Mbanza Congo mais próxima do Património Mundial da UNESCO

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Em Mbanza Congo, capital da província do Zaire, as escavações permitiram identificar um conjunto de bens materiais, que, pelo seu valor próprio, podem ser considerados de interesse relevante para a permanência e a identidade da cultura de um povo. A memória histórica de Mbanza Congo acumulada sob o barro secular da capital do Zaire encontra-se hoje documentada e reflecte o importante intercâmbio de valores humanos num dado período do Encontro das Civilizações Europeia e Africana, representa um testemunho único da tradição cultural e da civilização do antigo Reino do Congo, para além de revelar exemplos de edifícios, de um conjunto arquitectónico e tecnológico e paisagístico que ilustra fases significativas na história da Humanidade. Em conformidade com a Convenção da UNESCO para a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural, esses vestígios, a tradição oral ainda viva e a vasta documentação existente enquadram a cidade nos critérios para a sua inclusão na Lista do Património Cultural da Humanidade e engrossam o dossier de candidatura do centro histórico do Norte de Angola a património mundial da UNESCO que deu entrada neste organismo das Nações Unidas, em Paris, no passado dia 30 de Janeiro de 2015.

Mbanza Congo mais próxima do Património Mundial da UNESCO
Mbanza Congo Património Mundial da UNESCO

A entrega formal da candidatura daquela cidade histórica da província angolana do Zaire cumpriu o calendário anunciado em 2014 pelo Ministério da Cultura de Angola, para a última fase dos trabalhos.
Depois de formalizada a entrega do dossier final, a UNESCO vai agora fazer deslocar uma equipa para comprovar no terreno os dados do documento.
No seu discurso por ocasião do Dia da Cultura Nacional, a ministra Rosa Cruz e Silva realçou “ facto do nome desta cidade, antiga capital do Reino do Congo voltar a ecoar pelo mundo dada a sua candidatura a património mundial da UNESCO.” Este facto, referiu a ministra, “faz evocar e destacar a História de Angola e do Reino do Congo em particular, pelo contributo cultural que fomos dando ao mundo, e, do mesmo modo, do que dele recebemos numa relação de parceria, e intercâmbio, iniciada no Século XV após as primeiras expedições dos portugueses, pelo que incorporamos e expandimos. Desde o período da implantação do cristianismo e respectiva expansão, a cidade testemunhou a construção de 12 igrejas o que lhe valeu o título de Kongo dya Ngunga, o ensino das letras e da aritmética, foi uma prática regular. Propunham-se os reis do Congo transformar o Congo num estado cristão, pelo que a adopção de determinados aspectos dos valores europeus revelam essa capacidade de receber mas também de dar. Hoje, pelas razões desta candidatura, sabemos mais sobre esta realidade, tal como o atestam e documentam as fontes escritas, orais, quer ainda as fontes iconográficas e finalmente pela arquitectura religiosa como o Kulumbimbi, as ruínas da primeira Catedral ao sul do Sara, em torno da qual nasceram lendas várias, quer ainda pela árvore sagrada Yala Nkwo que para nós pode bem ser um símbolo da Paz e da concórdia se atendermos ao significado do Nkwo no contexto da cultura Congo.”
Durante uma visita a Angola, em Janeiro, o chefe da Unidade Africana do Centro do Património Mundial da UNESCO, Edmond Moukala, afirmou que os resultados da candidatura deverão ser conhecidos até Junho de 2016.
O centro histórico de Mbanza Congo está classificado como património cultural nacional desde 10 de Junho de 2013, pressuposto indispensável para a sua inscrição na lista do património mundial. Envolve um conjunto, cujos limites abrangem uma colina e que se estende por seis corredores. Inclui ruínas e espaços, alvo de escavações e estudos arqueológicos que envolveram especialistas do Museu de Arqueologia, da Comissão Científica do Ministério da Cultura e das Universidades de Coimbra (Portugal) e Yaoundé (Camarões).
Os trabalhos arqueológicos realizados no local compreenderam a medição da fundação de pedras descobertas no local denominado de “Tadi dia Bukukua”, supostamente o antigo palácio real.
Passaram igualmente pelo levantamento da missão católica, da casa do secretário do rei, do túmulo da Dona Mpolo (mãe do rei Dom Afonso I, enterrada com vida por desobediência às leis da corte) e do cemitério dos reis do antigo Reino do Congo. Os arqueólogos angolanos e estrangeiros recolheram quatro mil peças diversas (artefactos, ossadas humanas e outros utensílios) detentores de vestígios do passado para posterior análise laboratorial nos Estados Unidos da América. Para além das escavações arqueológicas, os especialistas procederam ao estudo documental feito em vários países, como França, Bélgica, Alemanha, Portugal e no estado do Vaticano, que detêm vários documentos inéditos sobre o reino do Congo.

Apoio da UNESCO

O projecto para a classificação da cidade de Mbanza Congo a Património Mundial da Humanidade foi inaugurado com a realização de uma Mesa Redonda Internacional, em 2007, denominada “Mbanza Congo, cidade a desenterrar para preservar”. No mesmo ano, tiveram início as escavações arqueológicas que permitiram a recolha e a descoberta de vários artefactos e locais de interesse histórico cultural.
As pesquisas incidiram também sobre a tradição oral o que facilitou a delimitação do centro histórico de Mbanza Congo, através de 12 fontes de água que circundam a cidade e apontam para o momento da fundação do Reino. Os técnicos chegaram à conclusão de que todos os elementos fundacionais do Reino do Congo se encontram patentes e bem visíveis.
Toda esta azáfama inspirou a ministra da Cultura a propor a abertura de uma escola de arqueologia e do museu do Zaire, “como forma de se garantir a formação de mais especialistas, bem como acolher as peças recolhidas no processo de escavação arqueológica do dossier Mbanza Congo."
Rosa Cruz e Silva confiou ao jornal Cultura que “o governo de Angola tem um protocolo assinado com a UNESCO e, por essa via, beneficiamos de assessoria técnica, a UNESCO fez a contratação dos especialistas que nos têm vindo apoiar. Foram encontrados vestígios, não apenas da presença portuguesa, mas também vestígios que remetem para um período anterior (à época pré-colonial) com algumas cerâmicas, enfim, nós estamos ansiosos com os resultados destas escavações e algumas delas já foram submetidas a laboratório, excepto estas últimas escavações e o trabalho continua. Temos também assessoria técnica da UNESCO, com acções de formação, foram realizados workshops, seminários, nomeadamente sobre uma das tarefas importantes do dossier de candidatura que acaba de ser apresentado, que é o Plano de Gestão. Estou confiante que todo esse esforço desenvolvido pelas equipas mistas vá resultar nessa nomeação da primeira cidade da África Subsariana.”
Segundo a ministra, a cidade de Mbanza-Kongo terá continuidade de trabalho arqueológico porque a atracção turística levará grandes movimentos para essas zonas. Já existem sinais desse exercício. Mbanza Kongo vai ser uma escola de Arqueologia.

Outros sítios arqueológicos na lista de candidatura

Rosa Cruz e Silva confidenciou que “neste momento, Angola tem três locais eleitos para candidatura. Para além da cidade de Mbanza-Kongo, temos as pinturas e gravuras rupestres de Tchitundu-Hulu que fazem parte de um grande complexo de Arte Rupestre. Para além desta e doutras próximas do local (descobriram mais catorze estações) de arte rupestre, pinturas espectaculares que existem na província do Namibe.
Também encontramos esta arte na província de Benguela. Visitámos Sambo, um morro com pinturas a preto-e-branco muito interessantes. São várias as estações de arte rupestre em Angola. Em quase todo o litoral se podem encontrar e acredito que também as haja no interior. Por exemplo, existem pinturas no Alto-Zambeze, existem pinturas na província do Zaire e Kwanza-Sul também é um local que acreditamos que entrará na lista. Depois de Mbanza-Kongo e Tchitundu-Hulu o terceiro local é o corredor do Kwanza que tem um património pré-colonial e pós-colonial muito importante, tem todo aquele simbolismo das comunicações com o interior que era feita pelas populações indígenas e que precisa muito de ser dado a conhecer e divulgado. Sobre o corredor que vai da Barra do Kwanza até Cambambe, fixando-se no Dondo, temos muito material. Recentemente, a empresa Odebrecht deu-nos nota, da existência de túmulos funerários em pedra na barragem do Iaúca. As equipas estiveram lá, foi preciso a intervenção de alpinistas que a Odebrecht contratou e assim foi encontrado um local de culto e cerâmicas, é um mundo de realizações dos períodos mais antigos que vai precisar de muitos técnicos e de muitas mão para serem revelados”, concluiu a ministra-historiadora.

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