MISOSO:Pedras angulares da Filosofia Cultural de Angola

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Como se sabe, a literatura oral é funcional na media em que responde a uma necessidade e tem uma utilidade social.

MISOSO:Pedras angulares da Filosofia Cultural de Angola
Fotografia: Arquivo

Como se sabe, a anteceder a palavra escrita, todas as comunidades humanas criaram obras que veicularam oralmente e, ou, registaram através de imagens nos mais diversos tipos de suportes. É o nosso caso igualmente. Tal como os outros povos, as comunidades etnolinguísticas angolanas possuem também uma produção expressiva de tais textos orais, a par de outros iconográficos, cujas expressões mais conhecidas entre nós e que chegaram aos nossos dias são os textos desenhados na areia, os tus(s)onaCokwe e os provérbios urdidos em esteiras ou entalhados em tampas de panela, entre as comunidades de Cabinda. Tais textos orais, constituídos por narrativas, provérbios, poemas, adivinhas, genealogias, récitas, enfim, pelos demais géneros que podem ser elencados na literatura tradicional, para lá do seu valor estético e educativo, condensam as normas de valor chamadas virtudes, entendidas estas como a arte de bem se conduzir em sociedade, sendo aí encontradas concepções sobre a família, o trabalho, a justiça, a solidariedade, a coragem e, de um modo geral, todos os princípios e normas que regem a vida em tais sociedades, ao mesmo tempo que condenam as práticas tidas como defeitos. É neles, como escreve Cordeiro da Matta, citando Chatelain, que habita “a alma da raça inteira”.Neles “se condensou a experiência dos séculos e ainda hoje se reflecte a vida moral, intelectual e imaginativa, doméstica e política das gerações passadas”, e presentes – acrescentamos nós.
São normas ditadas pela experiência da vida; são normas consolidadas pelo seu uso e práticas reiteradas; são normas aprendidas para garantir o bom funcionamento, o funcionamento equilibrado dessas sociedades.
Não é por exemplo ingénuo dizer que a força do rio Lukala está nos seus afluentes, ou que foi o vivaço que ensinou o parvo a ser esperto, ou que dois espertos não caçam phukus, que se ainda não condenaste um filho que geraste, ainda não decidiste um julgamento…
É pois indesmentível portanto que, ancorando-nos na cultura Ambundu e na língua Kimbundu, já que esta é a língua original de Luanda e aqui falamos, os misoso e os jinongongo, salvaguardas as variantes desta língua que têm para os misoso também a designação de Jisabu em alguns espaços, (“nós dizemos jiseleng’enha ou jiheng’le e não jiselengenia.(…) Também se diz ifika e no Quanzaifaneka. Em vez de misoso dizem misabu”- escreveu Cordeiro da Matta.-,) os misoso e os jinongongo constituem as pedras angulares da filosofia cultural de Angola, sendo portanto determinantes ou, pelo menos, fortemente influenciadoras, do agir e da conduta social.
A este propósito, importa revisitar o que escreveu o notável escritor, dicionarista e etnógrafo no preâmbulo ao seu livro“Philosophia Popular em Provérbios Angolenses” subtitulado “ Jisâbu, Jihéng’êle, ifika, nimimbu”, publicado em1890, o primeiro unicamente de um angolano em que, integrando vários provérbios da área linguística kimbundu e apresentando algumas notas à classificação dos géneros da literatura tradicional avançados por Chatelain no livro a que faz referência, se pode ler:
“Qual seja a importância dos provérbios angolenses, sob o ponto de vista syntaxico e lexicológico para o estudo do Kimbumdu, já o demonstou com conhecimento de causa o Sr. HéliChatelain nas notas preliminares do seu KimbnduGrammar; por isso abstermo-nos de o fazer. Sobre este assumpto escreveu o dito senhor a pag. XVII do seu livro o seguinte: « Resta-nos falar da literatura puramente nacional, a qual é, sem duvida, a mais valiosa e interessante, não obstante ainda não ter encontrado quem a apreciasse e a tornasse publica pela imprensa. Consta de um rico thesouro de provérbios ou adágios ( jisabu), de contos ou apólogos (misoso), de enigmas (jinongonongo) e de cantigas, aos quais se podem juntar as tradições históricas (malunda) e mythológicas, os ditos populares, ora satyricos ou alusivos ( jiselengenia), ora alegóricos ou figurados (ifika); em todos os quaes se condensou a experiência dos séculos e ainda hoje se reflecte a vida moral, intelectual e imaginativa, doméstica e política das gerações passadas: a alma da raça inteira”.
Por vezes, quando falamos desta temática, somos tentados a circunscrevê-la a um passado rural e remoto ou a comunidades relativamente fechadas sobre si mesmas. Porém, uma análise deste tipo revela-se deficiente por ignorar que a mudança, resultado do intercâmbio natural ou forçado, ocorre em todas as sociedades a todo o momento e que, se por vezes é rápida e perceptível, outras vezes é gradual e dificilmente perceptível, a ponto de nem ser notada no momento pelos próprios membros da comunidade em que ocorre. Consideramos que não pode ser ignorado o papel da tradição oral angolana nos nossos dias, pois é nela “que se encontra a fonte principal das explicações e dos sentimentos que constituem os móbeis do agir social” e é através dos géneros da sua literatura tradicional como os missosso, os jinongonongo, os mimbu, independentemente da sua forma de nomeação, que se encontram as normas de valor chamadas virtudes, entendidas estas como a arte de bem se conduzir em sociedade, sendo aí encontradas concepções sobre o trabalho, a justiça, a solidariedade, a coragem, o respeito pelo outro e pela diferença, concepções que de resto, apesar dos aspectos particulares de apresentação, assumem geralmente um carácter universal entre nós.

Oralidade
Tal é para nós uma verdade pois se observarmos a realidade que nos está mais próxima e nos é familiar, podemos constatar que mesmo nos dias de hoje, entre populações que conhecem a escrita ou pelo menos a ela têm acesso, entre pessoas que apenas falam a sua língua nacional ou que apenas falam o português ou, noutros casos ainda, sejam bilingues, questões essenciais como a história dos clãs ou das genealogias das linhagens, as normas do direito costumeiro, se vejam transmitidas verbalmente de geração em geração, num quadro de oralidade. Seria pois ilusório pensar que a tradição oral tivesse perdido a sua vitalidade, sendo substituída pela palavra escrita e pelas instituições do Estado, mesmo na cidade, quando se sabe que ainda hoje é comum, encontrar práticas culturais antigas entre os naturaise entre muitos imigrados para as cidades e seus descendentes nascidos no novo meio e mesmo escolarizados, possuírem frequente ou habitualmente dois nomes: um nome de adopção, o do bilhete de identidade e um outro, o nome próprio ou da comunidade e que, por outro lado, as instituições por si trazidas sobrevivem algumas vezes à margem do Estado e do Direito e outras vezes harmonizando-se com estes, no que assumem particular relevo os óbitos e os casamentos costumeiros, circunstâncias em que se torna mais evidente todo o peso da tradição, toda a riqueza da elementos culturais em presença .Aliás, dados estimados de 1995 revelados então ao programa “Conversas no Quintal”, da T.P.A, indicavam que Luanda tinha uma população de 2,5 milhões de habitantes, fortemente marcada por uma imigração rural. Se a imigração para Luanda é diversificada e até 1975 apenas um em cada dez imigrados vinha do campo, na actualidade de então, que se terá acentuado profundamente por força dos processos migratórios provocados pelo conflito que o país viveu, a razão é de um para seis o que faz de Luanda um espaço fortemente marcado pela cultura rural. Em todo caso, é de sublinhar que ponto de vista da sua estrutura populacional, naquele asno Luanda apresentava um forte substrato kimbundo representando pelo menos 58% da população.
A propósito deste assunto importa lembrar que Angola constitui uma realidade complexa, heterogénea na sua geografia humana, diversificada na sua geografia física sendo marcada por desequilíbrios no seu desenvolvimento. É uma realidade onde a tradição coexiste com elementos de modernidade e onde ilhas de tecnologias de ponta coexistem com técnicas tradicionais. Por outro lado importa dizer que a diversidade cultural angolana resulta das suas comunidades históricas; porém, a cultura angolana não é uma manta de retalhos nem uma amálgama de diversos elementos culturais. Na verdade, a cultura angolana é o conjunto de diversas culturas maioritariamente bantu, a que se juntam os elementos culturais de outros grupos populacionais e que, mais do que coexistirem, entre si mantêm processos de troca e de intercâmbio que acabam por dar corpo e sentido à angolanidade.

Valores culturais
Nos misoso, jinongonongo e demais géneros da textologia tradicional angolana, também chamada de muitas outras formas dentre as quais literatura tradicional, literatura oral e oratura, em todos os contextos socioculturais e linguísticos da mesma encontramos as normas de conduta pelas quais se regem as nossas comunidades. São esses valores culturais que na sua diversidade dão a matriz bantu à cultura angolana e dão corpo e sentido à angolanidade, um dos principais fundamentos sobre os quais se ergue a nação Angolana.
É pois com esses valores que temos de equacionar o nosso futuro de homens igualmente aptos no domínio da ciência e da técnica e para que, tal como afirmou o Presidente José Eduardo dos Santos no seu discurso sobre o estado da nação, “a paz se venha a tornar na principal força identitária entre os angolanos de todas as origens, convicções políticas ou crenças religiosas e para que se mantenha entre nós o espírito de união, de tolerância e de respeito pela diferença e pelos valores em que assenta a democracia.”
A realidade que emerge do facto de os “Misosonijinongongo” serem “pedras angulares da filosofia cultural de Angola”, não pode pois ser e ignorada na nossa vida quotidiana e nos processos educativos das novas gerações, sobretudo se atendermos a que, como afirmou o Presidente José Eduardo dos Santos,”nesta era da globalização, em que cada país é um mercado integrado no mercado global, em que a informação, os valores da cultura universal e as normas da civilização ocidental se disseminam sem fronteiras, quem não é capaz de administrar o seu mercado e preservar os valores da sua identidade, transformando-os em contributo ao processo global, fica sem expressão”.
Cremos pois ser oportuno lembrar a propósito da celebraçãodo Dia da Cultura, o que o Dr António Agostinho Neto dizia, a 8 de Janeiro de 1979, na União dos Escritores Angolanos. Cito:
“Na nossa primeira fase, e do ponto de vista cultural, há que analisar. Não adaptar mecanicamente. Há que analisar profundamente a realidade e utilizar os benefícios de técnica estranha, só quando estivermos de posse do património cultural angolano.” E acrescentava: “(…) será necessário aprofundar as questões que derivam da cultura das várias nações angolanas, hoje fundidas numa, dos efeitos da aculturação dado o contacto com a cultura europeia e a necessidade de nos pormos de acordo sobre o aproveitamento dos agentes populares de cultura e fazermos em Angola uma só corrente compreensiva da mesma. (…) Penso que é necessário o mais alargado possível debate de ideias, o mais amplo possível movimento de investigação, dinamização e apresentação pública de todas as formas culturais existentes no País, sem quaisquer preconceitos de carácter artístico e linguístico.”- fim de citação.
Por tal facto, insisto, que não se pode pensar que a literatura oral tenha ficado no passado. Pelo contrário, ela convoca-nos para a solução de problemas actuais e contemporâneos. Por isso impõe-se perguntar qual o lugar e o papel que a literatura oral pode ter um país moderno e próspero como desejamos seja Angola e o da utilização dos divertimentos populares tradicionais, os contos, as canções, as adivinhas e os provérbios, os misoso, jinongonongo e outros géneros na acção em favor do desenvolvimento nacional.
Como se sabe, a literatura oral é funcional na media em que responde a uma necessidade e tem uma utilidade social. Por um lado, constitui um meio de preservar e transmitir, de forma expressa ou não, os elementos essenciais da memória colectiva; por outro lado ainda, serem as mensagens susceptíveis de adequação às necessidades sociais num dado momento histórico e, por último, serem as narrações lúdicas remetidas para o período da noite pois, acredita-se que fazê-las durante o dia é susceptível de provocar calamidades ou desgraças pessoais. Cremos que estes são elementos que podem ser potenciados mesmo nos dias de hoje.
Por outro lado, a literatura oral angolana, é instrutiva, pedagógica, cultural e recreativa. É instrutiva porque o esforço de reter e narrar sem alterar o fundo de um texto favorece o desenvolvimento mental e cultiva a memória, que será capaz de apreender novas aquisições. É pedagógica porque oferece uma deontologia das regras de bom comportamento; não separando a verdade da vida, ela veicula essencialmente as normas que regem a vida em sociedade e o comportamento. É cultural porquanto, embora maleável, ela oferece a possibilidade de dar a conhecer o sistema de valores, a visão do mundo e os modelos culturais de um povo, contribuindo ao mesmo tempo para a manutenção de certas formas sociais, representando uma vantagem na aprendizagem e no manejo da língua. Por último, é recreativa porque responde neste aspecto às necessidades que nas literaturas escritas são desempenhadas pela leitura de poemas, romances e outras obras de ficção.
Temos para nós que os textos orais possuem frequentemente um elevado valor estético e que por eles se perpetua toda a vida das comunidades em que se desenvolvem; que as verdades que contêm, os comportamentos que condenam e as condutas que propõem; por eles se procede a toda uma formação intelectual e se desenvolve o raciocínio lógico e o espírito crítico e ainda que apresentando-seprivilegiadamente em espaços colectivos como os jangos, em círculos da vida social e comunitária portanto, constituem-se como elementos importantes da socialização do indivíduo e como factores que favorecem a coesão social. Por outro lado, temos para nós que, apresentando-se a literatura oral nas línguas nacionais e mesmo na língua portuguesa, como resultado de novas criações como sejam a história do jacaré que foi pagar imposto ( não se trata de nenhum jacaré bangão, mas de um mito para a resistência anti-colonial) ou a história do “ mata oficiais” e dos irmãos Kambuta que alimentaram em muitos de nós o espírito patriótico, mesmo com as suas naturais interferências, constitui um elemento particular de identidade cultural, de preservação das línguas nacionais e de enriquecimento do universo simbólico e do imaginário da língua portuguesa.
Temos por isso que, descomplexadamente, a prática da literatura oral deve ser cultivada nas escolas, nos centros infantis e outros círculos afins, nas condições específicas de cada lugar ou região, aproveitando-se assim as vantagens que a mesma apresenta no que se refere à educação moral e cívica. Estamos persuadidos de que um trabalho desta natureza poderia ser feito sem implicação de custos, desde que engajando toda a comunidade e que, certamente, haveria outros proveitos, particularmente no domínio do lazer e, repetimos, da educação moral e cívica e da acção em favor do desenvolvimento nacional e comunitário. Não se tratando de substituir o livro pela palavra dita, mas de fazê-los coexistir activamente no interesse de todos e da nação, aqui fica o repto: - porque não, nas escolas, nos círculos infantis e noutros locais, promover actividades com os textos orais locais? Certamente que os professores, os educadores e todos nós, teremos na nossa mente contos, provérbios, canções e adivinhas que se adequam perfeitamente à modernidade e às exigências do progresso. E caso não os tivéssemos, estariam certamente ao alcance de todos. Talvez bastasse a nossa atenção, ou um lápis e um pedaço de papel.

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