Luanda, nossa Nguimbi

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Luanda não é só a Rua dos Mercadores, nem a Mutamba, nem a Baixa, nem a Baía onde, quando
a maré estava baixa, desaguavam os esgotos a céu aberto, e que cederam o seu lugar a um jardim e de futuro a vinte e cinco torres de betão. É muito mais. É o espaço acolhedor, são as suas gentes, vindas com a guerra e com o pós-guerra, os seus cheiros que variam entre a maresia, o óleo velho de fritar a magoga e as frutas das zungueiras que com elas deambulam pelas ruas, o calor dos próprios corpos, os sons dos Ndeles, garças cândidas de bico preto e patas amarelas, e dos corvos brancos de asas negras, à beira mar, é o seu nome, que foi mudando, ao longo de vários séculos.

Luanda, nossa Nguimbi
Marginal de Luanda Fotografia: Jornal Cultura

O sol abrasador, a chuva refrescante, o pólen das acácias dançando com o vento da tarde, os pássaros cantando em sinfonia querendo abafar o ruído do trânsito de automóveis, os edifícios competindo entre si o rompimento da atmosfera, e as gentes deambulando pelos antigos arruamentos com características de arquitectura tradicional da velha Luanda.
Este é o retrato da cidade onde dei os primeiros passos, onde aprendi as primeiras letras, enfim, onde vi pela primeira vez a luz do Mundo, no longínquo ano de 1962. Num pequeno número ímpar da Rua dos Mercadores morava a minha mãe, Esmeralda Moreira Bastos, e aí vivi e cresci e dela pude ouvir as vivências, aspirar os cheiros e imaginar o passado.
A Rua dos Mercadores é uma das artérias da cidade classificada como imóvel de interesse público1 , situa-se nos Coqueiros, na Baixa de Luanda, nasceu, cresceu e não mudou, tal como eu, recebendo a bênção do Catolicismo, primeiro das Capelas, a do Espírito Santo, edificada em 1628, e a Capela do Corpo Santo, que se situava onde era o Sindicato do Comércio, que deram lugar à Igreja dos Remédios, construída em 1651-1679, e que foi Sé Episcopal de 1825 até bem depois da Independência de Angola, em 1975.
No Sobrado de dois pisos, onde a minha traquinice me fez cair, com um ano de idade do piso mais alto até ao rés-do-chão, era possível ver os fiéis que se dirigiam para a Procissão, os comerciantes que no outro tempo trocavam peças que eram homens e peças que eram tecidos, marfim, mera, urzela, produtos importados como vinhos finos e licores, ouvir as fanfarras do desfile militar do Dia da Cidade, 15 de Agosto, Dia da Restauração de Angola, em que se comemorava a vitória atribuída a Salvador Correia de Sá e Benevides, sobre a ocupação holandesa, (de 24 de Agosto de 1641 a 1648), as salvas lançadas da Fortaleza de São Miguel, os bailaricos nos salões, cheirar a maresia e o esgoto da marginal, sentir o carinho das bessanganas ornadas com oiro, com coração jóia, e viver brincando.
Outrora havia uma praça importante no burgo, que se desenvolvia debaixo de um tambarineiro2, cujos ramos se estendem a não permitir a penetração do Sol, e que no princípio da Estação das Chuvas deixa cair em pequenos cachos um fruto agridoce, castanho, com uma casca fácil de tirar e com um carocinho bom de chupar.

MUTAMBA

A praça de que vos falo, a partir da qual se irradiava toda a actividade comercial e não só, e nela estava concentrada a atenção governamental, continuou sendo importante, mesmo depois do abate do arbusto por volta de 1886, sendo que o seu nome, Mutamba, persistiu toponimicamente e daí entre o povo a pronúncia da seguinte frase “ Luanda é Angola, a capital é Mutamba, e o resto é capim”.
A palavra Mutamba é ainda traduzida, ora como peixe, espécie de cação, como largo, e como tambarineiro, cuja casca do caule serve de revestimento de ligação nas quindas.
Mas Luanda não é só a Rua dos Mercadores, nem a Mutamba, nem a Baixa, nem a Baía onde, no meu tempo, quando a maré estava baixa, desaguavam os esgotos a Céu aberto, e que cederam o seu lugar a um jardim e de futuro a vinte e cinco torres de Betão. É muito mais. É o espaço acolhedor, são as suas gentes, vindas com a Guerra e com o pós-guerra, os seus cheiros que variam entre a maresia, o óleo velho de fritar a magoga 3 e as frutas das zungueiras4 que com elas deambulam pelas ruas, o calor dos próprios corpos, os sons dos Ndeles, garças cândidas de bico preto e patas amarelas, e dos corvos brancos de asas negras, à beira mar, é o seu nome, que foi mudando, ao longo de vários séculos.
Seja qual for o nome atribuído a este espaço geográfico quando aqui chegou Paulo Dias Novais em 10 ou 20 de Fevereiro de 1575, já depois de ter estado em 1560 na Barra do Kwanza, o que consegui saber é que a ilha que era a Mina (de concha Caurim) do Rei do Congo, e que foi chamada pelo colonizador primeiramente Ilha das Cabras e mais tarde Ilha de Luanda, faz com o Continente uma baía de águas calmas, por isso foi o local considerado o melhor porto de mar jamais visto para navegação, cujas águas vazam do Oceano Atlântico para o Rio, e que faz Terra Baixa, o que em língua local significa Loanda.
Na literatura consultada, deparei-me com as palavras Loanda e Luando, significando esteira, um conjunto de fibras entrelaçadas, que poderiam ser de palmeira, papiro ou outro material, consoante a região, e que têm uma panóplia de serventias, como cama, mesa, assento rasteiro e cobertura nas habitações tradicionais. Na região da cidade de Luanda, distingue-se esteira de luando. Por serem de materiais e estrutura de elaboração diferentes, a primeira enrola no sentido da largura, e o luando enrola sobre o comprimento. Daí eu achar ser correcta a associação, luando, ao nome da cidade de Luanda.
Ao nome deste nosso espaço geográfico, cobiçado por portugueses e holandeses, foi acrescido São Paulo, por ter sido no dia de São Pedro e São Paulo, 29 de Junho, que o Rei conguês, Ngola Kiluange Kya Samba, enviou um Emissário aos referidos ocupantes, para com eles negociar a sua entrada e permanência, pois estes estivam ao largo vários meses sem que tivessem autorização para atracar todos os seus barcos na Baía.
Também diz a história que o nome São Paulo se deve à homenagem feita pelos próprios colonizadores, a Paulo Dias Novais, neto de Bartolomeu Dias, também navegante, que comandou as fragatas até à entrada da Ilha do Rei do Congo.
Quando Paulo Dias Novais chegou à Ilha de Luanda, já como Capitão Donatário, em 1575, existia nesse local uma Embala com as suas cubatas, os seus autóctones, devidamente organizados ao redor do Rei Ngola Kiluange Kya Samba. Só um ano depois é que o Capitão Donatário consegue chegar à encosta do morro, onde hoje está a Fortaleza de S. Miguel e estender o seu domínio. Embora a Carta de Doação desse todos os poderes para a constituição de uma Vila, só em 1605 é que esse espaço geográfico a que hoje chamamos Cidade de Luanda recebeu Foral.
A carta de doação que o Rei português deu a Paulo Dias Novais descrevia plenos poderes sobre as terras de Sebaste, na Etiópia inferior, (diga-se parte do actual Estado de Angola ), o que já era uma alforria para o território. Mas só em 1605 é que esta recebeu de direito o foral dando-lhe o estatuto de cidade, e por isso neste ano de 2017 comemoramos quatrocentos e doze anos (412) da sua fundação. Embora a maior parte dos historiadores e o próprio Governo Provincial de Luanda, considere a fundação da cidade no ano de 1576, comemorando assim este ano quatrocentos e quarenta e um (441) da sua fundação.
Esta Terra Baixa, querida por todos, foi ocupada, no ano de 1641, pelos holandeses, determinados a tomar conta de posições espanholas, Portugal nessa época era regido pela Espanha, para apanharem o tráfico de escravos e os próprios escravos, para as plantações do Brasil onde já tinham ocupado posições.
Sete anos depois da ocupação Holandesa, eis que por incumbência do Rei de Portugal, D. João IV, chegam ao mesmo local várias Caravelas portugueses, comandadas por Salvador Correia de Sá e Benevides, e em 15/25 de Agosto de 1648, entrando outra vez na nossa terra, este diz que ao chegar teve uma visão de Nossa Senhora de Assumpção e foi esta que os ajudou a retomar a cidade. Sendo daí acrescido mais um nome à já então cidade, que passara a chamar-se São Paulo da Assumpção de Loanda.

DE LOANDA A LUANDA

Não ficando por aí a historia, a ficção ou até a invenção, dizem os livros que os portugueses, ressabiados com os holandeses, apelidados de Mafulos na “Gloriosa Família “ de Pepetela, não gostavam da semelhante sonoridade da palavra Loanda com Holanda, e por isso mesmo, decidiram chamar-lhe Luanda.
O nome da nossa Nguimbi, segundo Assis Júnior, escrito com um acento grave no primeiro “a”, portanto Luánda significa embaixada, mensagem de um soberano. Com todo o sentido, podemos remeter ao encontro que o emissário do Rei do Congo teve com o do Rei de Portugal. Por sua vez este porto marítimo mas também lacustre, pois as aqui as águas do rio misturam-se com as do mar, foi adquirindo um papel importante no mundo, pela saída de mão-de-obra escrava e de produtos raros e até únicos, como a concha Caurim, o Nzimbo, peixes e matérias primas, certas rochas ornamentais, sílica e outras, que na exportação os comerciantes pagavam impostos aduaneiros, a que chamavam Aduana e que A. de Assis Júnior diz ser o significado de Luánda.
Os súbditos do Rei do Congo prestavam vassalagem pagando tributo em conchas Caurim, ou seja em Nzimbo, e esta prestação era chamada de Loanda.
Por sua vez o local onde se pagava o imposto aduaneiro, onde é hoje o campo dos coqueiros, tomou o nome do próprio tributo, era chamado de Luánda.
Mas ainda não ficamos por aqui. A palavra Luanda também aparece com o significado de etnia. “É um Luanda”, dizem os mais velhos. Mas este Luanda não é um qualquer, referem-se a uma pessoa de etnia mista.
Quanto aos naturais da cidade, são ainda aventados vários nomes e formas de escrever a palavra. Chamam-nos os Loanda, os Luandinos, os Luandenses, os Calús, os Caluandas, os Camundongos, por nos considerarem espertos no sentido de ratos, os Mukua-Luanda, mas sempre distinguindo-nos com os naturais da Ilha de Luanda, que poderiam ter dado o nome à cidade, aos quais chamam de áxiluandas, os lançadores de redes, pescadores, ou muxiluandas.
A nossa cidade é linda, não só por ser minha, mas porque a natureza a favoreceu sobremaneira, pelo clima, pela costa marítima de praia, e principalmente pelas pessoas, nós é que fazemos a cidade, nós é que a animamos ou a entristecemos, nós é que a somos.
A cidade tem de ter habitações, se só tiver serviços é fantasma à noite e aos feriados e domingos, logo o conceito estandardizado, ou nuclear, de cidade, passa a estar alterado, se formos todos viver para a periferia, ou até para cidades satélites. Esta tentativa de tornar a cidade de Luanda fantasma começou na colonização. O colono começou por nos empurrar da Ilha de Luanda para o continente, e deste para cada vez mais longe da costa marítima.
Primeiramente, foi o Rei Ngola Kiluange Kya Samba coagido a abandonar a sua embala, na Ilha, juntamente com os seus súbitos, tendo malembe-malembe, devagar devagarinho, caminhado território adentro, fazendo algumas paragens onde plantava uma Mulembeira (Ficus Welwitschii Warb) e, se esse rebento pegasse, aí permaneciam algum tempo, a Mulemba uaxa Ngola, ou seja, a Mulemba que Ngola deixou, até que se refugiou em Pedras Negras de Pungo Andongo em Malange.
A introdução e a exploração do território à beira mar era galopante, a intenção era afastar os autóctones da área de influência do colonizador, assim as famílias de comerciantes como a Anacleta Lopes Teixeira, proprietária de grande parte dos terrenos onde hoje é a Mutamba, foi daí desalojada, no princípio do século XX, e empurrada para o actual Largo da Ingombota, tendo mais tarde sido novamente desalojada, para que nesse mesmo local se instalasse o mercado com o mesmo nome. Foi esta precariamente instalada na longínqua periferia da Rua do Maculusso. Hoje neste espaço funciona um departamento do Governo da província de Luanda
Hoje a cidade desertifica-se de pessoas à hora do fecho dos serviços, caminhando milhares delas como que em peregrinação, para longe da cidade antiga, à excepção das economicamente avantajadas que permanecem na cidade em edifícios recentemente construídos.
Durante várias décadas, comemoramos em família o aniversário da minha avó, Cândida Elisbão, no dia 25 de Janeiro, e era discutido entre os mais velhos, porque não seria esse o dia estipulado para as comemorações do dia da Cidade de Luanda. Não pelo facto de a minha avó fazer anos nesse dia, embora ela merecesse tal dignificação, pois tratou toda a sua vida pessoas, tradicionalmente, de doenças da terra e não só, com suas mãos milagrosas e milongos por ela confeccionados. Mas por ser o dia do Apóstolo São Paulo, que, tal como a minha avó, nunca esqueceu e sempre pregou as suas origens.
O Apóstolo São Paulo era judeu e foi obrigado a converter-se ao cristianismo, tal como os nossos antepassados, mas não deixou de pregar o Evangelho Segundo Jesus Cristo com ditames autóctones. Daí ter sido intitulado Apóstolo dos Gentios. É este também o patrono dos escritores.
Falando de escritores, aproveito para render a minha singela homenagem ao escritor, poeta, serigrafista, pintor, músico, que nos deixou no dia 8 de Dezembro de 2016 com 81 anos de idade, tendo este amado a sua cidade e dela muitas letras escreveu e cantou. Deixo aqui o poema “Luanda (debruçada sobre o mar)”, de Eleutério Sanches, com parceria de Armando Miranda:

Luanda

Debruçada sobre o mar
Onde as ondas uma a uma
Vêm desfazer-se em espuma
À tua ilha beijar

Luanda
Da Fortaleza em pendor
Na expressão de uma aguarela
Que o artista com fervor
Pintou majestosa e bela

Luanda
Do batuque pela noitinha
E as acácias em flor
És tu Luanda a Rainha
Senhora do meu amor

A Cidade tem brazão registado na Torre do Tombo em Lisboa, constituído por um escudo bipartido com a imagem de Nossa Senhora da Conceição na parte direita, em campo azul e a de São Paulo na parte esquerda, em campo vermelho; sobre o escudo poisa a coroa Ducal. Nossa Senhora da Conceição é orago da Sé e, S. Paulo, o patrono da cidade.
A cidade somos nós, os naturais, os amigos, os que a têm na Muxima.
A esta Luanda bivalve de luxuosos edifícios e de tradicionais cubatas de pau-a-pique, de gente de dentro e de gente de fora, de terra vermelha e areia branca, de água doce e sal marinho, de sabor a iodo e alegre de Semba, de sol constante e oiro brilhante, eu deixo o meu perpétuo Henda.

SANDRA POULSON

Luanda, Dezembro de 2016

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