.

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